Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

13 fatos dos 13 anos de história do blockchain, do bitcoin e das criptos

Foto: Jeremy Bezanger.

Hoje é o mais importante dia de festa do ecossistema blockchain e de criptomoedas. Em 31 de outubro de 2008, portanto há 13 anos, alguém – ou “alguéns” – de nome Satoshi Nakamoto lançou o white paper “Bitcoin: Um Sistema de Dinheiro Eletrônico Peer-to-Peer”. Estava mudado o mundo das moedas, das reservas de valor e dos pagamentos.

O uso de blockchain está acontecendo em todos os tipos de indústrias, governos e projetos sociais. Bitcoin não para de bater recorde e deixou de ser algo praticamente sem valor para ser negociado na faixa de US$ 60 mil (cerca de R$ 360 mil), além de substituir o ouro como proteção contra inflação para muitos investidores. Instituições financeiras tradicionais já colocaram o pé nesse mercado. Governos estão aflitos e criando suas moedas criptografadas, inclusive o Brasil.

O Blocknews convidou especialistas a apontarem quais foram, na visão deles, 13 fatos que tiveram impacto no ecossistema e fora dele nesses 13 anos do white paper. É a história contada por eles, inclusive pela editora-chefe do Blocknews, Claudia Mancini. E as história que eles contam é essa:

2009, Primeiro envio de bitcoin – Thiago Padovan, fundador da Movements

Thiago Padovan, fundador da Movements e da Blockchain Academy.

Definir um único acontecimento na história do Bitcoin é uma tarefa árdua. Podemos listar desde as publicações de Satoshi Nakamoto na “Cryptography Mailing List”, à própria publicação do white paper. Poderíamos até olhar para o momento pré-bitcoin com marcos importantes de evolução e amadurecimento de diversas tecnologias que permitiram que o bitcoin surgisse naquele momento.

Explorando um pouco essa história, destaco um acontecimento aparentemente simples, mas que certamente foi uma faísca fundamental para todo o impacto que estamos acompanhando atualmente: o tweet do Hal Finney anunciando que estava rodando o bitcoin. Com isso, ele foi a primeira pessoa a receber bitcoins diretamente do Satoshi Nakamoto.

Um movimento simples e voluntário para a experimentação de um novo sistema financeiro alternativo ao sistema financeiro que estávamos acostumados até o momento, onde qualquer pessoa poderia enviar recursos financeiros para qualquer outra pessoa do mundo, sem que qualquer intermediário ou centralizador precisasse validar essa transação.

Hal Finney era um ativista da criptografia, desenvolvedor de softwares e também foi conhecido como um Cypherpunk (pessoa que defende a criptografia para ´privacidade e dinheiro eletrônico) e certamente entrou para a história com suas valiosas contribuições. Você pode conferir o tweet pelo link https://twitter.com/halfin/status/1110302988

Absolutamente revolucionário!

2010, Primeira compra com bitcoin – Rodrigoh Henriques, líder de inovação da Fenasbac

Rodrigoh Henriques, líder de inovação da Federação Nacional de Associações dos Servidores do Banco Central (Fenasbac).

Duas pizzas, quatro paredes.

A história é famosa, mas provavelmente não pelos motivos certos.

Em maio de 2010, o programador Laszlo Hanyecz postou no fórum bitcointalk sua disposição de pagar 10 mil bitcoins para qualquer um que entregasse duas pizzas grandes em sua casa. “O que eu quero é receber a comida em troca de bitcoins” disse ele. Anos depois, com os valores do bitcoins nas alturas, as pizzas valeriam milhões de dólares cada. Mais de US$ 330 milhões cada, para ser mais exato.

Se, por um minuto, pudermos esquecer o quanto Hanyecz deixou de ganhar, podemos perceber o quanto todos ganhamos. O dia 22 de maio de 2010 marca uma das primeiras tentativas de usarmos uma criptomoeda para pagar por algo tão banal quanto receber comida pronta em casa. As pizzas são apenas um jeito de quebrar a quarta parede, expressão usada nas artes cênicas para uma divisória imaginária que separa os atores da plateia. Com a quarta parede os atores fingem que a plateia não está lá. Não interagem com ela, não conversam, não dialogam. Com a quarta parede a plateia assiste de forma passiva o que se desenrola no palco. Animada, furiosa, emocionada ou mesmo esperançosa, mas sempre passiva.

As duas pizzas derrubam a quarta parede das criptomoedas fazendo atores e plateia, comunidade cripto e a sociedade fiduciária se olharem profundamente pela primeira vez. As discussões sobre a necessidade de conectar o mundo cripto com o mundo fiat (das moedas fiduciárias, emitidas pelos países) geraram debates calorosos, rachaduras importantes, exchanges que caminham para descentralização, camadas de pagamento, improváveis ATMs no meio das ruas e, curiosamente, duas pizzas.

O dia das duas pizzas deveria ser lembrado como o dia em que quebramos a quarta parede do mundo cripto e passamos, atores e plateia, a sermos um.

2014, NFTs – Caroline Nunes, CEO da InspireIP

Caroline Nunes, CEO da InspireIP.

Era 3 de agosto de 2014 e Kevin McBoy criava o que hoje é considerado o primeiro token não-fungível (NFT), a cripto arte “Quantum”. Mal sabia ele que sete anos depois seu NFT psicodélico valeria US$ 7 milhões. Esse fato faz parte do boom de NFT, ou como eu gosto de chamar, “NFT Revolution”.

Os valores exorbitantes que estamos vendo no mercado não são por acaso – US$ 10 bilhões de NFTs transacionados no segundo semestre de 2021. Calma, eu não vou falar que não existe hype nesses números. Existe bastante, mas é tão necessária para a evolução da tecnologia que se torna praticamente indissociável ao seu sucesso. A título de comparação: o que seria do bitcoin sem uma boa hype?

Os NFTs trouxeram ao digital a escassez, a raridade, o valor. É por isso que NFTs são tão importantes para os consumidores. Eles sabem que estão comprando o item original. Para os criadores de conteúdo, são ainda mais excitantes. A era digital não tem sido gentil com os artistas – músicos e fotógrafos vendo seus trabalhos compartilhados e copiados gratuitamente pela internet. Mesmo quando os itens são comprados, a maior parte do dinheiro é sugada por gigantes da indústria.

E se houvesse uma maneira de os artistas cortarem os intermediários e levarem seus trabalhos diretamente aos clientes? A arte digital, comercializada online como NFTs, é o caminho. Além do ramo da arte, é possível ver aplicações dos NFTs no setor imobiliário, jurídico, para nomes de domínio, marcas… A tecnologia é mesmo fantástica e a gama de possibilidades que traz é mais incrível ainda.

E para todos que criticam a loucura das cripto artes e seus valores estratosféricos… Bem, como a gente atribui valor a algo? Por que um Picasso deveria valer US$ 200 milhões? Por que as pessoas possuem ouro? É tudo sobre escassez, exclusividade e procedência – e os NFTs fornecem isso. Como diz o artista digital Beeple: “Isso é arte, não há regras. No final do dia, se alguém vai pagar por isso, então você pode vender.

2015, Criação da Ethereum – Maurício Magaldi, host do BlockDrops

Mauricio Magaldi, host do podcast BlockDrops e superintendente executivo do Banco Fibra.

Acredito que a criação do Ethereum seja um marco extremamente relevante, que vai muito além da recente cotação recorde do preço de sua moeda nativa, o Ether (ETH) (em 29 de outubro de 2021). O Ethereum, idealizado por Vitalik Buterin em 2013 e lançado publicamente em 2015, introduziu um jargão que vem definindo não só o espaço cripto, mas também influenciou todas as blockchains que vieram depois com uma funcionalidade até então inédita: os contratos inteligentes (smart contracts).

Habilitando a programação de regras de negócio válidas para toda a rede como parte da infraestrutura distribuída, os contratos inteligentes “destravaram” todas as inovações subsequentes. Inclusive as mais recentes, como a tokenização de ativos, os tokens não fungíveis (os NFTs), as finanças descentralizadas (DeFi) e os jogos com remuneração (Play-to-Earn).

O impacto do Ethereum deu até mesmo impulso para a criação de outras blockchains voltadas para o mundo corporativo, como Corda, da R3, e Fabric, do Projeto Hyperledger. Isso provocou uma movimentação cada vez mais ampla não só dos cripto-nativos, mas também de um mercado que, até então, igualava blockchain com bitcoin, um ativo que consideravam extremamente exótico e quase impossível de se classificar.

2015-2016, Blockchain para empresas – Renato Teixeira, chairman da comunidade Hyperledger Brasil

Renato Teixeira, líder da comunidade Hyperledger no Brasil.

O surgimento da tecnologia blockchain, em específico do blockchain para uso corporativo, ainda é muito recente se comparado a outras tecnologias mais bem estabelecidas. Ainda temos um grande campo para o desenvolvimento de novas soluções a ser explorado e muito modelos de negócio a serem impactados pelos seus benefícios.

Por ainda ser novidade, quando o assunto é esse novo modelo tecnológico para a realização segura de transações entre empresas, muitas dúvidas comuns pairam nas mentes das equipes de tecnologia e ainda temos que trabalhar em temas muito básicos, mas não menos relevantes para a adoção correta do blockchain, como por exemplo, qual a diferença de um banco de dados relacional e uma blockchain? Posso registrar todos meus dados na blockchain e usar como meu único repositório de dados? Posso criar uma rede e apenas eu ter os dados guardados? Eu não quero que meu fornecedor acesse a minha blockchain!

Felizmente, a despeito de ser uma novidade e de todos os desafios, a adoção do blockchain pelo mercado de tecnologia corporativa tem avançado consistentemente e principalmente, vem ganhando velocidade. Já é possível ver aplicações rodando associadas aos mais variados ramos de mercados, como produção de proteínas, cadeia logística, finanças, entre outras.

Com a implantação do 5G de maneira mais ampla pelo mundo a pressão nas tecnologias de blockchain deve aumentar consideravelmente. A necessidade de registros com garantia de origem e consistência de longo prazo deve forçar as plataformas atuais a repensar suas estratégias, pois o volume de transações deve crescer exponencialmente e nem todas estão preparadas para esse nível de requerimento. De certa forma, isso é um problema bom, pois é um sinal de que a tecnologia tem um motivo real para existir.

Passados esses 13 anos, seguimos explicando que blockchain não é bitcoin, mas que hoje blockchain é melhor que bitcoin!

2016, Criação da The Dao – Daniele Pegoraro, Instrutora Exin Blockchain

Daniele Remoaldo Pegoraro, instrutora Exin Blockchain e advogada sênior da Fundação Casper Líbero (FCL).

A The Dao foi lançada em 30 de abril de 2016 como um fundo de capital de risco cujo objetivo era financiar aplicações distribuídas na blockchain, acumulando cerca de US$ 150 milhões de dólares em ethers e contendo mais de 11 mil membros. Em junho de 2016, um hacker começou a zerar ethers coletados pela venda de tokens. Em 17 de junho, 3,6 milhões de ethers (cerca de US$ 50 milhões) foram roubados das contas do fundo. O Hacker descobriu uma falha no código que lhe permitia executar o contrato de maneira inesperada.

A maioria dos mineradores (85%) da Ethereum decidiu pela bifurcação da rede, devolvendo os ethers desviados. Contudo, 15% dos mineradores entenderam que isso desvirtuaria o conceito de imutabilidade da rede, decidindo por ficar com os blocos na forma que haviam sido processados (com o desvio do hacker), criando assim outra blockchain, a Ethereum Classic (ETC). Dessa forma, a Ethereum Classic (antiga The DAO), preservou o histórico inalterado de transações e os princípios fundamentais de descentralização e imutabilidade, sendo uma blockchain independente da Ethereum.

Considero um marco histórico na rede, por ter sido a primeira DAO a ser criada, sendo um projeto inovador ao permitir que qualquer pessoa apresente projetos, podendo votar e ainda receber recompensas. Ainda que a “The DAO” não tenha obtido o resultado esperado, sua ideia originária está presente até hoje em outras DAOS criadas e estabelecidas com sucesso, sendo mais um grande avanço e um marco para a tecnologia blockchain.

2016, Hack da The Dao – Carl Amorim, CEO do BRI Brasil

Carl Amorim, CEO do Blockchain Research Institute (BRI) Brasil.

Acredito que o hack da The Dao deixou uma mensagem muito ruim para o desenvolvimento de Organizações Autônomas Distribuídas (DAOs), que é ter colocado toda a responsabilidade numa falha da tecnologia, quando o problema é o modelo de negócios. Foi criada uma falsa impressão de que era uma organização sem centro e sem hierarquia, quando na verdade é completamente o oposto. Foi retirado o centro decisório humano e colocado um tecnológico sob a premissa de que tecnologia nunca falha.

O modelo, que serve até hoje para as dAOs (o ‘d’ minúsculo é intencional), é incompatível com a arquitetura distribuída do blockchain. Primeiro porque centralizava os recursos num fundo único, algo centralizador. E, no longo prazo, gera uma estrutura centralizada de gestão desse fundo. Segundo porque estabeleceu uma governança por voto e, como temos visto com a radicalização política, voto não é democracia, não é inclusivo e a decisão pela maioria exclui, na hipótese extrema, 49,9% das pessoas.

Hoje as dAOs existentes repetem todos esses erros. As legislações, por exemplo, as trata como empresas comuns. Isso vai exigir comitês, conselhos, votos meritórios e mecanismos para corrigir as distorções do sistema eleitoral e prestar contas ao Estado. O sucesso de arrecadação e o hack foram fatos importantíssimos, mas como foi resolvido e as análises posteriores foram um desastre que atrasaram a indústria. Ainda bem que não deu certo, pois iria pautar a formação de novas dAOs por décadas, engessando de vez a maior oportunidade de um modelo de capitalismo mais inclusivo e distribuído.

2017, Pesquisa do Banco Central – Marcos Sarres, CEO da GoLedger

Marcos Sarres, CEO da GoLedger.

Tive diversos fatos marcantes durante minha jornada no mundo Blockchain, porém um desses fatos me fez tomar decisões técnicas importantes que fizeram grande diferença no futuro. Em 2017, o Banco Central do Brasil (BCB) realizou uma pesquisa com as principais plataformas de blockchain permissionado existentes na época, dentre eles, Hyperledger Fabric, Corda e Quorum.

Após ler essa pesquisa (datada de agosto daquele ano) percebi as vantagens que o Blockchain poderia trazer para o mercado, em especial, para o setor público, como uma forma de governança digital para processos envolvendo um conjunto de empresas. Além disso, a pesquisa teve a participação de Rafael Sarres, meu irmão, uma das pessoas que eu mais respeito em razão do seu conhecimento e competência. E desses conceito e ideia, nasceu a GoLedger, com o intuito de fornecer plataformas de registro confiáveis utilizando a tecnologia Blockchain.

Mais tarde escolhi utilizar a plataforma Hyperledger Fabric como base do meu trabalho e desenvolvimento por ser totalmente open-source e possuir um mecanismo de consenso capaz de trazer a performance e confiabilidade necessária para dar vazão a uma grande quantidade de registros. Os projetos que desenvolvemos para a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) e a solução GoFabric na lista de produtos estratégicos pelo Ministério da Defesa, além de projetos com Hyperledger que governos fora do país estão usando, mostram a capacidade de blockchain e Hyperleger no setor público.

2017, DeFi (Finanças Descentralizadas) – Chaim Finizola, CGO da Credix

Chaim Finizola, Chief Growth Officer da Credix.

As finanças descentralizadas (DeFi) são uma das inovações mais significativas de blockchain desde a criação do bitcoin. A Ethereum permitiu diferentes aplicações novas no seu protocolo graças aos contratos inteligentes. Mas s´o com o surgimento do protocolo de empréstimos Maker DAO, no final de 2017, é que os usuários puderam fazer outras operações, além de enviar dinheiro de A a B.

A MakerDAO e sua moeda estável (stablecoin) Dai stablecoin deram os primeiros tijolos para um sistema financeiro novo, aberto e público (não permissionado), permitindo aos usuários emitir uma moeda estável algorítmica com valor de um dólar e usando ativos digitais como garantia. Assim, qualquer um poderia tomar um empréstimo sem precisar de uma instituição central.

A partir daí, muitas aplicações novas de DeFi começaram a copiar as finanças tradicionais TradFi applications: Compound Finance (empréstimo), Uniswap (bolsa descentralizada), Balancer (gestão automatizada de portfolio), Synthetix (geração e comercialização de ativos sintéticos), Yearn Finance (agregador de empréstimos) e Nexus Mutual (seguros descentralizados) são apenas alguns exemplos.

Apesar de DeFi ter tido um aumento enorme no cenário de cripto, para se tornar popular, precisará passar por mudanças cruciais. A necessidade de dar muitos ativos em garantia (colaterais), embora correta dada a volatilidade das moedas digitais, tem algumas limitações. Uma vez que ativos fora da blockchain (off-chain) possam ser usados como garantias para DeFi, tirar a necessidade de depósitos na rede (on-chain) cria muito mais oportunidades de negócios. Acredito que isso será o próximo grande evento em cripto em 2022: conectar DeFi com ativos no mundo real para aplicações sem garantias, como empréstimos.

2019, Facebook anuncia a Libra – Claudia Mancini, editora-chefe do Blocknews

Claudia Mancini, fundadora e editora-chefe do Blocknews.

Há alguns dias, uma pessoa me perguntou se o Facebook quer dominar o mundo. “Acho que sim” ´e minha resposta a essa pergunta. Além de ter em mãos nossos dados – se você for um usário de suas redes -, Mark Zuckerberg decidiu criar um sistema de pagamentos internacional com moeda própria, passando tanto quanto possível batido por bancos centrais e outras instituições financeiras e de pagamentos.

Assim, em junho de 2019 anunciou a Libra, uma moeda estável, e a Calibra, sua carteira digital. Fez isso com um grupo que incluía empresas gigantes e até concorrentes, como Visa e Mastercard. Mas, a gritaria dos reguladores foi tanta que muitas empresas de peso – essas duas, por exemplo – deixaram o projeto. Só que Zuckerberg não desistiu, mesmo fazendo algumas mudanças no desenho original de seu então mais novo sonho criptográfico.

Assim, o Facebook mostrou que com blockchain, empresas podem ter suas moedas – não necessariamente para dominar o mundo – e causou um corre-corre dos governos. Aliás, esse corre-corre se acelerou com o anúncio da China de que iria lançar sua CBDC.

Libra agora é Diem, numa ação de comunicação porque o nome ficou marcado de forma negativa. Calibra agora é Novi, carteira que entrou em teste no mês passado – também sob grita do Congresso dos EUA.

No Convergence – The Global Blockchain Convention, em novembro de 2019, Dante Disparte, então vice-presidente e porta-voz da Associação Libra (agora Diem), escutou críticas duras ao projeto de todos os lados. Mas, um representante do Banco Central Europeu (BCE) disse o que me pareceu a frase mais sensata da discussão: “Olhar só para a Libra é como olhar só para uma árvore numa floresta. Há muito mais além dela”.

Portanto, os governos, que estavam confortavelmente olhando apenas para as moedas que emitiam no papel, metal e no formato eletrônico e olhavam de forma meio distante para as moedas digitais, tiveram que entender melhor esse movimento das cripotmoedas, das moedas criptográficas corporativas e entraram mais no jogo – mesmo que para tentar barrá-las, acelerando os estudos de CBDCs.

2020, Liquidez do bitcoin – Daniela Von Hertwig Meyer, diretora de Marketing da Stratum

Daniela Von Hertwig Meyer, diretora da Stratum e embaixadora da Nexo.

Crise de liquidez com bitcoin? Jamais! Muito se falou sobre a ‘antifragilidade’ do bitcoin após a crise de liquidez de ativos tradicionais no crash que vimos nas bolsas de valores de todo o mundo em 2020. Em decorrência dos efeitos econômicos causados pela pandemia. As bolsas de valores, que ficam abertas somente em dias úteis e com horário determinado, passaram por inúmeros circuit breakers, onde as negociações ficam suspensas por períodos determinados para evitar quedas muito bruscas.

Isso não acontece com o bitcoin e altcoins e permitiu que pessoas do mundo todo vendessem seus ativos na hora que quisessem, com toda a liberdade e sem qualquer intervenção institucional. Essa crise deu relevância ao bitcoin, pois apesar da queda acentuada naquele momento, mostrou sua ‘antifragilidade’ no caos. A cripto permaneceu disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, enquanto os ativos chamados “tradicionais” sofreram intervenção em sua negociação a todo o tempo.

Dessa forma, o bitcoin passou a compor fundos de investimentos conceituados como BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, a compor ativos nos balanços de empresas listadas em bolsas de valores, como da MicroStrategy, e usada até mesmo como reserva de municípios, vide a prefeitura de Miami. Isso fez com que o bitcoin escalasse uma alta vertiginosa logo em seguida, ao reafirmar sua missão de liberdade financeira.

Além da liquidez 24/7, esse marco, na minha opinião, é um dos mais importantes para o bitcoin também por ter mostrado o poder dessa cripto como moeda circulante, não apenas como um ativo financeiro de especulação. Não me surpreende o surgimento de fundos e ETFs e disponibilização por grandes bancos e corretoras de valores que antes torciam o nariz para as criptomoedas, como resposta à demanda de seus clientes após esse evento.

2020, CBDC – Luiza Romero, consultora de blockchain da EY

Luiza Romero, consultora de blockchain da EY e professora da New York University (NYU).

Para se adaptar a economia digital e “competir” com o criptomoedas como bitcoin e stablecoins, os bancos centrais em todo o mundo estao sendo “forçados” a inovar na forma como emitem e administram o dinheiro hoje em dia. Foi assim que a ideia de moedas digitais emitidas por bancos centrais, ou CBDCs (Central Bank Digital Currency) começou a se tornar realidade.

CBDC é diferente das criptomoedas, mas uma grande semelhança é a possibilidade do uso da tecnologia blockchain e registro distribuído na sua arquitetura. O uso da tecnologia pode ser o diferencial para redesenhar a maneira como os bancos centrais interagem com bancos comerciais e cidadãos. Tem o potencial de melhorar ineficiências e vulnerabilidades da infraestrutura atual, permitir a programação de regras para facilitar compliance, reduzir o custo com a impressão/gerenciamento de dinheiro  e criar um sistema de pagamentos interconectado globalmente de forma segura.

Bahamas foi o primeiro país a lançar o seu CBDC em outubro de 2021. Outros países, como Singapura, China e Nigéria estão participando em projetos pilotos explorando como esta tecnologia pode beneficiar a economia e tornar o sistema monetário mais eficiente. O Banco Central do Brasil neste ano também apresentou diretrizes para o potencial desenvolvimento do real digital a ser lançado até 2024. Nele, blockchain tem chances de ser considerada para prover as funcionalidades esperadas.

A exploração de CBDCs tem se intensificado recentemente e o progresso do  blockchain/registro distribuído tem sido sem duvida um grande aliado  para modernizar o ecossistema econômico global. Mas a tecnologia é apenas uma parte da equaçã. Bancos centrais ainda estão preocupados analisando exaustivamente as implicações transnacionais e econômicas desta nova mudança de paradigma.

2021, ETFs de criptos – Roberta Antunes, diretora de Crescimento da Hashdex

Roberta Antunes, diretora de Crescimento da Hashdex.

O impacto do Ethereum deu até mesmo impulso para a criação de outras Blockchains voltadas para o mundo corporativo, como Corda, da r3, e Fabric, do Projeto Hyperledger, provocando uma movimentação cada vez mais ampla não só dos cripto-nativos, mas também de um mercado que, até então, igualava Blockchain com Bitcoin, um ativo que consideravam extremamente exótico e quase impossível de se classificar.

Os ETFs (fundos de índices em bolsa) foram um dos grandes marcos no mercado de criptos, porque deram acesso para uma parcela de investidores que tinham interesse, mas tinha muita fricção para acessar o ativo. Pessoas físicas tinham preocupação de criar conta em exchange, custodiar seu próprio ativo e não tinham ideia de qual ativo comprar. Havia também insegurança por desconhecimento e por medo de golpes. Então, começaram a entender que agora podem investir mesmo com a volatidade de moeda, porque é num ambiente que conhecem e tem a regulação que legitima o investimento. Isso fez milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que não tinham acesso a criptos, começarem ter exposição às moedas.

A Hashdex lançou o primeiro ETF de criptomoeda do mundo em Bermuda, em fevereiro passado. Depois foi o Canadá e alguns dias depois lançamos no Brasil. Aqui temos 140 mil investidores no Hash11. Isso é mais de um terço dos investidores de ETFs na bolsa (B3) e mostra como existia espaço para um produto regulado de cripto. Além disso, abriu espaço para investidores institucionais, porque grandes fundos de investimentos que tinham muito dificuldade, inclusive regulatória, para acessar criptomoeda, hoje fazem isso via bolsa brasileira. Por isso, o investimento indireto em cripto no varejo é muito maior do que as pessoas pensam.

Outra grande notícia foi a aprovação do primeiro ETF (no mês passado) nos EUA, onde desde 2013 havia pedido dos irmãos Winklevoss. O novo chairman da SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) gosta de criptos, mas tinha muito medo de variação de preço, de manipulação de mercado, porque a comercialização dos ativos é em ambiente não regulado. É uma evolução incrível porque o mundo segue o mercado americano. Esse ETF sendo bem sucedido lá, vai abrir portas para mais ETFs nos EUA e no resto do mundo. Minha visão de longo prazo é que todo mundo vai ter investimento em cripto.

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