Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

37 fundos relacionados a criptoativos surgiram em 2021, aumento de 146%

Fundos de criptomoedas são maiores em número e diversidade. Foto: 4artrachen.

Antes desprezados e estigmatizados, às criptomoedas fincaram a sua bandeira definitivamente no mercado de capitais brasileiro. Isso porque de janeiro a dezembro de 2021, instituições especializadas no nicho e grandes nomes das finanças, casos de BTG Pactual e Itaú, constituíram 37 fundos ancorados em criptoativos. Assim, elevou em 146% o total de produtos do gênero registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Além disso, deram início às operações de cinco fundos de índices (ETFs) de criptomoedas.

Algumas respostas a esses movimentos inclui, por exemplo, a decisão da B3 de explorar esse segmento com produtos e serviços relacionados a criptomoedas. Assim como o andamento do projeto de lei 2305/15 com diretrizes para regulação de criptomoedas.

“Estamos apenas arranhando a superfície de um enorme iceberg. As criptomoedas vão se integrar de forma irreversível à chamada nova economia”, comenta Rodrigo Monteiro, diretor-executivo da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto). Monteiro destaca, ainda, outro indicador da Receita Federal sobre a massificação dessas aplicações virtuais. “O total de investidores em criptoativos saltou de 94 mil para 592 mil entre dezembro de 2019 e maio último, e segue em alta.”

Boa parte das novidades surgidas recentemente trazem a assinatura da Vitreo. Dos dez fundos da gestora lastreados total ou parcialmente em criptoativos, oito foram apresentados ao mercado em 2021. Aliás, um dos mais recentes e badalados tem a sua carteira focada no chamado metaverso, que pretende promover a integração dos universos real e virtual.

Fundos variados de criptoativos

Lançado no início de dezembro, o Metaverso Ações FIA BDR Nível I destina 90% dos recursos para ações e Brazilian Depositary Receipts (BDRs) de empresas de ponta na estruturação desse cenário híbrido. Isso inclui, por exemplo, Nividia, AMD, Roblox, Unity e Meta, a nova denominação do Facebook. Além disso, aplica a parcela restante em criptomoedas ligadas a jogos play-to-earn, que garantem prêmios aos participantes, e a NFT (tokens não fungíveis), muito usado na tokenização de obras de arte.

“O novo fundo, que atraiu quatro mil cotistas logo nos dois primeiros dias de operação, já conta com patrimônio líquido de R$ 30 milhões”, de acordo com George Wachsmann, sócio e chefe de gestão da Vitreo. Criada em 2018, a gestora fez sua incursão inicial em criptos em fevereiro de 2020 com o CriptoMoedas, um fundo multimercado.

George Wachsmann, sócio e chefe de gestão da Vitreo.

O produto tem patrimônio de R$ 450 milhões e 9 mil cotistas. E apresentou algumas inovações no nicho, como por exemplo, gestão ativa focada em resultados superiores ao benchmark estabelecido. Assim como alocação integral em ativos virtuais e aplicações a partir do Brasil. Só que é voltado a investidores qualificados, com aplicações superiores a R$ 1 milhão.

Mas, o carro-chefe da casa serviu de inspiração a um fundo aberto para inversões a partir de módicos R$ 100, que soma R$ 83 milhões e 12,3 mil cotistas. “O CriptoMoedas Light, com 80% do portfólio em CDIs e o restante em ativos virtuais, foi a versão ‘on the rocks’ do principal fundo da classe. Esse, sim, um autêntico ‘caubói’ com 100% em criptoativos”, brinca Wachsmann. Porém, em agosto de 2020, a Vitreo trocou os CDIs por metais. Isso porque esses têm comportamento anticíclico em relação aos criptoativos. Por isso, se agora chama Cripto Metals Blend.

Tempero de criptoativos

Assim, a partir de 2020, a Vitreo começou a “temperar” seus demais fundos com doses homeopáticas de criptoativos. As alocações estão na faixa de 1% a 2% das carteiras. E também reforçou a grade de opções com investimento mais relacionados a criptoativos. Esses já somam patrimônio ao redor de R$ 746 milhões e 59 mil cotistas.

Dessa forma, os criptoativos detêm participação de 8% dos R$ 4 bilhões de recursos geridos pela casa. E o viés é recursos é de alta. “Para 2022, programamos dois novos fundos e os nossos dois primeiros ETFs”, diz Wachsmann. “Até meados da década, acreditamos que os criptoativos poderão responder por algo em torno de 20% a 25% do portfólio.”

ETFs da Hashdex e QR Asset

João Marco Cunha, gestor de portfólio da Hashdex.

Dois grandes destaques de 2021 nessa nova fronteira de investimentos, no entanto, foram a Hashdex e a QR Asset Management, responsáveis pelos lançamentos dos primeiros fundos de índices de criptoativos do mercado local. A Hashdex saiu na frente, em abril, com o HASH11, atrelado ao Nasdaq Crypto Index (NCI). Desenvolvido pela bolsa eletrônica de Nova York com a colaboração, entre outras instituições, da gestora carioca. A cesta tem oito criptoativos, entre os quais se destacam o bitcoin e o ethereum, que detêm os maiores pesos na cesta.

“O boom do bitcoin e de outros criptoativos, a partir do final de 2020, despertou o interesse do mercado em geral”, diz João Marco Cunha, gestor de portfólio da Hashdex. “Prova disso é que investidores institucionais, entre os quais a renomada Verde Asset Management, detêm um terço das cotas do HASH11. O mercado brasileiro segue os passos do Canadá, onde aplicadores de gabarito, como fundos de pensão, realizam alocações crescentes em criptoativos.”

O HASH11 tem patrimônio de R$ 2,4 bilhões e 120 mil cotistas. Animada pela boa recepção do mercado à novidade, a Hashdex lançou mais duas opções. O BITH11 é referenciado no Nasdaq Bitcoin Reference Price (NQBTC), enquanto o ETHE11 é centrado em Ethereum, principal plataforma para aplicativos descentralizados como NFT, Web3, bolsas descentralizadas (DEX) e finanças descentralizadas (DeFi). “No total, os três ETFs contam com 141 mil cotistas e patrimônio de R$ 2,7 bilhões”, diz Cunha. 

Disputa crescente entre empresas

Com três anos de estrada e R$ 5 bilhões sob gestão, a Hashdex é inteiramente voltada a ativos virtuais. Além do trio de ETFs, sua grade conta com mais seis fundos investidos total ou parcialmente em criptoativos. “Em 2022, nossa grade de produtos será reforçada com pelo menos três ou quatro fundos e ETFs”, diz Cunha. “A disputa no segmento cripto está esquentando: largamos em primeiro nos ETFs, mas ganhamos um competidor pouco tempo depois e outros estão a caminho.”

A QR foi das primeiras gestoras a marcar presença na área. Em 2020, depois de apresentar três fundos 100% lastreados em criptoativos, voltou à carga em 2021. Lançou um produto voltado a DeFi, em segunda parceria com a Vitreo, e dois ETFs. O QTBC11, com foco em bitcoin, e o QETH11, em ethereum. Lançada entre junho a agosto, a dupla tem patrimônio de R$ 447,74 milhões e responde por 40% dos recursos geridos pela casa.

Alexandre Ludolf, diretor de investimentos da QR Asset.

“Com tratamento tributário mais vantajoso no mercado local e custos operacionais menores, os ETFs vêm ganhando espaço em todo o mundo”, observa o diretor de investimentos, Alexandre Ludolf. Assim como Vitreo e Hashdex, a QR planeja a expansão de seu cardápio de opções ancoradas em ativos virtuais em 2022.

Além de três novos fundos de índices de criptoativos (ETFs), estão programados os lançamentos de dois a três fundos temáticos de gestão ativa e um de perfil previdenciário, ou seja, o primeiro da gestora que abrirá espaço para aplicações convencionais, como títulos de renda fixa e ações. Devido à oscilação dos preços de criptomoedas, “nossos fundos, em razão disso, não ficam necessariamente 100% alocados em criptoativos. Sempre buscamos alguma proteção em ativos líquidos menos voláteis”, diz Ludolf.

Investidores institucionais de olho

De acordo com o executivo, as fortes altas do bitcoin e do ethereum contribuíram para a inclusão dos antes menosprezados criptoativos no leque de opções de aplicadores de maior calibre. Isso aconteceu em especial no exterior. O fator decisivo para a quebra definitiva do preconceito, no entanto, foram as políticas monetárias adotadas pela maioria das nações durante a pandemia. Ao reduzirem os juros, abriram de vez o apetite dos investidores institucionais por ativos alternativos em geral.

“A chegada de grandes players, em 2021, marcou a consolidação do mercado local de ativos digitais. Assim, passou a contar com estratégias mais sofisticadas de investimento, tirando espaço dos especuladores.”

Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin.

Os bons ventos que sopram no nicho permitiram também ao Mercado Bitcoin se tornar um unicórnio. No final de junho de 2021, a plataforma recebeu aporte de US$ 200 milhões do Softbank. Assim, a avaliação de mercado da startup ficou em US$ 2,1 bilhões. Em novembro recebeu mais US$ 50,3 milhões de investidores. A trajetória do negócio, criado em 2013, ilustra o desenvolvimento do mercado de moedas virtuais.

“Quando começamos, o bitcoin valia R$ 190 e havia no Brasil, se muito, duas mil pessoas que conheciam critptoativos”, diz o CEO Reinaldo Rabelo. “Hoje, contamos com mais de 3 milhões de usuários cadastrados em nosso sistema.” A razão social, diga-se, não se adequou à ampliação do escopo e dos volumes. Afinal, a empresa que era focada em bitcoins, viabiliza atualmente transações com cerca de cem moedas e ativos virtuais – 70 a mais do que há um ano.

Em 2022, Mercado Bitcoin começa expansão internacional

A lista, que tende a seguir crescendo, inclui, por exemplo, de opções atreladas ao dólar (USDC) a tokens que garantem fatias nos valores de transferências de jogadores de futebol do Vasco da Gama e o Santos. “Bolei o Token Vasco para ajudar meu clube de coração, que no início de 2021 queria tokenizar a transferência do atacante Talles Magno para o New York City”, conta Rabelo.

“Depois do lançamento, em novembro, do Token Santos, iniciamos conversações com times de outros polos da América do Sul e também da Europa. No mercado europeu, o interesse é grande, em especial, de clubes dos chamados países-ponte, como Portugal, Grécia e Turquia.”

Além disso, com o caixa reforçado pelas injeções recebidas, para o primeiro trimestre de 2022 está previsto o início de suas operações na Argentina, Chile, Colômbia e México. É a primeira etapa de um projeto voltado a todo o subcontinente. “O mercado latino-americano de criptomoedas deve crescer bastante nos próximos dois anos. A região tem potencial estimado de 20 milhões de usuários, o dobro do projetado para o Brasil”, de acordo com Rabelo.

Real digital deve ajudar na expansão do mercado

Também adotado pela singapurense Crypto.com, o recurso a patrocínios e parcerias na área esportiva já se configura como uma das principais estratégias para a divulgação dos critpoativos. A mexicana Bitso, por exemplo, bolsa que também é um unicórnio, fechou acordos do tipo. Um deles é com o São Paulo Futebol Clube (SPFC). Mas, um grade desafio a ser enfrentado pelos agentes do setor é oferecer educação financeira ao grande público.

“Bancos e corretoras tradicionais, que cansaram de atirar pedras sobre os criptoativos já estão se rendendo a essa inovação. No entanto, a maioria de seus profissionais ainda não reúne conhecimentos suficientes para oferecer produtos relacionados a ativos virtuais aos investidores”, diz Bruno Diniz, sócio da consultoria Spiralem e autor do recém-lançado “A Nova Lógica Financeira” (Editora Gente).

“Por sorte, o sistema tende a contar com a colaboração do governo federal, mais especificamente do Banco Central, que prepara para até 2024 o lançamento do real digital. Esse projeto vai facilitar a venda de ativos e moedas digitais em geral à população”, completa Diniz.

*Reportagem originalmente publicada no Fintechs Brasil, hub de conteúdo sobre fintechs parceiro do Blocknews.

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