Tokenização: 2024 ainda será ano de “quebrar pedra”, dizem especialistas

Da esq. para dir.: Fabricio Total, Bernardo Quintão, Juliana Walenkamp, Lucas Schoch e Felipe Whitaker.

O ano de 2024 ainda vai ser um período “de quebrar pedra” para que se chegue a uma adoção mais ampla da tokenização de ativos. A opinião é de Guga Stocco, especialista e investidor em negócios digitais. Só que ele não está sozinho nesta visão. Questões como regulação e lançamento do Drex colocam o potencial de se tokenizar ativos tanto em compasso de espera, como em ritmo de testes para ver o que funciona, disseram empresários que como Stocco, participaram do Token Trends 2024. O evento foi um jantar para representantes do ecossistema blockchain, na última quinta-feira (16), em São Paulo, organizado por Rubens Neistein, cofundador e CMO da Insignia, e Bernardo Quintão, head de desenvolvimento de negócios da Backed.

“Ainda tem muito para ajustar. A tecnologia blockchain é nova”, disse Stocco. Dessa forma, exige uma regulação também nova, exemplificou. “Tem muita coisa para ajustar”, afirmou o especialista que participou da criação de empresas como o Banco Original. De qualquer forma, blockchain traz benefícios que não têm volta, como o fracionamento de ativos, que podem aumentar o acesso de bens como imóveis a mais investidores, além de gerar uma enorme liquidez do ativo.

O Drex, que indica um potencial movimento de tokenização da economia brasileira, neste momento está fazendo muitas empresas colocaram o “pé no freio”. Isso porque aguardam para ver a evolução do piloto e como funcionará a plataforma. “O mercado vinha desenfreado (com a tokenização), mas agora deu um passo atrás esperando pelo real digital, disse Lucas Schoch, CEO da BWS. A empresa que mudou o foco de B2C, onde ainda atua como Bitfy, para soluções direcionadas a B2B.

Para ele, em 2024 haverá muitos testes de tokenização. Além disso, lembrou que sem a regulamentação pronta, ainda é incerto quem terá autorização para tokenizar. O Banco Central deverá deixar isso claro nas regras que divulgará. Schoch afirmou, no entanto, que muitas instituições, incluindo bancos, querem fazer testes apenas em Hyperledger Besu, a blockchain do Drex, “o que não faz sentido porque ainda é um piloto”. E alerta “muita gente não está prestando atenção em todas as discussões (sobre tokenização)”.

Juliana Walenkamp, diretora institucional de vendas para América Latina da BitGo, especializada em custódia de ativos digitais para instituições financeiras e empresas, afirmou que por enquanto, “a tokenização ainda está muito focada na substituição de produtos tradicionais para blockchain”.

Para a executiva, a entrada dos bancos no setor ajuda a mostrar que blockchain não se trata de golpe. Mas, o processo agora é de entender o que fazer com a tecnologia. Por isso, acredita que “ainda vamos criar produtos financeiros com muito impacto”. E lembrou que a rede criada por Satoshi Nakamoto trata de transparência, é global e permite a inclusão financeira com serviços mais baratos.

Guga Stocco citou o projeto da SpaceVis, em que é investidor, e que hoje faz rastreamento de bois. Isso permite, por exemplo, saber se o animal está vivo, se não está passando por onde não deve, como terras indígenas e tokenizá-los para operações como garantias de produtos financeiros. Hoje, é uma solução B2B.

“Mas, quando quiser levar para o público e a regulação permitir, pode levar (a solução) para B2C. Não faz sentido não olhar para o futuro. Porém, hoje não vendemos (para B2B) porque é ilíquido, é difícil, ninguém entende”. Além disso, citou outras possibilidades de tokenização para o futuro, como a tokenização e monetização de dados e imóveis.

De acordo com Felipe Whitaker, líder de vendas e distribuição da Transfero, “o grande desafio é ter produtos para o mercado, porque demanda, tem”. O executivo afirmou que a tokenização de ativos e o uso deles em operações financeiras poderá contribuir para a expansão de setores da economia como aconteceu no agronegócio. Isso porque acredita que boa parte da contribuição do setor no PIB se deve a instrumentos como CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que passaram por bancos. “Por que o mercado cripto não pode fazer isso? Como com a tokenização de boi e imóvel”?

O executivo afirmou que a Transfero “vai focar muito no B2B. Isso inclui o uso de sua stablecoin BRZ como ponte entre o mercado financeiro tradicional e o cripto. Assim como ser um gateway para América Latina na tokenização de ativos. A BRZ é pareada ao real e é a maior pareada a uma moeda oficial na região.

Enquanto isso, a Backed, startup suíça que foca em tokens de ativos financeiros, vai se concentrar em mercados emergentes da Ásia e no Brasil. Para o mercado brasileiro, acaba de fechar um acordo de distribuição com a Transfero. “2024 será um ano de acesssibilidade, de muita integração de DeFi (finanças descentralizadas), criando produtos e usando tokens como garantia”, disse Bernardo Quintão.

O executivo, que é um dos mais antigos no ecossistema blockchain do país, defender que em DeFi “dá para fazer coisas que no tradicional não se pode, como gestão de risco em tempo real e interoperabilidade entre vários protocolos”.

Rubens Neistein, que há anos estuda e trabalha em projetos envolvendo tokens e imóveis, lembrou que imóveis não são bens com alta liquidez. Mas tokenizar parte de um imóvel e depositar as criptos num protocolo DeFi pode ser uma operação de 15 minutos que pode gerar liquidez. “Isso acaba com a dor (de falta de liquidez) de qualquer proprietário”, completou. O CMO da Insignia lembra que esse é um setor que teve poucas mudanças nos últimos anos.

O mercado imobiliário tem um potencial de tokenização altíssimo, mas quando os projetos esbarram em vendas de tokens mobiliários, podem ser barrados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). De qualquer forma, em alguns pontos tem havido avanços que podem ajudar num futuro aumento de tokenização, como registro eletrônico, afirmou Renato Mirisola Rodrigues, sócio do Bicalho, Mirisola, Bresolin, Dias Advogados.

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