A Crystal Intelligence, líder na Europa na análise de transações de criptomoedas com foco em fraudes, riscos e compliance, está se instalando no Brasil. A empresa fez as primeiras contratações para um mercado que define como de “rápido desenvolvimento”, disse ao Blocknews a diretora-executiva e COO, Marina Khaustova. E para ganhar espaço frente a concorrentes mais conhecidos aqui, como a Chainalysis, uma das táticas é pesquisar dados locais para compartilhar com o ecossistema e autoridades.
A empresa nasceu há dez anos na Ucrânia de uma iniciativa do Bitfury Group, que por sua vez começou como mineradora de bitcoins e provedora de equipamentos para essa operação. Hoje, o grupo atua em áreas desde hardware a segurança e software, caso da Crystal. Esse braço se tornou global e também lidera em áreas da região Mena, que inclui Oriente Médio – Dubai, por exemplo – e norte da África. Em 2025, recebeu investimento da Tether.
O atendimento para o Brasil até agora ficou a cargo do escritório de Londres. Então, por que mudar isso agora? Por que o Brasil é a bola da vez para a Crystal Intelligence? A seguir, a entrevista em que Marina conta os planos e as iniciativas já em curso para crescer aqui e enfrentar concorrentes já consolidados.
Por que investir agora no Brasil?
Olhamos para o mundo e nos perguntamos: por onde começar a nova expansão? Analisamos questões como regulação, usuários e quem atua no mercado. O maior mercado para nós são os Estados Unidos (EUA), onde há uma competição enorme e por isso, uma estratégia mais de longo prazo. A América Latina é a região em desenvolvimento mais rápida. A questão era por onde começar.
O ponto crucial (para escolher o Brasil) foram os dados de inteligência, que mostraram fatos como a existência de uma estrutura de mercado, a digitalização (90% da população tem acesso à internet), que 3% da população tem criptomoedas e a regulação está caminhando. Temos diversos clientes no país. E mais de perto olhamos, mais importante o Brasil se mostra.
Montagem da operação local
Os clientes do Brasil eram atendidos por Londres, o que começou a mudar em agosto de 2025, com as primeiras contratações aqui (Nota da Redação: ela não revela nomes). Era possível administrar, mas há uma demanda crescente no país. Por isso, estamos montando o time local. Foram contratados Zuzanna Kolucka Maeiji, diretora de vendas, e Gianluca Rigobello, gerente de crescimento, e recentemente, uma pessoa para atendimento ao cliente e outra para questões regulatórias e relações governamentais.
Além disso, vamos fazer pesquisas aqui de inteligência de dados. Vamos disponibilizar aqui o Scam Alert, uma plataforma de combate a golpes e de uso gratuito para que vítimas reportem os casos. As informações ficam disponíveis para autoridades competentes e instituições de cripto e financeiras. As instituições (do ecossistema) querem uma versão local da ferramenta. (NR: o serviço era o Whale Alert e a Crystal comprou há um ano.)
Como funciona o Scam Alert
Geralmente, as pessoas não sabem como reportar um golpe. Na Scam Alert, o usuário submete a informação e a plataforma valida se realmente é verdadeira. Conectamos informações, centenas delas, para fazer a avaliação. Analisamos a relevância. Encorajamos também as instituições financeiras e exchanges a inserir informações. E disponibilizamos o acesso aos dados às autoridades e às instituições.
Os golpes diferem entre as regiões. Na Europa, por exemplo, um golpe comum é o do romance (romance scam). Nele, um perfil falso contata uma pessoa, fica por um tempo ganhando a confiança dela, simula um relacionamento e depois aplica o golpe. Aqui no Brasil são mais relacionados a falso investimentos, como pirâmides.
Como ganhar mercado aqui
A Crystal Intelligence é muito boa em rastrear múltiplas blockhains. Estamos interessados em ativos digitais e em empresas com impacto em várias delas. Isso inclui também grandes instituições financeiras, por exemplo. Nosso objetivo é fazer o ambiente mais seguro. trabalhamos com soluções integradas, investigação e compliance numa ferramenta só.
Ter dados locais também é um diferencial. Não estamos apenas contratando pessoas e recursos para saber quem são os “fantasmas”. Podemos focar num alvo muito específico nos mercados. Mapeamos, por exemplo, algumas “cash desks” que fazem conversão (de moeda fiat) para criptomoedas. Isso é transparência. O Brasil é grande e quem opera aqui precisa saber quais são as empresas do mercado e o que estão fazendo.
Regulação e compliance
Com o avanço da regulação, está cada vez mais difícil fazer arbitragem regulatória (NR: essa arbitragem significa usar diferenças entre regulações entre jurisdições para beneficiar os negócios). Monitorar fraudes é fundamental em compliance quando há regulação. A inteligência artificial também vai ajudar. Não precisamos de mais investigadores, mas de ferramentas que compartilhem dados de golpes, com todos tendo um entendimento unificado (do problema).
Quem é Mariana Khaustova
Nasci na Rússia, de onde saiu pequena para a Grécia e depois para os EUA. Não comecei a carreira interessada em tecnologia. Ao contrário, me interessei por linguística. Depois veio o interesse por tecnologia e trabalhei com videogames e aprendi a codificar. O momento crucial foi em 2008, quando os anúncios começaram a sair da TV para a internet. Criei uma empresa para ajudar pequenas e médias empresas a anunciar na web. Foi bem sucedido. Esse conhecimento em marketing me ajudou a entrar em criptomoedas.
Por volta de 2013, 2014, as pessoas falavam sobre blockchain, bitcoin, mas não sabiam como administrar um negócio. Comecei na área mostrando como o mercado funcionava e conheci incríveis fundadores profissionais de bancos, por exemplo. E assim comecei a assessorar negócios de blockchain nos EUA. Estávamos na era pré-regulação e bancos, em especial, precisavam super ultra seguir regras de compliance com as normas do sistema financeiro tradicional desde o início.
Depois disso, por volta de 2018, houve o boom dos lançamentos falsos de criptomoedas (ICOs). Foi um momento dramático. A Bitfury estava minerando, investindo em startups e conversou comigo por causa do meu perfil em compliance. Comecei, então, a assessorar a empresa na Ucrânia no que resultou na Crystal Intelligence.
Me mudei para a Europa e me juntei ao time. Fui a CEO de 2019 a 2025. Hoje sou diretora-executiva e COO. Éramos muito pequenos no começo. Não tínhamos claro inicialmente que trabalharíamos com o setor financeiro. Conseguimos nosso primeiro cliente, que depois nos deixou. Mas estávamos praticamente sozinhos no mercado da Europa. Crescemos e somos líderes.