DrumWave lança carteira para monetização de dados; empresa tem acordo sigiloso com Serpro

André Velloso acredita que dados podem gerar renda.

A primeira carteira virtual de dados “monetizáveis” chega ao mercado brasileiro no dia 15 de outubro para transformar dados de pessoas e empresas em moeda. A dWallet é a ponta do iceberg de um ecossistema idealizado pela DrumWave, empresa brasileira de alta tecnologia, um misto de fintech e big tech, que nasceu em Palo Alto (California) em 2015. A startup usa blockchain. Ao apostar em monetização de dados, a empresa está alinhada, por exemplo, ao que o Banco Central (BC) pensa para o futuro de quem usa o mercado financeiro – ou seja, passar a receber por dados pessoais que hoje os prestadores de serviços têm de graça.

O sócio fundador da DrumWave é André Vellozo, e o presidente e sócio da empresa é Fernando Teles, que foi o diretor da Visa para o Brasil por cinco anos, até 2021. Eles apresentaram o produto nesta semana em São Paulo a uma plateia de potenciais clientes. No começo, a startup oferecia serviços de gerenciamento de dados para grandes empresas, como bancos e de telecomunicações.

De acordo com Vellozo, “tudo o que a gente faz todo dia, e o que não faz também, até dormindo, gera dados. Para a DrumWave, monetizar dados não é comprar e vender data service. É dar para os dados três coisas: divisibilidade, transportabilidade e resistência a fraudes. Tudo isso é característica de moeda”. O CEO lembra que hoje as pessoas podem fazer o que quiserem com seu dinheiro, mas com seus dados, nada, reportou o Fintechs Brasil, hub de notícias parceiro do Blocknews.

DrumWave audita dados monetizados

A dWallet diz que mudará esse cenário ao permitir ao usuário conectar, estocar e compartilhar seus dados com ofertas simplificadas e gratuitas. Para garantir autenticidade dos dados, a DrumWave usa três camadas de algoritmos, batizado de DIM – data, information e meaning (dado, informação e significado, em português). “Dado não auditado não pode ser monetizado”, diz.

O ecossistema arquitetado pela DrumWave vai permitir ao usuário organizar, autenticar e vender seus dados a terceiros. Além disso, a startup fechou uma parceria com a IBM, que entra com Inteligência Artificial, hospedagem da plataforma na sua cloud híbrida e outras tecnologias, a agentes de dados, certificadores e “data apps”. Os agentes de dados serão os corretores que conectarão as ofertas às demandas. A DrumWave já tem alguns parceiros entre empresas de diversos segmentos, incluindo bancos, por exemplo.

Em junho passado, o Diário Oficial da União (DOU) publicou um acordo da empresa com o Serpro, onde estão armazenados dados de todos os tipos e de todos os brasileiros. Quem primeiro publicou a informação foi o site de notícias Capital Digital. No entanto, nenhuma as partes deu detalhes sobre o acordo classificado como de cooperação. A alegação foi a de sigilo comercial.

O deputado federal Carlos Nobre (PT-PE) pediu que fossem solicitadas informações ao Ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o acordo. O presidente da Câmara, Arthur Lira, aprovou o pedido. No último dia 12 de setembro, a Secretaria Geral da Mesa uma resposta “CONFIDENCIAL” – é assim, em letras maiúsculas, que está a descrição.

Fernando Teles, CEO da DrumWare.

O lançamento da dWallet será faseado e o negócio deve estar 100% no ar em junho do ano que vem.  O onboarding das contas começará por usuários pessoas jurídicas, e deve terminar em dezembro; a fase chamada de “estabilização” vai de março a junho de 2023, com a realização de foruns técnicos e suporte aos agentes de dados; a expansão começa em junho, com a escalada do ecosssistema, aplicativos de dados comerciais e avançados, explicou Cecílio Cosac, CTO da DrumWave – o engenheiro responsável por colocar em pé o projeto visionário de Vellozo.

A carteira de dados permite que pessoas e empresas decidam se e como querem dar acesso aos seus dados a outras pessoas ou empresas e também possibilita receber um reconhecimento, recompensa ou remuneração nestas transações.

Troca de dados sem Google, Amazon e Apple

A pessoa ou empresa vai baixar a sua D-Wallet e abrir uma conta poupança de dados. Depois de autenticados, o usuário poderá ativar o valor dos dados que troca com toda pessoa, empresa, banco, produto ou serviço com o qual se relaciona – sem Android, Google, Amazon ou Apple no meio.

Vellozo acredita que exista hoje um mercado potencial pra compra e venda de dados no valor de US$ 1,8 trilhão. A DrumWave – que até agora ganha dinheiro tratando dados para empresas – quer passar a ganhar um “interchange fee” no novo negócio. A DrumWave quer trazer 20% desses dados que valem dinheiro para um ambiente fechado. “Vamos dar poder ao dono dos dados”.

Em entrevista à Bloomberg em julho passado, Vellozo disse que as APIs vão operar dentro dos aplicativos dos bancos. O cliente pede seus dados – que já pode acontecer hoje, em especial porque há o open finance – e a DrumWave vai ser uma proxy, criando uma conta de dados para ser monetizada por investimentos.

Ao longo da apresentação, os executivos deram diversos exemplos de aplicação da dWallet. Uma pessoa diabética, por exemplo, pode vender todas as informações sobre oscilação diária dos seus níveis de insulina, consumo de medicamentos e alimentação seja para outros grupos de diabéticos seja para a indústria farmacêutica desenvolver novos remédios, por exemplo. Uma pessoa saudável aos 70 anos também pode dividir seus dados relativos a seu estilo de vida com pesquisadores para servir de benchmark. Pais e mães podem coletar informações de seus filhos desde o nascimento, o que inclui doenças e remédios, comportamentos e consumo, progressão de peso e altura, desempenho em esportes e estudos – criando uma poupança para “sacar” no futuro e ajudar no financiamento dos estudos.

Criptomoedas

Vellozo é um dos que não acreditam nas criptomoedas. Na entrevista à Bloomberg, disse que nunca acreditou nas criptos. “Para mim, são mídia social do mercado financeiro”, porque vão tirar os bancos como intermediários do mercado financeiro. Para exemplificar seu ponto, citou que as mídias sociais tiraram o intermediário, no caso os veículos de comunicação, para informação, algo que na verdade, não se aplica.

Isso porque uma parte do trabalho da imprensa independente, como é o caso do Blocknews, é coletar informações e que sejam relevantes para os leitores. Fazer a curadoria do que é verdadeiro, aparentemente verdadeiro, duvidável e falso, conversar com especialistas e buscar dar ao leitor um cenário confiável. Essa é apenar uma parte e é algo que a mídias sociais não têm nem como meio e nem como fim. São, claro, meios de comunicação, mas não imprensa.

Brett King, o futurologista

O futurologista e autor de best sellers australiano Brett King – considerado o “avô” das fintechs – encerrou o evento com uma palestra imperdível. King faz parte do board of advisors da DrumWave, assim como João Bezerra Leite, investidor anjo da Bossanova e ex-diretor de tecnologia do Itaú. Ouça abaixo, na íntegra, o que Brett espera para 2050: https://www.youtube.com/watch?v=Q2EJ4KZiEtk&t=10s

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The New Nature of Data, por André Vellozo

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