Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Bom Valor alia decreto de 1932 e blockchain para crescer em leilões

Pode um decreto de 1932 “caber como uma luva” em blockchain? Pode, porque é o que acontece com o 21.981/32, que regulamenta a profissão de leiloeiro, assim como outras normas e leis do país. E foi por isso que Ronaldo Santoro, que já atuava nesse mercado, anunciou em abril de 2020 que criaria a Rede Bom Valor. É um marketplace que, segundo ele, hoje conta com 66 leiloeiros de 25 casas do segmento.

O decreto de 1932 diz, por exemplo, que o leiloeiro deve “acusar o recebimento das mercadorias móveis e de tudo que lhes for remetido para venda”. São obrigados também a ter contratos, antes dos leilões, sobre as condições de venda, pagamento e entrega dos bens. Devem ainda registar nas Juntas Comerciais os documentos que comprovam pagamentos de impostos. E quem dá os bens a eles para venda, deve enviar, por escrito, quais as despesas máximas que está disposto a pagar.

“Construí uma espécie de cartório eletrônico, em que tudo está registrado. Meu poder está no registro (em blockchain)”, diz Santoro, CEO da Bom Valor. Um de seus principais diferenciais, afirma, é que o processo já nasce num cartório com identidade digital. E nele há dados como os do dono do bem, edital de licitação, dados e habilitação do comprador e assinatura de contrato.

Para a identidade digital, a empresa usa a solução da OriginalMy. Para usuários, que utilizam a Conta Comprova da rede, a solução é da Interlock Ledger. O investimento até agora foi de R$ 10 milhões e Santoro espera captar direto na Série B até começo de 2022, “dependendo do quanto crescermos. O valulation já é bom porque tenho o caso da Superbid e sou de um setor com barreira de entrada”.

Bom Valor criou marketplace em blockchain

Há ainda um outro ponto importante para quem vende pela Bom Valor, afirma o executivo, é normalmente, os arquivos de documentos ficam com os leiloeiros. Mas, com blockchain, vendedor e intermediário têm acesso aos dados, portanto, têm os mesmos direitos que o leiloeiro.

Hoje, a Bom Valor atua apenas com empresas e governos na venda para compradores intermediários ou finais e está inserindo empresas e oferecendo serviços em etapas. Os próximos passos podem incluir, por exemplo, frotistas de veículos, cooperativas de crédito, instituições financeiras e construtoras, com que já andou conversando.

A ideia, ao ser um marketplace, é o dono do bem escolher com quem prefere vender seus produtos. Os leiloeiros também poderão, no futuro, criar suas redes blockchain dentro do marketplace.

Assim, Santoro espera também quebrar o que chama de “vício de origem da ´profissão”, a exclusividade. “Há cerca de 5 milhões de usuários de leilões digitais, sendo que as duas maiores plataformas têm em torno de metade disso. “Isso porque porque falta confiança nos outros”, diz Santoro.

O mercado de desmobilização de ativos usados é R$ 1 trilhão. Máquinas e equipamentos chegam a ser vendidos dez vezes, diz o CEO. No entanto, as vendas em leilões ficam em cerca de R$ 100 bilhões ao ano. Portanto, há espaço para crescer, completa Santoro.

Santoro, que passou do leilão tradicional – onde sua família atua há décadas – para a internet. ao criar a Superbid, diz que percebeu que blockchain empodera a venda por conta do registro de todo o processo. A internet trouxe avanços em relação ao que antes era físico, mas ainda era preciso “melhorar probatório jurídico na relação entre comprador e vendedor. É uma revolução tecnológica que cobre a falha da falta de confiança”.

Mudança cultural em leilões

Além de OriginalMy e InterlockLedger, a Bom Valor também testa a blockchain Ethereum, para usuários. Assim como está testando a Hyperledger, a partir de uma parceria com a IBM. Isso por conta da dinâmica de contábil. Assim, testa para desenvolver produtos e soluções em nuvem, por exemplo. “Somos parceiros para criar a cultura de uso. Estou criando um hub, construindo a proposta cultural de mostrar que blockchain empodera.”

Santoro diz que não quer acabar com os leiloeiros. O que pretende é dar aos vendedores mais oportunidade de escolher quem irá atendê-lo por reputação e qualidade de atendimento, já que a plataforma facilita isso pela confiança que traz. “Não quero eliminar o leiloeiro originador (de vendas). Quero que eles continuem originando, mas pratiquem registro e leilão na minha infraestrutura.”

O criador da Bom Valor diz que não teme críticas e rechaço dos leiloeiros. “Já sofri isso dos leiloeiros tradicionais h´a 20 anos (quando criou a Superbid). Além disso, os tradicionais têm novas pessoas que entendem minha proposta de valor”, completou.

Bom valor nasceu de software de leilões

Para criar a Bom Valor, Santoro comprou uma empresa de software para leiloeiros que já tinha 10 anos, mas não estava em blockchain. Já tinha 50 nela e que podem migrar para a nova rede. A migração inclui a atuação em leilões judiciais, como os que envolvem falências e dívidas de condomínio.

“80% deles são deserto, não tem comprador, porque estão num único local. Fora o fato de serem leilões com bons volumes. O comprador tem que caçar onde está o leilão que tem interesse”, afirma Santoro. Houve também um leilão de cooperativa em setembro, que não entra na categoria publico e nem judicial.

É difícil fazer alguma previsão de onde a Bom Valor pode chegar, afirma Santoro. Mas um número seria chegar a 2%, nos próximos dois anos, do valor leiloado ao ano – hoje de em tornos R$ 100 bilhões.

*Correção do número de leiloeiros na rede e nome correto de Santoro às 11h45 de 4 de outubro de 2021.

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