A BitMEX, uma das corretoras que mais moldou o mercado de derivativos de criptomoedas, anunciou hoje (23) seu fechamento. Será em 23 de setembro, às 4h UTC (1h no horário de Brasília). É o fim de 11 anos de uma das plataformas mais influentes e mais controversas da história do setor. A proprietária HDR Global Trading Limited, sediada em Seychelles, afirmou que a decisão se deve a uma revisão estratégica do negócio e do setor. E não deu maiores detalhes.
A empresa mudou o mercado ao lançar os contratos futuros perpétuos, hoje os principais instrumentos de negociação de cripto, segundo Gustavo Cunha, economista especialista do mercado e fundador da empresa de análises Fintrender. E criou com alavancagem de 100x. Só nas exchanges centralizadas, a liquidação de perpétuos chegou a cerca de US$ 62 trilhões em 2025. No mercado à vista ficou em US$ 19 trilhões. Fora os bilhões nas exchanges descentralizadas.
Assim, a BitMEX está encerrando as atividades justamente quando o produto que inventou está em seu momento de maior legitimação regulatória justo nos Estados Unidos (EUA). Só que fora dos domínios da própria BitMEX. Por mais de uma década, os perpétuos cripto existiram quase exclusivamente em plataformas offshore.
Caminho livre para perpétuos
Esse cenário positivo mudou de forma acelerada ao longo de 2025 e 2026. Foi quando a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) abriu caminho para os contratos perpétuos operarem dentro do arcabouço regulatório americano.
A própria agência tem descrito publicamente o movimento como uma internalização dos perpétuos cripto sob padrões regulatórios rigorosos. Isso é um contraste com a gestão anterior. De acordo com a atual liderança da CFTC, a anterior teria empurrado esse produto para jurisdições sem qualquer proteção ao investidor.
Se o mesmo produto pode agora ser oferecido de forma compliant por exchanges reguladas dentro dos Estados Unidos, a razão de ser de uma plataforma offshore nascida justamente para preencher essa lacuna perde força.
Assim, os números de contratos perpétuos podem explicar, talvez, um dos fatores do fechamento. Inovadora, a BitMEX passou a ter a concorrência de CEXs e DEXs como a nova queridinha do mercado, a Hyperliquid. Mas, a série de problemas que enfrentou com os reguladores norte-americanos pode ter trazido limitações operacionais que afetaram até sua capacidade de continuar inovando e mantendo-se forte no mercado, afirma Cunha.
BitMex enfrentou reguladores
Além disso, o mercado está cada vez mais regulado e com força com o rápido avanço da junção de finanças tradicionais e cripto, completa Cunha. Há poucas semanas, a BitMex perdeu o CEO, o CFO e o líder de crescimento, um sinal de que a situação interna não era das melhores. Para completar, o anúncio de fechamento acontece em meio à queda dos preços. O bitcoin, farol do mercado, perdeu em 2026 quase todos os ganhos de 2025.
Thomas Probst, analista da Kaiko, afirmou à agência de notícias Reuters que “o fechamento da BitMEX pode sugerir que as exchanges maiores continuarão a ganhar mercado de forma significativa às custas das pequenas e mais novas concorrentes”.
De acordo com números da Kaiko, a exchange estava movimentando cerca de US$ 400 mil ao dia e sua fatia de mercado é de 0,01%.
No entanto, o fechamento parece ordenado. De acordo com Cunha, “parece sem surpresas no meio do caminho. Em termos de maturidade do mercado, é diferente da FTX”. O novos cadastros na BitMex já foram suspensos e a empresa orienta os usuários a encerrarem posições em aberto e sacarem seus fundos o quanto antes. A partir de 26 de agosto, não poderão abrir novas posições, restando apenas a opção de reduzir as existentes.
Fechamento ordenado
Nas semanas seguintes, a BitMEX fechará progressivamente os contratos em aberto e qualquer posição remanescente no momento do encerramento será liquidada automaticamente. Quem não retirar seus ativos após o prazo final passará a pagar uma taxa de manutenção mensal de US$ 50 ou 1% ao ano sobre o saldo, o que for maior.
A fundação da BitMEX foi em 2014 por Arthur Hayes, um executivo de falas controversas, Benjamin Delo e Samuel Reed. Em seu post sobre o fechamento, Hayes fez declarações nada amigáveis no X contra as finanças tradicionais e os bancos.
No auge, entre 2018 e 2020, a BitMEX chegou a processar entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões em volume diário de negociação, com volume anual ultrapassando a casa do trilhão de dólares em ciclos de alta. A empresa também construiu uma reputação rara no setor. Ao longo de seus 11 anos de operação, nunca perdeu fundos de clientes para hackers, um histórico de segurança que muitos concorrentes não podem reivindicar.
Mas a vantagem competitiva foi corroída com o tempo. À medida que rivais maiores e mais capitalizados entraram no mercado de derivativos, a BitMEX foi perdendo participação, um desgaste que, somado ao histórico jurídico da empresa, ajuda a explicar o momento do fechamento.
Do processo criminal ao perdão presidencial
Em 2020, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) processou a exchange, seus três cofundadores e seu primeiro funcionário, Gregory Dwyer, por violação do Bank Secrecy Act. A acusação é que se promovia como um espaço onde era possível operar de forma virtualmente anônima, sem os controles básicos de KYC (know your customer) e sem um programa efetivo de prevenção à lavagem de dinheiro.
Todos os quatro executivos se declararam culpados e foram condenados a multas e penas de liberdade condicional; a própria BitMEX também se declarou culpada de violar a lei. Separadamente, a CFTC determinou que a empresa pagasse US$ 100 milhões por infrações ao Commodity Exchange Act.
O capítulo teve um desfecho inesperado em março de 2025, quando o presidente Donald Trump concedeu perdão total a Hayes, Delo, Reed e Dwyer. Hayes classificou a decisão como uma vindicação da posição que a empresa sempre defendeu. A posição é a de que nunca deveriam ter sido processados criminalmente com base, em suas palavras, em “uma lei obscura e antiquada”.
Num post também no X, o fundador da Binance, Changpeng Zhao (CZ), disse que o negócio não sobreviveu à “guerra contra cripto” do governo Biden, o mesmo que o levou à prisão. E completou: “Apenas depósitos de BTC, apenas uma blockchain, retiradas apenas uma vez por dia por meio de uma carteira multi-sig. As limitações que pareciam inconvenientes os mantiveram sem hacks”.