Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Rodrigo Batista, ex-Mercado Bitcoin, está criando a Digitra, bolsa de criptos

O ex-sócio e ex-CEO do Mercado Bitcoin, Rodrigo Batista, está criando mais uma exchange para chamar de sua, a Digitra. E num mercado cada vez mais povoado de concorrentes. O executivo deixou o MB em 2019, quando vendeu sua participação aos irmãos Gustavo e Maurício Chamati. E na ocasião, Reinaldo Rabelo assumiu como CEO.

A empresa não informou a data de lançamento. Disse, no entanto, que o objetivo é ser uma plataforma global. Embora seu registro seja no Brasil, vai focar também em Europa e Ásia.

E informou também que o financiamento do projeto veio dos recursos dos sócios, mas que negocia a entrada de fundos. Além disso, afirmou que trará produtos inéditos, uma vez que acredita na junção das finanças tradicionais e dos ativos digitais.

A meta de Batista com a Digitra é bem ambiciosa: chegar a um cadastro de 1 milhão de clientes no final de 2022 e negociar R$ 30 bilhões nesse período. “O desafio é gigante. Mas era ainda maior quando entrei neste mercado e ajudei a dar o chute inicial dele no Brasil”, afirma.

A título de comparação, o MB, que é do grupo unicórnio 2TM, tem 2,8 milhões de cadastrados. A mexicana Bitso, também unicórnio, também veio para o Brasil. E há outros projetos do tipo em expansão ou de olho no Brasil.

Batista quer Digitra no mercado externo

O projeto da Digitra tem 16 pessoas. A Fireblocks, especializada na guarda e seguro dos ativos digitais, é parceira da bolsa. A tecnologia que vai usar, segundo Batista, é própria. para instituições financeiras.

Depois que saiu do MB, Batista estudou administração de empresas em Harvard, no OPM, em Harvard. Lá, também estudaram empreenedores como Beto Sucupira da Ambev e o publicitário Nizan Guanaes.

Batista também investiu na criação de startups, inclusive na Digitra. O executivo começou a se interessar por criptos quando criava softwares para negociações financeiras tradicionais.

Visa diz que gastos com cartões de criptomoedas chegaram a US$ 1 bi em 2021

Mais de US$ 1 bilhão em criptomoedas foram gastos no mundo com cartões da Visa ligados a essas moedas no primeiro semestre de 2021. No mesmo período de 2019, o valor era uma pequena fração desse valor, disse a empresa, mas sem revelar os números. E as stablecoins estão se firmando como moedas fiduciárias digitais, completou.

A empresa divulgou o estudo “Digital Currency: Visa’s Vision for Supporting the Future of Money”. E disse que 25% das startups do Fintech Fast Track, seu programa de aceleração, trabalham para emitir cartões associados a uma plataforma de criptomoeda.

“Essas plataformas estão se diversificando e apostando em novas ferramentas e funcionalidades para atender a uma série de necessidades do consumidor. Por exemplo, contas remuneradas, empréstimos e depósitos diretos”, diz o comunicado da empresa.

A afirma ainda que os mais de US$ 100 bilhões em stablecoins em circulação mostram que começam a se concretizar como moedas fiduciárias digitais. Tão fácil de usar quanto as criptomoedas. Assim, a empresa tem parceria com a Circle, por exemplo, que gerencia a USDC, lastreada em dólar.

No Brasil a empresa trabalha com empresas como Alterbank, Zro Bank e Ripio em um modelo de carteira digital com cartão de débito. Dessa forma, o cliente acessa o saldo em reais e converte o dinheiro em criptomoedas.          

A Visa trabalha com 50 plataformas de criptomoedas em programas de cartão para conversão e uso de criptomoedas. As transações ocorrem em em 70 milhões de estabelecimentos comerciais no mundo. Para operar com moedas criptografadas, a Visa criou uma rede de redes.

A Visa escolheu o Brasil como um dos primeiros países a ter APIs (interfaces de programação de aplicações) para criptomoedas nas redes da empresa.

PF prende fundador do Bitcoin Banco, que já tinha dado golpes na Europa e EUA

A Polícia Federal (PF) prendeu, nesta segunda-feira (5), Claudio Oliveira, fundador do Bitcoin Banco e suspeito de aplicar um golpe de R$ 1,5 bilhão em seus 7 mil clientes. A prisão aconteceu com a deflagração da Operação Daemon no Paraná.

Oliveira teria conseguido dar um suposto no Brasil, segundo a PF, mesmo depois de ser preso em Portugal e extraditado para a Suíça por crime financeiro naquele país. Também é fichado em Miami. E aqui, disse que operava o equivalente a R$ 500 milhões em bitcoin por dia. Só que não era nada na rede bitcoin, mas numa plataforma sua, ou seja, falsa.

O Bitcoin Banco em 2018 até o início de 2019. Oliveira se autointitulou Rei do Bitcoin. Ele chegou a contratar uma da principais agências de relações públicas do país para divulgar seu suposto negócio para a imprensa. Uma funcionária do banco fazia propaganda no programa de Amaury Júnior.

Mas, no início de 2019, da noite para o dia, o banco suspendeu os saques, alegou que o motivo era um ataque de hacker, que nunca provou, e o negócio ruiu. Chegou a pedir, e conseguiu, recuperação judicial. Mas, não cumpriu as obrigações que a justiça determinou. E não só isso: continuou a oferecer investimentos.

De acordo com a Polícia Federal, agora, o objetivo é aprofundar a apuração “da prática de crimes falimentares, de estelionato, lavagem de capitais, organização criminosa, além de delitos contra a economia popular e o sistema financeiro nacional”. E tentar ressarcir, ao menos em parte o que os clientes perderam. Portanto, vai continuar a investigar o patrimônio do grupo, inclusive criptomoedas.

Donos do Banco Bitcoin não cumpriram acordos

Assim como Oliveira, sua esposa Lucinara e mais três pessoas foram presas. Houve, ainda, decretação judicial de sequestro de imóveis e bloqueio de valores. Isso inclui dinheiro, carros de luxo, inclusive uma Maserati, e joias.

Tudo, segundo as suspeitas, comprado com o dinheiro dos clientes da empresa. O Bitcoin Banco chegou a fazer acordos extrajudiciais para devolver os valores, mas nunca cumpriu. E não só: em 2020, também continuava a oferecer investimentos.

Portanto, quando os clientes colocavam seus recursos na empresa achando que estavam comprando bitcoin, na verdade estariam, sem saber, dando recursos para o grupo gastar como queria.

Segundo o delegado da operação, Filipe Hille Pace, o grupo nunca conseguiu provar que tinha uma carteira com 7 mil bitcoins. Porém, para justificar os ganhos havia, por exemplo, uma arbitragem entre duas corretoras com ganho pré-definido. E houve desvios de recursos por meio de laranjas.

72% dos clientes de alta renda investiram em criptomoedas em 2020

O perfil do cliente de alta renda está mudando em direção à tecnologia e aos ativos digitais. E isso se espelha, por exemplo, no fato de 72% dos chamados “high net worth individuals (HNWIs, na sigla em inglês) terem investido em criptomoedas. Essa é uma das conclusões do estudo anual World Wealth Report 2021 da Capgemini.

O estudo entrevistou 2.900 pessoas em 26 países, sendo 200 no Brasil e México. A sondagem aconteceu entre fevereiro e março deste ano. De acordo com a Capgemini, 74% dos entrevistados investiram em outros ativos digitais como nomes de domínios na internet.

O estudo traz um alerta sobre os preços das criptomoedas. Isso porque afirma que tanto os investidores, quanto os gestores, devem considerar o alto impacto de mais volatilidade nas cotações. Porém, também fala que os criptoativos representam novas oportunidades para ambos.

Portanto, é preciso que a expansão da economia gig e dos ativos digital, como as criptomoedas, levem os gestores a oferecer produtos adequados nessas áreas. “É hora de as gestoras de fortunas se prepararem para oferecer classes emergentes de ativos como criptomoedas e até futuras classes de ativos potencias como moeda de carbono!”, exclama a Capgemini.

“Gestores precisam ter opções em criptomoedas para clientes”

“Novas classes de ativos, além de criptomoedas e negócios sustentáveis, estão decolando. Investidores especulativos estão colocando dinheiro em tudo, de arte virtual a casas digitais e cartões digitais de baseball. Isso devido aos NFTs que correm em blockchain”, completou o relatório.

De acordo com a Capgemini, as empresas que prepararem as ferramentas adequadas, recursos educacionais e novas classes de ativos estarão preparadas para engajar clientes. E com isso, vão capturar “uma e potencial e significativa oportunidade de mercado”.

Além disso, o report mostrou que aumentou o número de mulheres de alta renda. Nos Estados Unidos, por exemplo, há 114% mais empreendedoras do que há 20 anos e 40% dos negócios do país serem de propriedade de mulheres.

Um outro ponto interessante do estudo é confirmar que 50% das pessoas abaixo de 40 anos gostariam de ter atendimento apenas virtual. Enquanto a média geral dos HNWIs é de 39%.

2TM, dona do Mercado Bitcoin, recebe US$ 200 milhões do Softbank e se torna unicórnio

A holding 2TM recebeu aporte de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) do Softbank, sendo avaliada em US$ 2,1 bilhões (R$ 10,5 bilhões). Isso torna a dona do Mercado Bitcoin o primeiro unicórnio da América Latina do segmento de criptomoedas, de acordo com notícia no Valor Econômico.

O investimento é o maior do fundo japonês no segmento na região. E é o segundo que a 2TM recebe neste ano. Em janeiro, a empresa anunciou um aporte de R$ 200 milhões Series A da GP Investments e da Parallax Ventures. Este do Softbank é Series B.

Com a explosão do preço do bitcoin, que puxou os das outras criptomoedas, a partir do final de 2020, o setor chamou mais atenção de investidores. Apesar de as cotações despencarem a partir de maio e não conseguirem se recuperar, a expectativa é de alta no longo prazo.

Houve ainda a entrada de investidores institucionais no mercado, portanto, ajudando a mudar o perfil do segmento, que se aproximou mais do lugar dos sonhos das empresas do setor. O movimento também inclui, por exemplo, grandes bancos e bolsas de valores em outros países investindo em startups ligadas a blockchain e em ativos digitais.

Como unicórnio, dona do Mercado Bitcoin entra grupo seleto

O 2TM, que planeja seguir a Coinbase e ofertar ações em bolsa, deverá usar o aporte para ampliar sua atuação no Brasil e no exterior. Um dos objetivos é ser um marketplace de investimentos alternativos.

A holding está montando um ecossistema em que uma empresa alimenta a outra. Além dessas aquisições, o grupo é dono do banco digital Meubank, da plataforma de crowdfunding Clearbook, da Bitrust, de custódia digital de criptoativos. Assim, ao crescer, entra no grupo seleto de unicórnios financeiros como Nubank e Mercado Livre.

Além disso, com o investimento do GP e da Parallax, comprou a Blockchain Academy, de educação financeira sobre criptoativos e blockchain, a gestora de fundos ParMais e participação na FIDD, de serviços de administração e custódia e operação de títulos mobiliários.

Enquanto bancos centrais estudam suas moedas, criptos “são caminho sem volta”

O mundo tem em estudo 64 modalidades de implementação de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). É o que apurou o grupo de trabalho sobre essas moedas da R3, segundo Keiji Sakai, responsável pela empresa no Brasil.

O real digital é uma das CBDCs em estudo. E “será relevante para novos modelos de negócios”, de acordo com Aristides Cavalcante, chefe-adjunto do departamento de tecnologia da informação do BC.

Enquanto o BC vê potenciais benefícios com as CBDCs, se preocupa com pessoas que compram criptomoedas “pensando em retorno rápido”, disse Cavalcante.

Segundo ele, quem compra cripto está sujeito, por exemplo, a problemas dos mineradores da moeda na China, como têm acontecido, e “ao coração partido de Elon Musk”. O representante do BC se referiu ao emoji do fundador da Tesla no início de junho, relacionando a figura a bitcoin.

Keiji e Cavalcante participaram, hoje (24), do painel “CBDCs, NFTs e stablecoins: qual o impacto dos ativos digitais no mercado” do Ciab 2021 da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Na quarta-feira (23), em reunião fechada com o conselho da Febraban, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que criptoativos exigem cautela pelo público. Isso porque são arriscados e não regulados.

Moedas de bancos centrais trarão novo modelo de negócios, diz BC

No entanto, durante o painel desta quinta-feira, alguns participantes concordaram que criptoativos vão crescer. De acordo com André Portilho, sócio do BTG Pactual, o banco vê convergência do sistema financeiro tradicional e dos criptoativos.

“Tem que interagir. Não adianta só estudar.”, afirmou. E disse que a instrução para a equipe do BTG é “não se apaixonar pela tecnologia. Mas pelo que pode trazer em produtos, serviços e de novo na forma como fazemos as coisas”.

A B3 também está atenta aos criptoativos, já que estão cada vez mais mainstream, disse Luís Kondic, diretor de Produtos Listados e Dados da bolsa.

“As instituições estão reagindo à demanda de clientes e nós também à potencial consolidação de criptoativos como nova classe de ativos”, afirmou no painel.

A bolsa também acompanha, por exemplo, o movimento da Bolsa de Valores da Austrália (ASX). A instituição está testando o uso de blockchain no seu sistema de liquidação. Mas adiou o lançamento para 2023.

“Estamos acompanhando para ver como integrar blockchain na nossa operação. É inegável o crescimento do mercado e é fundamental entender as possibilidades, características e buscar oportunidades”, acrescentou Kondi.

A B3 é uma das poucas bolsas do mundo que tem fundos de índices relacionados a criptomoedas. Desde ontem, são dois: um da Hashdex e outro da QR Capital.

Segundo Sakai, “há uma procura global das grandes casas financeiras, inclusive no Brasil, para que falemos mais sobre como se posicionar e as tendências sobre criptoativos”. “É caminho sem volta.”. Isso apesar da volatilidade, que pode ser uma oportunidade, completou.

Volatilidade é típico de novas tecnologias, diz sócio do BTG

Portilho afirmou que volatilidade e formação de bolhas são comuns com novas tecnologias. E lembrou as negociações de ações da Telebrás na década de 90.

Quando a nova tecnologia se soma a um movimento macroeconômico de expansão monetária, como aconteceu com os programas de auxílio dos governos durante a pandemia, “a chance de ter bolhas é grande”, afirmou.

No entanto, Portilho disse que 25% da ações da Nasdaq são mais voláteis do que bitcoin. Por exemplo, as de empresas de biotecnologia. “É assimétrico, tem oportunidade e tem risco. E é uma evolução, não tem jeito.”

Para Portilho, é preciso “entender que a partir do momento que digitaliza e descentraliza, é impossível tentar adivinhar para onde vai a tecnologia”. Quem usou internet discada, não imaginou o mundo de hoje e muito desse caminho vai acontecer na indústria financeira, completou.

A questão é como fazer essa mudança com segurança e com um arcabouço regulatório que não coíba inovação, de acordo com Portilho. “Vamos ver muito desafio regulatório daqui para frente. As jurisdições físicas estão sendo contestadas.”

No entanto, acrescentou, “o caminho parece muito promissor, embora não linear. A gente está muito animado, botando a mão na massa, trabalhando e interagindo”.