Projeto brasileiro busca conscientizar empresários e investidores sobre ligação entre democracia e inovação

Thiago Padovan, co-fundador do projeto Villa.

Pouco se fala sobre o assunto, mas um dos maiores riscos para a inovação é um regime ditatorial ou autocrático. O relatório de 2024 do instituto sueco V-Dem , referência global no assunto, mostrou que em dez anos, aumentou em 48% o número de pessoas no mundo que vivem em autocracias, para 5,7 bilhões de pessoas, ou 71% do total. De olho nisso, surgiu no Brasil o projeto Villa, para discutir e buscar respostas para se garantir um futuro democrático e inovador no país. Um dos fundadores é o especialista no assunto e em blockchain e ativos digitais, Thiago Padovan.

Em entrevista ao Blocknews, Padovan, que em 2016 co-fundou a Blockchain Academy, primeira escola sobre o assunto no país, afirmou que em países autocráticos, decisões sobre inovação se baseiam “em crenças ideológicas e/ou partidárias. Já em ambientes mais livres e democráticos, existe uma maior participação da sociedade civil, das empresas, organizações e associações nas decisões”.

Na entrevista a seguir, Padovan fala a relação entre democracia e inovação e sobre as atividades do Villa, criado no final de 2023.

BN: Você está envolvido num projeto ligado a democracia e inovação. Qual é a relação entre os dois?

TP: Desde o ano passado, com alguns amigos, iniciamos o projeto Villa, que é um Think Tank com foco em analisar, propor e influenciar conversas e projetos que potencializam o impacto da democracia para os ecossistemas de negócio, de inovação e da tecnologia. 

Por um lado, entendo que a democracia ou o processo democrático podem ser considerados a maior invenção que a humanidade foi capaz de criar, pois foi um marco no formato de governança de grandes grupos de pessoas. Ao invés de sermos governados por uma pessoa, um pequeno grupo, uma família ou um partido, poderíamos criar regras e instituições fortes que iriam regular os conflitos em um formato interativo e baseado em acordos, a democracia, ao invés de disputas e guerras, ou seja com as autocracias.

É importante ressaltar aqui que quando falo em democracia não estou falando do processo eleitoral ou sobre a vontade da maioria, que são as primeiras ideias que podem nos vir à cabeça quando pensamos neste tema, mas sim como um processo de desconstituição de autocracias. É um processo que, mesmo não sendo perfeito, permite, por exemplo, correção de rumo, autoavaliação e troca de governantes, quando não atendem as demandas da sociedade. 

BN: A relação entre democracia e inovação está então na liberdade de modificar o que existe?

TP: Este processo democrático proporciona um ambiente mais livre em todos os sentidos, pois com as regras claras, todos podem de alguma forma participar do debate público, se associar e interagir com quem quiser, trabalhar mais livremente com as tecnologias existentes e promover ambientes interativos de conversa tanto dentro, como entre empresas e organizações diferentes para se criar trocas valiosas e significativas. 

Sendo esse o princípio do significado da inovação, uma sociedade que tem a liberdade de interagir e modificar e propor novos usos para serviços, produtos e tecnologia, podemos relacionar esses dois conceitos diretamente. 

BN: O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criou o conceito de “anéis burocráticos” para se referir ao grupo limitado de grandes empresas que tinha acesso ao governo durante a ditadura militar (de 1964 a 1985) no Brasil. Numa ditadura, esse é um dos riscos para as empresas inovadoras, em especial as menores e mais ágeis, de ficarem à margem de decisões, definição de políticas e concessões de benefícios?

TP: Certamente. Como falei anteriormente, quanto mais democracia, maior a possibilidade de participação da sociedade, das empresas e das associações se organizarem e reivindicarem mudanças e melhorias. Em ditaduras, essas conversas praticamente não são possíveis. Ou você aceita e segue o que está sendo determinado ou você está fora do jogo.

BN: Há dados históricos que indiquem os benefícios da democracia para a inovação?

TP: Sim, temos acompanhado e analisado diversos rankings e índices de inovação global que nos trazem alguns indicativos. O WIPO Global Innovation Index 2020-2023 é um desses índices. Ele coloca que 17 dos 20 países mais bem ranqueados são democracias. 

Temos olhado as metodologias desses índices e nos parece que eles não captam todas as nuances necessárias para se medir inovação na sociedade. Isso porque dão um peso muito grande para a produção de patentes, por exemplo, Mas, mesmo assim, as democracias lideram com folga esses índices. 

BN: Países com ditaduras também investem em C&T e Inovação. Qual a diferença da produção deles para os democráticos?

TP: A diferença está no processo de decisão sobre para onde vai esse investimento e como ele será aplicado. Geralmente, em países autocráticos essa decisão se baseia em crenças ideológicas e/ou partidárias. Já em ambientes mais livres e democráticos, existe uma maior participação da sociedade civil, das empresas, organizações e associações que podem se envolver nessas decisões. 

BN: O mundo parece viver uma polarização com pouco espaço para conversas construtivas. O ritmo e a qualidade da inovação estão, então, sob risco? 

TP: Completamente em risco. Não só no quesito inovação, mas sob todos os aspectos das liberdades individuais, civis, de expressão, de associação, por exemplo. A polarização tóxica que estamos presenciando mina os valores democráticos, eleva novamente as disputas para um nível “guerreiro” e nos afastamos das conversas para chegar em acordos para a resolução dos conflitos.  

BN: Como o projeto pretende transmitir a mensagem da importância da democracia para os processos de inovação?

TP: Estamos desenvolvendo uma série de ações como conversas individuais com empresários, empreendedores e profissionais de inovação e tecnologia. Também promovemos debates, treinamentos e experiências para empresas, eventos de negócio, inovação e tecnologia. Temos ainda uma newsletter e canais no Instagram e no LinkedIn, onde publicamos alguns artigos e novidades sobre o projeto. 

Estamos com um projeto de promover conversas para pequenos grupos sobre esses temas com personalidades de destaque neste campo, como políticos, economistas, pensadores e empresários.

BN: O projeto surgiu de uma percepção de que o conhecimento dessa relação entre democracia e inovção ainda é pequeno no país?

TP: Exato. Muitas vezes, não valorizamos o que conquistamos em termos de liberdade e/ou damos essa conquista como certa e isso está se mostrando um equívoco. Estamos em um período de diminuição das liberdades no mundo todo. Precisamos, ainda mais neste momento, valorizar essas conquistas e trabalharmos para, em primeiro lugar, não perdemos o que conquistamos. E em segundo lugar, avançarmos cada vez mais sob todos os aspectos dessas conquistas.

BN: Quais os próximos passos do Villa?

TP: Queremos reunir empresários, empreendedores e profissionais de inovação e tecnologia que se identificam com esse diagnóstico, mas não conseguem visualizar muito bem como sair dessa encruzilhada. Nós não temos também todas as respostas. Nossa intenção é compartilhar essas preocupações e reunir o máximo de pessoas possível para podermos, aí sim, juntos, criarmos novas condições para o futuro. 

Repito o que bem disse Yuval Harari (filósofo e professor israelente, autor de Sapiens: Uma breve história da humanidade) em uma entrevista recente: “penso que a melhor coisa que a maioria das pessoas pode fazer é juntar-se a uma organização ou a uma instituição, pois o superpoder do homo sapiens é a capacidade de cooperar em grande número se quisermos fazer uma mudança no mundo. Fazer isso como um ativista isolado é quase impossível, mas 50 pessoas cooperando numa organização ou numa instituição podem fazer uma mudança muito maior do que 500 pessoas isoladas”

É isso o que queremos.

Compartilhe agora

2 comentários em “Projeto brasileiro busca conscientizar empresários e investidores sobre ligação entre democracia e inovação”

  1. Interessante perspectiva sobre a democracia nas relações na sociedade, organizações e empresas. A partir do fazer e inovar, com conversações democráticas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *