Será o ano de DePIN?

DePin podem crescer em 2024. Imagem: Geralt, Pixabay.

Neste ano de 2024, esperamos deixar para trás a narrativa de que cripto e web3 não são nada além de um cassino virtual, um enorme esquema de pirâmide, ou simplesmente imagens de macacos. O ano promete ser um marco, trazendo uma enxurrada de novas narrativas que moldarão o futuro da tecnologia blockchain. Por exemplo: os ETFs de bitcoin spot serão aprovados? As L2s são realmente a solução que vai deixar para trás os problemas de escalabilidade do Ethereum? Uma coisa que continua a faltar é um caso de uso que seja fácil de entender e que o comum dos mortais consiga visualizar sem precisar de ter mais de três anos de experiência em cripto. E é aí que entra o DePin, Decentralized Physical Infrastructure ou, em português, Infraestrutura Física Descentralizada.

O termo foi cunhado pela empresa de análises Messari (no seu relatório de previsões para 2024). E o que, afinal, é DePin e por que devemos prestar atenção nele? Basicamente esta “buzzword” abrange todos os projetos que utilizam tokens como incentivo econômico para instalar algum tipo de infraestrutura no mundo real. É, essencialmente, uma forma de terceirizar o custo e o esforço para criar infraestrutura.

Nos setores de telecomunicações, energia e coleta de dados, por exemplo, depende-se do investimento financeiro e humano de empresas estatais ou iniciativas privadas para estabelecer as redes necessárias para que algum destes modelos de negócio funcione. O que acaba por criar alguns monopólios/oligopólios nestes mercados, já que a barreira de entrada para novos concorrentes é altíssima.

Com o DePin, novos projetos conseguem rapidamente recrutar força humana e capital para que sejam estes os responsáveis por montar toda esta infraestrutura, ganhando em troca tokens ou outros benefícios no projeto como incentivo.

Que projetos são esses?

Filecoin é um sistema que reimagina como armazenamos e acessamos dados. Funcionando como um mercado descentralizado, permite que pessoas em todo o mundo aluguem espaço não utilizado em seus discos rígidos, ganhando Filecoin (FIL) em troca. É uma abordagem segura e resistente à censura para armazenamento de dados, atraindo tanto usuários individuais quanto grandes projetos de blockchain. Além de armazenamento pessoal, Filecoin está sendo adotado por empresas para armazenamento de dados seguros e descentralizados, representando uma nova era no gerenciamento de dados corporativos.

Helium apresenta uma abordagem única para redes sem fio, utilizando uma rede descentralizada para conectar dispositivos da Internet das Coisas (IoT). Usuários podem configurar hotspots Helium em suas casas ou escritórios, contribuindo para expandir a cobertura da rede e, em troca, ganhar tokens HNT. Esta metodologia não só democratiza o acesso à conectividade sem fio, mas também promove uma expansão mais rápida e eficiente da rede.

DOR propõe rastrear, armazenar e vender dados de tráfego de pedestres através do seu sensor, o DTM. Através de incentivos com o DOR token, os seus usuários adquirem o sensor e o alugam a lojas ou empresas que podem fazer uso desses dados. O objetivo é criar uma rede global de dados de tráfego de pedestres em estabelecimentos comerciais.

HIVEMAPPER é uma plataforma que utiliza tecnologia blockchain para criar um mapa colaborativo e atualizado do mundo. Usuários com dashcams contribuem para o mapeamento coletivo ao gravar e compartilhar imagens de suas rotas. Em troca, eles recebem tokens HONEY, incentivando a participação contínua na rede.

NODLE é uma rede descentralizada que permite que os usuários ganhem tokens NODL ao usar os seus smartphones como Nodes da rede. Utilizando serviços de Bluetooth e localização, os smartphones conectam-se a dispositivos e sensores da IoT, coletando e transferindo dados desses dispositivos. Esse processo é simples e não compartilha dados pessoais dos usuários, permitindo que eles ganhem tokens NODL enquanto contribuem para a rede.

Parece tudo incrível, mas?

Apesar das promessas, há desafios significativos. Atualmente todos estes projetos utilizam o próprio token como incentivo para a construção das suas redes ou infraestrutura, o que quer dizer que quanto maior a rede maior a emissão do token de incentivo, acabando por gerar uma inflação considerável.

Sobre a questão da real necessidade de infraestruturas descentralizadas, temos uma boa crítica do @castacrypto. Ele argumenta que projetos que querem descentralizar uma boa parte da infraestrutura de internet atual podem não ser tão práticos assim. Ele fala sobre a complexidade e o custo elevado de manter tudo isso descentralizado, além de questionar se vale a pena trocar o que já está funcionando e é centralizado por algo descentralizado que nem sempre traz vantagens claras.

E agora?

Pode parecer que todos esses projetos estão fadados ao fracasso, mas é importante considerar que a trajetória do DePIN não segue o mesmo ritmo que a dos Defi (Finanças Descentralizadas), NFTs (Tokens não-fungíveis) ou memecoins.

Para que esses projetos alcancem um ponto de virada significativo, é necessário que suas redes atinjam um tamanho considerável. Somente então poderão efetivamente competir com os players estabelecidos nos mercados em que buscam entrar, como o Hivemapper frente ao Google Maps, ou o Helium em comparação com operadoras de internet. Da mesma forma, o crescimento das redes do Filecoin e do DOR é crucial para atrair usuários para seus serviços e dados.

Outro aspecto relevante é a capacidade desses projetos de levar infraestrutura a locais e comunidades onde não seria rentável para os atuais atores do mercado. Esse aspecto pode ser uma grande vantagem.

No fim das contas, o termo DePIN pode ser um tanto ambicioso para o que esses projetos realmente propõem. Talvez um termo mais adequado seria DeBiz’ indicando que o que é descentralizado é o próprio negócio, permitindo a participação de qualquer pessoa no empreendimento sem a necessidade de formalizar uma pessoa jurídica.

A resposta, como sempre neste espaço, é fazer sua própria pesquisa. No entanto, o DePin tem um atrativo claro de que está efetivamente a atacar casos de uso reais com os quais já convivemos diariamente, como usar mapas, usar internet ou mesmo utilizar dados para tomar decisões de negócio. Vamos ficar atentos para ver como esta narrativa evolui em 2024.

*Este artigo foi publicado originalmente na newsletter da Bankless Brasil.

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