Negociações dos ETFs bitcoin spot começam e especialistas avaliam impactos no mercado

Bitcoin mais perto do mercado financeiro. Imagem: Jeremy Bezanger.

As negociações dos 11 ETFs de bitcoin spot aprovados pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (EUA) começaram nesta quinta-feira (11) às 12h no horário de Brasília, menos de 24 horas depois de liberados pelo regulador. Por volta das 15h00, o volume era de US$ 3,3 bilhões, sendo cerca de 45%, ou seja, US$ 1,58 bilhão, no fundo da Grayscale (GBTC), que foi convertido de um trust para ETF. No da Hashdex, que também foi convertido de ETF futuro para spot, o valor era de US$ 3 milhões, segundo dados da BitMEX Research.

O Blocknews conversou com empresários e analistas para entender o impacto dessas negociações no mercado no médio e longo prazos em duas frentes, inclusive em outros produtos que não são bitcoin ou ligados a essa cripto. Uma delas é a dos investidores institucionais e a outra é a do varejo. Umas das expectativas é o ETF trazer mais dos institucionais, que depois podem saltar para outros tipos de criptoativos. A venda de infraestrutura blockchain para ativos financeiros também pode crescer. Uma das dúvidas é se e quanto as grandes provedoras de produtos cripto podem manipular as cotações de bitcoin e altcoins. Vamos às respostas.

Comportamento dos Investidores Institucionais

Rafaella Baraldo – Co-fundadora e CEO da Pods Finance, de investimentos descentralizados – O ETF poderá ampliar a oferta de outros produtos de investimento cripto ao oferecer uma opção mais acessível e familiar aos investidores tradicionais. Isso pode impulsionar a diversificação e inovação de instrumentos financeiros baseados em criptoativos. Acredito que apenas num primeiro momento haverá diferenças entre investidores que optam pelo ETF e aqueles que preferem produtos como tokens representativos de títulos financeiros ou o de ativos reais. Enquanto o ETF pode atrair investidores institucionais e de perfil mais tradicional, produtos como tokens financeiros podem continuar atraindo um público mais interessado em instrumentos financeiros descentralizados e inovadores. Conforme o tempo passa e os tokens de produtos financeiros ficam cada vez mais provados e testados, a tendência é que os investidores tradicionais também tenham interesse em ativos assim.

O ETF bitcoin spot pode atrair novos investidores e prover mais legitimidade aos ativos cripto como opções de investimentos através da infraestrutura do mercado tradicional. Essa evolução pode reconfigurar a dinâmica entre produtos, investidores e provedores de investimentos, impactando exchanges, bancos e startups como a nossa de forma bastante positiva. Minha maior dúvida sobre o futuro do mercado com esse novo ETF é como ele pode afetar a volatilidade e liquidez do bitcoin e como isso vai afetar a volatilidade dos demais ativos, além de como será sua aceitação e regulamentação ao longo do tempo. Enquanto pode se afastar dos ideais iniciais de descentralização do bitcoin, sua aprovação pode aproximar a indústria como um todo de um público mais amplo, o que poderia ser considerado um aspecto positivo.

Cassio Krupinski – CEO da BlockBR Digital Assets, de tokenização e infraestrutura – Fatores como as estratégias de investimento, a liquidez e o tamanho do mercado subjacente ao ETF, além das condições de mercado, podem afetar o impacto do ETF bitcoin spot para os investidores institucionais. No geral, podem ser uma maneira de investir em ativos subjacentes sem precisar ter os ativos físicos. A migração de recursos para eles pode envolver a transferência de vários ativos como moedas, commodities, ações ou títulos. Os objetivos e tolerâncias de risco dos investidores determinarão a abordagem de “hodl”, que significa manter os ativos a longo prazo em vez de sair do mercado. Enquanto alguns investidores podem preferir métodos mais ativos de compra e venda, outros podem preferir manter posições por longos períodos de tempo.

A estabilidade e a volatilidade dos ETFs spot podem ser questões para o futuro, bem como as implicações de custos e vantagens em comparação com outros investimentos. Além disso, as escolhas dos investidores podem ser afetadas por mudanças nas regulamentações e no cenário macroeconômico. Em relação ao whitepaper de Satoshi Nakamoto, é importante lembrar que a intenção dele era criar um sistema de pagamento peer-to-peer (P2P) totalmente descentralizado, enquanto os ETFs spot são produtos financeiros centralizados que representam a propriedade dos ativos subjacentes. O objetivo inicial de Nakamoto, que era criar uma forma descentralizada de transferência de valor, pode ser compatível com os ETF spot e era inevitável o mercado descentralizado se aproximar da linha do centralizado, que é onde se movimenta o maior volume.

Caroline Nunes, fundadora e CPO da Infratoken e da InspireIP – O ETF bitcoin spot é um marco essencial em termos de impacto sobre outros produtos de investimento cripto, porque vai trazer uma credibilidade muito maior sobre as moedas digitais. Muitos investidores ainda olham “de lado” para as criptomoedas. E com os ETFs de bitcoin spot, começamos a construir uma ponte para adoção em massa e a facilitar a entrada dos investidores tradicionais no mercado cripto via mercado financeiro tradicional. Além disso, a aprovação vai trazer estabilidade ao mercado de bitcoin. Mas isso se aplica também a outras criptos como ethereum e polygon. Com o lançamento de outros ETFs spot, que espero que sejam num futuro próximo, pode-se esperar uma redução gigantesca na volatilidade conhecida do mercado e que afasta muita gente. Acredito que ETF é uma porta de entrada para o investidor tradicional colocar o pé na água, sentir a temperatura e depois mergulhar mais a fundo. Com o tempo, podem começar a explorar outras opções de investimentos em cripto ou que representam ativos financeiros ou RWAs.

O ETF de bitcoin spot vai acelerar as questões regulatórias e vai impactar todo o universo de blockchain, seja de criptomoedas ou de tokenização e infraestrutura. E isso vai trazer a tecnologia de volta aos holofotes, em especial das instituições financeiras. Isso é bom para empresas como a Infratoken. Quando tem algo mais perto do mercado tradicional, as instituições financeiras se sentem mais seguras para adotarem.

Mas, minha maior dúvida é o potencial desse ETF para manipulação do mercado. Nem todo mundo está tão animado. Há preocupações de que grandes instituições possam afetar os preços do bitcoin e assim, todo o mercado cripto. Por um lado, o ETF aproxima cripto do mainstream, mas distancia da ideia de descentralização e de o bitcoin ser para pagamento. Se firma como investimento.

Gustavo Cunha – Fundador da FinTrender.com – Pensando nos investidores institucionais, o ETF de bitcoin spot traz uma facilidade de alocação de recurso de um para o outro e isso ajuda se quiserem ter uma participação nesse mercado, mesmo que pequena. Até hoje, isso teria que ser feito por meio de contratos futuros ou por trusts ou fundos. Quanto aos recursos que irão para os ETFs spot, deverão migrar de ativos de riscos ou de longos prazos. Fundações, por exemplo, terão um veículo para fazerem isso. Além disso, há a abertura de uma outra classe de riscos dentro dos fundos. Antes, ou você custodiava cripto, ou fazia via trust, que não tem liquidez. Agora tem liquidez, transparência e tem a SEC por trás. Até no Brasil facilitou isso. Quanto à permanência nos fundos, depende de cada caso, porque não dá para falar de investidores institucionais no geral.

Considerando o whitepaper de Satoshi Nakamto, o ETF classifica o bitcoin como um investimento, o que não tem nada a ver com o que ele queria, já que não queria intermediários. Custódia fica em uma instituição e você acompanha a alta ou queda de preço.

Alexandre Vasarhelyi – co-fundador e CIO da gestora de fundos BLP CryptoA chegada dos ETFs bitcoin spot nos EUA é ótimo para os fundos ativos, pois é uma maré que levanta todos os barcos. Com a chegada dos investidores institucionais, o mercado tende a se desenvolver e profissionalizar. Além disso, os novos clientes tendem a diminuir a volatilidade do mercado. A grande dúvida é o tamanho da demanda no médio prazo.

Na minha leitura do cenário, os ETFs são uma etapa para a visão do Satoshi Nakamoto (criador do bitcoin), pois vai introduzir os ideais do bitcoin para um público muito mais amplo. Hoje não existem nem 1 milhão de carteiras de bitcoin. Este número precisa ser de 5 bilhões para a visão estar cumprida.

Theodoro Fleury, gestor da QR Asset, de fundos de cripto de gestão ativa e ETFs – Essa aprovação promete ter implicações profundas, contribuindo para a crescente maturidade e aceitação da classe de ativos digitais. A entrada de gigantes do setor, como BlackRock e Fidelity no mercado de criptoativos sinaliza uma aceitação mainstream desses ativos e promove uma adoção massiva. Em especial devido à facilidade de acesso proporcionada aos vastos números de clientes dessas instituições. Com o ETF bitcoin spot, os investidores institucionais se beneficiam de um ambiente regulatório mais favorável e da mitigação de riscos associados à custódia, tornando o mercado mais atrativo e seguro. Para os de varejo, agora encontram uma solução acessível e familiar para se expor a criptoativos.

Comportamento dos Investidores de Varejo

Rafael Castaneda (Casta), Fundador da Casta Crypto (YouTube) e da comunidade Casta Guilda – O ETF não é um instrumento comumente utilizado pelo varejo, especialmente se considerarmos o varejo de cripto. Ainda assim, caso sejam um sucesso no mundo institucional, podem significar a entrada de mais pressão compradora no mercado, o que pode impactar o preço de tela do bitcoin e ter consequências para todo o mercado, incluindo o varejo. Creio que não necessariamente os recursos a serem investidos nesse ETF sejam migrados de outros lugares. É possível que boa parte do capital venha de uma demanda reprimida que não tinha como se expor ao bitcoin à vista por não ter instrumento regulado que possibilitasse isso de forma legal. Ainda assim, parte do capital pode de fato migrar de outras soluções para as institucionais que vinham tentando cumprir esse papel mesmo que de forma menos eficiente, como o fundo da Grasycale, o GBTC. Assim, estamos vindo de uma era onde bitcoin seria catalogado como “veneno de rato ao quadrado” pelo investidor Warren Buffet, para o bitcoin como “Ouro Digital” de acordo com Larry Fink, CEO da Blackrock.

Minha maior dúvida é o quanto, de fato, temos de demanda reprimida para esse instrumento, ou seja, quantos dólares estão de fato aguardando um ETF à vista, e que não poderiam ou não teriam interesse em serem investidos por vias alternativas. Quanto maior for o apetite dessa demanda reprimida, maior pode ser o impacto real desse ETF nos próximos anos. Em meio a isso, para a maioria dos Bitcoiners mais ideológicos, especialmente os alinhados com a antiga cultura cyberpunk, os ETFs não são bem vistos. Nessa visão, a institucionalização do bitcoin retira dos indivíduos o fator da custódia própria e centraliza poder na mão de intermediários. Eles fazem a custódia efetiva das moedas, que estarão em carteiras das quais eles é que detêm as chaves privadas (de acesso às criptos). Por outro lado, a visão original do bitcoin como um sistema de micro-pagamentos P2P já perdeu força há muito tempo, enquanto procura se consolidar como uma reserva de valor. No sentido de operar como uma reserva de valor, a aprovação de um ETF à vista é interessante, visto a diferença histórica que isso fez para o ouro, por exemplo.

Orlando Telles, analista e fundador do Orlando on Crypto – Pensando no investidor do varejo dos EUA, o ETF cria um acesso mais fácil a cripto. Eles usam muito o conselheiro financeiro (financial advisor), que só aloca recursos em ativos em que têm facilidade de acesso. Quanto à migração de investimentos, deve acontecer a partir de produtos menos estruturados de criptos. Entre eles os ETFs futuros de bitcoin, como o da Grayscale, e em menor medida, do que está em corretoras. Tem também um capital novo para ingressar no mercado cripto, o que vai ser um processo de médio prazo e que é o das gestoras convencendo seus clientes a diversificarem mais as carteiras. Mas, num mercado como um todo, o ETF spot dá uma legitimação das criptomoedas. A maior economia do mundo reconheceu bitcoin como um instrumento financeiro e permitiu operação na bolsa. É uma mudança de paradigma muito forte, que corrobora a visão de bitcoin como commodity, o que é o status máximo que pode chegar do ponto de vista regulatório.

Acho que podemos fazer a mesma analogia com o mercado de ouro, que teve seu primeiro ETF em 2004 nos EUA. Antes disso, as pessoas tinham dificuldade de acesso e custódia e comercializavam literalmente barras. É a mesma lógica para o bitcoin. Se uma empresa quer ter cripto, precisa comprar, manter sob custódia. Com o ETF, basta um clique. Mas, minha maior dúvida é a reação inicial do mercado, o fluxo inicial de capital. Agora, é um momento macroeconômico incerto, com altas taxas de juros. À medida que forem reduzidas, haverá mais liquidez e entrada de capital em ETF. O grande ponto é ter um alinhamento certo de expectativas do mercado. Porque num primeiro momento, não pode acontecer esse fluxo que todo mundo imagina. Mas ao longo do tempo, sim.

Em relação ao whitepaper de Satoshi Nakamoto, o bitcoin foi criado como um ativo de protesto pela ideologia cyberpunk. Era para haver uma nova moeda e combater centralização do governo. Hoje, se transformou muito. Um dos meus textos favoritos, que é o “Visions of Bitcoin”, de Hasufly e Nic Carter (co-fundador da Coin Metrics), elabora muto bem a ideia de que o bitcoin é um ativo mutável. Esse é o ponto. Quando a gente lê o whitepaper, não há nada escrito em pedra. Na verdade, a forma como a gente lida hoje com o bitcoin como reserva de valor não é o que está exposto no whitepaper. A primeira idealização era uma moeda P2P, como talvez hoje a gente utiliza as stablecoins. Esse novo paradigma com o ETF spot é só mais um passo e mais um exemplo da capacidade de evolução do mundo blockchain, do mundo dos investimentos e de como o mercado está se adaptando a tudo isso.

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