Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Amazon obtém patente para rastrear cadeia de fornecedores por blockchain

A Amazon patenteou no USPTO, órgão dos Estados Unidos responsável por fazer os registros, um sistema que usa blockchain para rastreamento e monitoramento de sua cadeia de suprimentos. Segundo a empresa, até agora só era possível rastrear uma parte limitada da cadeia, em geral aquela que era de interesse de quem criou a solução.

É fato que os monitoramentos, quando existem, em geral são dos fornecedores diretos dos fabricantes de produtos ou elaboradores de serviços. Pouco se monitora os fornecedores dos fornecedores.

Para Maurício Magaldi, da comunidade Hyperledger (capítulo Brasil), mentor de startups baseadas em blockchain e host do BlockDrops Podcast, o pedido de patente tem um significado grande porque além de a Amazon ser o maior site de compras, a iniciativa evita casos de produtos falsificados.

Em seu pedido, a Amazon exemplifica que quando um item é adicionado no sistema de catálogos, sua informação é incluída no começo do registro da cadeia para esse item. Uma certificadora pode fazer parte do sistema para verificar se os produtos correspondem ao que está no catálogo, baseado em uma ou mais regras de certificação.

Se os requerimentos forem cumpridos, a informação é registrada para indicar transferência de um produto de um fornecedor para o sistema de catálogo. A informação da certificação pode se apresentada com a descrição do item quando houve busca por ele no catálogo.

As características de registro distribuído e certificação fornecem uma confirmação melhorada de certificações de terceiros, disse a Amazon.

“Os usuários podem pedir informação sabendo que um produto se movimentou na cadeia de suprimentos e manteve sua autenticidade, como verificado em alguns casos por requerimentos estabelecidos por uma terceira-parte independente”, diz o pedido de registro.

No novo normal, quase tudo terá versão digital melhorada, da educação escolar ao dinheiro

A virtualização massificada das interações humanas que a atual pandemia vai nos deixar de legado foi o tema de meu artigo anterior – publicado em 25/05. Obviamente, as relações não serão apenas virtuais quando todas as restrições cessarem, mas a experimentação e a perda do medo em operar virtualmente trarão mais amplitude e profundidade no uso das tecnologias.

Um dos subprodutos dessa nova realidade é o que chamo de Omni-content (omni, tudo em latim). Nada novo, mas que será amplificado.

Se para reuniões se falou muito no Zoom, sua prima para propagação de conteúdo foi a live. Live para isso, live para aquilo, uma enxurrada de lives. Aqui foi outra explosão. Pessoas se reúnem virtualmente não só para trabalho, mas também para entretenimento, conteúdo e educação. Virtualizou-se quase tudo.

Se mais de 3 milhões de espectadores assistiram a live de Marília Mendonça no Youtube, mais de 12 milhões de pessoas viram a performance virtual de Travis Scott, um rapper americano, dentro do Fortnite, um dos games mais famosos atualmente. Imaginem os novos modelos de negócio que evoluirão… Imaginem acrescentar realidade virtual a isso tudo…

Chuva de lives

A chuva de lives nessa quantidade talvez não seja sustentável. Mas com certeza irá nos fazer repensar se um evento deve ser físico. Não só de entretenimento, mas de discussão de temas, como seminários e conferências.

Lives de conteúdo estão sendo muito utilizadas. Em geral, são gratuitas. O que é bom, pois traz mais audiência e dá acesso a conteúdos e discussões que muitas pessoas antes não teriam, quer seja pela questão financeira, quer seja pela questão física – a de rearranjos de escritórios, home office, onde empresas se estabelecerão e o impacto disso na dinâmica das cidades é assunto vasto para outra discussão.

A indústria de entretenimento, eventos, feiras de negócio serão chacoalhadas com a viabilidade desses novos formatos e como eles irão conviver com os mais tradicionais. Sem dúvida, essas indústrias precisarão rever seu modelo de negócio.

No banco da escola?

Daí chegamos a uma outra conjunção de extrema relevância: conteúdo e interação humana na educação. E esse é um campo fértil, não só na educação profissional, mas principalmente na educação escolar. Ainda são usados métodos do século passado na educação escolar.

Vivemos uma oportunidade única para evoluir o modelo educacional, aliando o que a tecnologia tem para agregar. Mas na medida correta, pois se por um lado o que se vive atualmente de aulas virtuais não é saudável no longo prazo, por outro há uma grande constatação de que a educação precisa evoluir.

Na maioria dos casos, simplesmente se jogou conteúdo de sala de aula num portal. Isso torna o processo oneroso para todos: alunos, professores e pais de alunos. Realmente espero que educadores, escolas e professores agarrem essa oportunidade e deem uma turbinada de fato em metodologia, conteúdo e ferramentas, em vez de usar a tecnologia para fazer uma gambiarra com o material do século passado para tapar a necessidade que a pandemia nos trouxe.

E quase integre isso a uma verdadeira experiência física, em que se valorize a proximidade e riqueza nas trocas entre alunos, professores, orientadores, dentre outros.

O ensino a distância (EAD), que teve grande crescimento nos últimos anos, deve reforçar sua relevância nos próximos anos. Seu crescimento será pautado por modelos de negócio, quão integrado estará, qualidade no conteúdo, experiência dos alunos e como massificar, dadas as questões de acesso a infraestrutura.

No mundo omni content, empresas terão de rever modelos de negócio

Como já vinha acontecendo no varejo com o conceito de omni channel (integração dos canais físicos e online), teremos o omni content não só na educação, mas em todas as plataformas de conteúdo e entretenimento.

Dado que o digital tem abocanhado um espaço relevante das interações físicas, haverá a necessidade de se pensar numa melhor intersecção de meios. É verdade que há várias iniciativas, inclusive antes da pandemia, mas isso precisará se intensificar.

O distanciamento social também reforçou transações sem contato.

Voltando para as lives de artistas, outra coisa que me chamou a atenção foram os QR Codes no canto da tela. Talvez seja um excelente indicativo da massificação no uso de novos meios de pagamento.

As transações em geral, e os meios de pagamentos dentre eles, devem ganhar um elemento de desburocratização, já que se perdeu o medo “na marra”. Alguém sentiu falta de não ter firma reconhecida em documento? Ou melhor, documentos assinados digitalmente, alguma reclamação? Esse movimento já vinha de antes, mas ainda tímido. Acelerou. E espero que seja mantido e incorporado a esse tal de novo normal.

Papel para quê?

Voltando aos pagamentos, os instantâneos já estavam na agenda. Prova disso eram que o projeto PIX do Banco Central já estava “no forno” e previsto para lançamento em novembro. A proliferação daquelas plaquetas com QR code no pequeno comércio crescendo exponencialmente assim como a profusão de wallets. Wallets das mais variadas: de varejistas, patinete, bancão, big tech, cripto…

A pandemia forçou um uso cada vez maior de pagamentos sem contato, relegando as notas físicas, que já vinham perdendo espaço, a perder ainda mais força. Mesmo o cartão de crédito ou débito teve um reforço para transações por aproximação, evitando que consumidores tenham que tocar nos POS, as maquininhas. Já perdemos o hábito de usar cheques, estamos perdendo o hábito das notas, perderemos no futuro hábito de carregar cartões (por menores e leves que sejam).

Terreno fértil para uma infra-estrutura mais moderna, não só o PIX, mas imaginem virtualizar as moedas nacionais, já que as notas físicas perdem relevância. Nos últimos anos, o debate das CBDCs (sigla em inglês para moedas digitais de bancos centrais), vem evoluindo e o momento atual reforça a relevância. Uma idéia que parecia maluca há alguns anos atrás, parece bastante razoável atualmente… Para quê o apego ao papel moeda?

Vale lembrar que isso já ocorreu, por exemplo, na indústria da informação impressa. Jornais e revistas consistentemente diminuindo circulação de seus veículos impressos, com o avanço e popularização de novas mídias. Portanto, hoje parece bem razoável que esse movimento chegue ao dinheiro também.

Houve um choque de costumes, perdeu-se o medo do virtual e há incentivos em vários participantes dessa indústria de se ganhar eficiência, além do medo de novos formatos ganharem força. Transações mais baratas, rápidas e eficientes. Menos impressão de papel moeda, menos logística e segurança para armazenamento das notas, ou seja, a tecnologia trazendo eficiência para as transações financeiras.

Carteiras que não ficam no bolso

E sobre as cripto moedas? É importante separar o joio do trigo. Sem o Bitcoin, não estaríamos discutindo CBDC, que são moedas tokenizadas por bancos centrais e distribuídas em blockchain, em vez de papel. As cripto foram fundamentais também na forma que as wallets de cripto evoluíram e influenciaram as de moedas fiduciárias, as fiat. Também deverão ganhar relevância e mais adoção, mas as pessoas precisam perder o medo.

Isso significa diminuição de fraudes, uma experiência de usuário menos técnica e mais simples para o usuário comum, além da diminuição de volatilidade para um uso mais corriqueiro (desassociando do investimento que beira especulativo). CBDC’s e stablecoins (criptomoedas atreladas a moedas ou cesta de moedas nacionais que mitigam a volatilidade) serão elementos fundamentais para uma nova primavera cripto.  Sem contar o potencial que projetos como a Libra (cripto moeda do Facebook) podem gerar quando (e por que não se) forem lançados.

Independente de quais sejam os modelos de negócio e tecnologia vencedoras, pagamentos instantâneos e sem contato vieram par ficar e o distanciamento social apenas acelera o ritmo de adoção.

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

Discovery Science exibe primeiro seriado financiado com criptomoeda

O Discovery Science dos Estados Unidos vai ser o primeiro canal a cabo a transmitir o primeiro documentário 100% financiado com criptomoedas. Como não poderia deixar de ser, o tema é o mundo cripto, mais especificamente a historia da plataforma blockchain Dragonchain, desenvolvida pela The Walt Disney Company em 2014 e que depois se tornou open source e foi lançada em 2017. O seriado Open Source Money estreia dia 4 de julho.

A produção de cinco capítulos custou US$ 1 milhão. De acordo com a Vision Tree Media, Open Source Money conta a história de Joe Roets, fundador da Dragonchain, empresa que ajudou a aumentar o interesse mundial por criptomoedas. Para isso, será contada também a história da blockchain e das criptomoedas e entrevistará outros empreendedores do mundo cripto, incluindo o Facebook.

A Vision Tree, que há 65 anos produz filmes, também é co-produtora do filme “Atari: Fistful of Quarters”, junto com a produtora do ator Leonardo di Caprio. O filme foi tokenizado pela TZERO. Os tokens Bushnell dão direito a parte dos ganhos do filme e outros benefícios, como votar no trailer e ajudar a escolher o elenco. A produção é sobre um dos criadores do primeiro vídeo game do mundo, Nolan Bushnell. O Atari, para quem não se lembra ou não sabe, é o pai dos jogos eletrônicos.

Programa da Telefónica dará acesso gratuito a soluções para startups e PMEs

A Telefónica anunciou o lançamento do Activation Programme, que selecionará startups e pequenas e médias empresas que poderão ter acesso gratuito a novas tecnologias, incluindo Internet das Coisas (IoT), blockchain, big data e inteligência artificial, para que se desenvolvam. Segundo a empresa, o programa será lançado também no Brasil, mas ainda não há data anunciada.

O programa inclui a realização de pilotos para a Telefónica e seus clientes e até investimento do Wayra, hub de inovação da empresa.

Em blockchain, será dado acesso à sua solução TrustOS.

Google Cloud se torna nó validador da rede de distribuição de vídeos Theta

O Google, por meio do Gloogle Cloud, deu um passo de aproximação com blockchain. A empresa fechou um acordo com a Theta Labs, plataforma global de distribuição descentralizada (P2) de vídeo e que tem nós inclusive no Brasil. O Google Cloud vai ser um nó validador na rede Theta na Europa, a partir da Irlanda, e vai oferecer um serviço que permite aos usuários da plataforma para implantarem nós da rede Theta.

O nó validador aprova se uma transação pode ser fechada – outros tipos de nós têm outras funções. Segundo o Google, esse é um dos seus primeiros nós validadores e é um passo além da inclusão de dados do Bitcoin, Ethereum e outras 6 cripto moedas através de seu programa público.

Com a entrada do Google Cloud, redes da Theta em diversas partes do mundo estarão mais livres para os vídeos. Nela, os vídeos estão distribuídos a partir de diversos pontos e não apenas a partir de um banco de dados centralizado, de onde se “puxa” o vídeo quando alguém quer acessar, como acontece com Netflix, por exemplo. Cada vez que um grupo de usuários assiste ao mesmo vídeo praticamente ao mesmo tempo, apenas o primeiro acessa o banco de dados e a imagem passa de um para outro. Isso reduz custos de infraestrutura.

Por isso, quanto mais usuários, mais eficiente é a rede. E ainda é possível “alugar” sua banda larga na rede blockchain, com pagamento feitos com o token Gamma. Samsung e Sony são alguns dos nós validadores, que agora são 12. Samsung é também um dos investidores na empresa.

Accenture, Deloitte e Colômbia assinam declaração de direitos do blockchain

Accenture, Deloitte, a presidência da Colômbia estão entre os 53 signatários da declaração de direitos do Blockchain, a Presidio Principles: Foundational Values for a Descentralized Future, lançada pelo World Economic Forum Blockchain Council. A maioria deles já nasceu no mundo blockchain.

O objetivo é ter um guia que preserve os direitos dos usuários ao se desenvolver aplicativos para as plataformas. A tecnologia muitas vezes é questionada sobre a proteção de dados dos usuários, como mandam as leis LGPD, prevista para entrar em vigor no Brasil em agosto, e a GRPD, da União Europeia.

Com a pandemia do Covid-19, espera-se um aumento do uso de tecnologias e esses questionamentos podem crescer. O documento foi desenvolvido por um ano.

Os princípios são divididos em 4 pilares: transparência e acessibilidade, referente ao direito à informação sobre o sistema; privacidade e segurança, que trata do direito à proteção de dados; agência e interoperabilidade, o direito dos indivíduos de terem a propriedade e o gerenciamento de seus dados; e accountability (prestação de contas) e governança, que é sobre o direito dos usuários do sistema de entender os recursos da plataforma.

Instituto Totum emite certificado de energia renovável com blockchain

O Instituto Totum, especializado em certificação, começou a usar blockchain nos certificados de energia renovável de padrão internacional, os I-RECs, comprados por empresas para demonstrar que usam ou incentivam esse tipo de geração. O objetivo é garantir que um certificado será utilizado apenas uma vez, sem duplicação de venda ou manipulação de dados para reuso.

” Queríamos colocar uma segunda camada de segurança na emissão e nos adiantarmos a uma realidade que vai acontecer, que é blockchain para negócios em energia elétrica”, diz Fernando Lopes, sócio do Totum.

O Totum deve gerar cerca de 4 milhões de I-RECs neste ano. Há 110 usinas de 30 empresas aptas a emitirem o certificado no Brasil, o que é voluntário. Segundo Lopes, foram investidos R$ 500 mil no projeto para incluir blockchain no Sistema Totum de Emissão de RECs (Sisrec). O projeto foi conduzido internamente, com a plataforma Hyperledger Fabric e tem capacidade de até 20 mil transações por segundo. A estimativa é de um retorno do investimento em três a quatro anos.

A ideia de usar blockchain começou há três anos e decidiu-se ir direto para a produção, sem testes. Estudo do portal alemão Statista prevê um crescimento do uso dessa tecnologia no setor de US$ 1,2 bilhão para US$ 23,3 bilhões em 2023.

Para acelerar o lançamento, o Totum é o único validador, com 3 servidores. A próxima etapa, ainda em 2020, é abrir para que uma ou duas usinas, a Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel) e a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) também sejam nós validadores. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) têm restrições para isso devido a políticas de dados.

Blockchain com IoT

Também está no plano o uso de internet das coisas (IoT) para envio de dados pelas geradoras e ampliação do uso da plataforma para outras áreas em que o Totum atua como certificador, como alimentícia, financeira e de segurança. Hoje, os dados de geração de energia no sistema elétrico do país, usados para emitir os certificados, estão disponíveis para o instituto com cerca de dois meses de atraso.

Com IoT, a geradora poderá enviar os dados em tempo real e vender mais rápido o certificado após a geração. “Vamos colocar smart contract para a usina alimentar nosso sistema e emitir seus RECs. A rigor, cada usina poderia ter sua plataforma de blockchain para gerar certificados, mas o mercado não vê isso com bons olhos, porque pede um garantidor”, diz Lopes.

“Trabalhamos numa parte pequena da energia elétrica disponível, mas quem sabe com nosso aprendizado não possamos migrar para o que se faz no exterior, que é tokenizar a geração e consumo, principalmente a P2P. Estamos estudando isso”, completa o executivo. Com o novo marco regulatório do setor, que está no Congresso, isso poderá ser realizado.

O Totum estuda ainda o uso de blockchain para um outro ativo de energia. “Já se fala num ativo ambiental, que seria o lastro de energia, a que de fato vai ser entregue e tem relação com a intermitência de geração – quanto menos intermitência (caso da hidrelétrica), mais garantia de entrega pode ser vendida”, completou.

As empresas compram certificados para demonstrar que apoiam a geração limpa.
As empresas compram certificados para demonstrar que apoiam a geração limpa.

Como se gera o certificado

A geração do certificado parte da inclusão de dados de geração de energia renovável vindos da Aneel e da CCEE. A inclusão ainda é manual. A partir daí começa o uso de blockchain, com a emissão de um certificado para cada megawatt/hora gerado por uma usina que adota o processo de certificação. A venda é feita no Sisrec para empresas interessadas em comprá-los, que são os usuários finais, ou para os traders.

Com a hash gerada e a possibilidade de rastrear tentativas de reuso ou adulteração, a confiabilidade de um certificado é mais garantida. “Blockchain resolve bem essa transação”, afirma Lopes. O certificado tem dados como o código da usina, tipo de energia, mês e período da geração, data de aprovação, registro no blockchain e a hash emitida.

Como funciona o certificado

Os I-RECs são emitidos em outros países e a o Instituto Totum é o emissor oficial no Brasil. Na ponta final do usuário, não é possível saber de onde vem a energia elétrica. Por isso, uma empresa pode comprar uma quantidade de certificados equivalentes à energia que usa, como forma de mostrar que se preocupa com a energia renovável. Isso pode incentivar a geração, porque cria mais uma receita para as usinas, e as empresas podem usar os certificados em seus relatórios de responsabilidade social e ambiental. Há aquelas que têm metas de uso de energia limpa. É possível também comprar certificados de gerações específicas, como de energia eólica.

“Como a energia renovável é mais abundante aqui do que na Europa e Estados Unidos, o valor de uma REC é de U$5 a US$ 10 no mercado norte-americano, de 3 a 4 euros na Europa e de R$ 2 a R$ 5 no Brasil. O de recursos hídricos aqui, por exemplo, é mais barato”, explica Lopes.

O Instituto Totum tem os dados de 95% da energia gerada no país por mais de 2 mil sinas, referentes à produção centralizada – a descentralizada é, por exemplo, a geração de energia solar em casa. São cerca de 45 milhões de megawatt/mês. O sistema de contabilização de energia renovável que entra no sistema existe há 20 anos, mas há 7 anos foi lançado pelo Totum no Brasil e há 4 anos o instituto emite o I-REC, que tem padrão internacional, o que aumentou o interesse na certificação.

O hoje não é o novo normal. O novo ainda vai chegar e será nas interações entre pessoas

Esse primeiro semestre de 2020 está sendo o pico (assim espero) de uma severa pandemia e depressão econômica. Uma mudança radical nos hábitos de pessoas e empresas foi imposta por conta do medo de contágio em si e de políticas públicas como quarentena e lockdown. Deste choque na rotina das pessoas muitos profetizam sobre o novo normal, novos hábitos que as sociedades incorporarão de agora em diante. Apesar de haver elementos de novo normal, o que se vive hoje não será o novo normal. Haverá ainda uma fase de transição, que a duração dependerá de uma série de fatores, para lentamente desaguar em algo mais perene. E se isso tiver mudanças representativas ao que se vivia antes da pandemia, e acredito que tais mudanças apareçam, aí sim teremos…. o novo normal.

O home office, por exemplo, não foi e não será o que vivemos hoje. Para começar, é home tudo. Home office, home school, home mercado, home etc. Todos os membros da família e, às vezes, alguns agregados, compartilham do mesmo ambiente, cada pessoa com suas necessidades. A não ser que a Terra vire um planeta tão inóspito como Marte, esse não será o novo normal. Porém, podemos pegar vários elementos que foram catapultados pela atual crise e projetar como vão se inserir de forma mais significativa na sociedade e eventualmente até catalisar mudanças e evoluções.

Fato: iremos experimentar uma virtualização massificada das interações humanas.

Uma das grandes vedetes, a web conferência em que o Zoom foi seu mais famoso representante, já existia há bons anos. Porém, sempre relegado a um papel secundário nos ambientes de trabalho mais tradicionais. Pois não é que estes foram forçados a usar? Perdeu-se o medo frente a necessidade. E não é que funciona? Esta será uma ferramenta cada vez mais usada para ganho de produtividade, com reuniões mais objetivas e sem desperdício de traslados para outros polos da empresa, clientes, inclusive evitando viagens mais longas (o planeta agradece), claramente substituíveis por uma reunião virtual. E imagina isso se estendendo para além da empresa, se aprofundando nas relações com clientes, fornecedores e projetos com vários participantes.

Free-lancers e outros profissionais liberais, na média, já estão mais acostumados a trabalhar de forma mais remota, quer seja em marketplaces de oferta de serviços, quer seja em terceirizações de funções como desenvolvimento de software, comunicação, webdesign, entre outros. E esse tipo de relação virtual só crescia, muito antes de qualquer indício de pandemia. O trabalho remoto, que já existia antes da pandemia, tende a se intensificar e com ele novas oportunidades e riscos inerentes a essa forma de trabalho, especialmente pela experimentação e potencial adoção por empresas que antes não o consideravam seriamente.

Zoom nas assembleias

Outro grande serviço que as reuniões virtuais podem prestar é em assembleias deliberativas. Imagina assembléia de condomínio virtual com voto eletrônico substituindo aquelas assembleias de condomínio chatas e intermináveis… Clubes, Igrejas, comitês, associação de classes, qualquer organização. Isso pode ser aplicado também a assembleias de acionistas (além de outros títulos financeiros) e gerar uma maior participação e engajamento – diga-se de passagem, Warren Buffett brilhou com sua assembleia geral anual da Berkshire Hathaway inteiramente digital.

Daqui para frente, essa tendência forçará ajustes a seu redor: melhoria e maior acesso na infraestrutura de internet, maior cuidado com segurança de dados, adaptação de legislação e uma nova “etiqueta” de reuniões virtuais. Sobre a infraestrutura, acredito que dispensa comentários no Brasil. Reuniões virtuais funcionam super bem para quem tem computador e internet relativamente rápida e estável. Pois ficar em conferência com o áudio picotado, ou até o audio dessincronizado com a imagem, tipo as dublagens dos seriados japoneses da década de 80, é bastante contraproducente e cansativo.

Sobre a segurança de dados, a etiqueta virtual deve ser ainda mais rígida e as plataformas mais seguras. Muitas reunião virtuais recentes têm sido invadidas, tem até novo termo cunhado para isso: zoombombing. Para uma adoção maior, especialmente no universo empresarial, esse tipo de ameaça tem que ser menos provável de ocorrer (100% seguro talvez seja utópico). Sobre legislação, seria o caso de ajustar (ou manter os ajustes feitos para a pandemia) o que for necessário para dar conforto jurídico sobre reuniões virtuais. É o caso, por exemplo, de se manter a possibilidade de assembleias virtuais sem obrigatoriamente ter o aspecto físico. Ou os limites de responsabilidades quando se tratarem informações sigilosas. Com a dose certa, os ajustes podem atacar a burocracia, os custos decorrentes dela e ao mesmo tempo dar segurança jurídica.

Outros elementos que acredito devam ganhar força são a omni content, transações sem contato, telemedicina, uma completa revisão da logística, novas práticas de transporte público e revisão da política de produção mundial de bens com viés de gestão de risco dentre outras tendências. Estes serão assuntos para outros artigos dessa série

Novo normal após o 11/09

Apenas como contra-ponto, por mais digital que o mundo caminhe, a pandemia também trouxe a valorização dos momentos de presença física. Visitar a familia, sair com amigos, ir à escola e praticar esportes. Ou vocês acham que quando abrandar a pandemia, ninguém mais vai à padaria tomar uma média com pão na chapa? Mesmo que serviços de delivery entreguem comida, há toda uma questão de experiência, ritual, que será cada vez mais valorizada. Até mesmo porque, as coisas não voltarão a ser como eram de uma vez só. Tudo será faseado, quer seja por questões impostas por governantes, quer seja por medo da população. Mas seríamos ingênuos em acreditar que as interações presenciais irão cessar. Elas continuarão. Com restrições gradativamente menores. Assistir à final de um evento esportivo no estádio, um show de seu artista favorito, uma peça de teatro, tomar uma cerveja com amigos com certeza não desaparecerão. Além disso, dadas todas as restrições atuais acredito que serão encaradas de forma mais especial.

Talvez a pergunta aqui é como será a abertura e como as condições impostas impactarão a experiência. Tomemos como exemplo os eventos de 11 de Setembro de 2001, com a série de atentados terroristas nos Estados Unidos. Vidas foram perdidas, cenas chocantes presenciadas por bilhões de pessoas. Durante um período transitório, houve grande medo em pegar avião e até uma série de restrições para viagens por esse meio. Mas daí, o novo normal não foi deixar de viajar, e sim o uso de tecnologia e procedimentos mais rigorosos no embarque das pessoas. Sem dúvida o novo processo comprometeu a experiência dos usuários – tira sapato, passarela raio-x, entra em outra fila etc.) mas foi a forma como as viagens foram retomadas. A grande pergunta é como as interações presenciais irão ser retomadas, com quais limitações, por quanto tempo e qual será o papel da tecnologia nesse… novo normal.

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

Espanha testa passaporte digital que mostra se usuário é imune ao Covid-19

Onde há tecnologia, há esperança. A Organização Mundial do Turismo (OMT) e a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) autorizaram o teste do aplicativo hi+Card, um passaporte sanitário digital, que mostrará se um turista está imune ao Covid-19. O teste será em julho, num voo entre Madri e as Ilhas Canárias. Com a apresentação do passaporte, será possível acomodar os passageiros nos meios de transporte de forma a evitar o contágio de quem não tem hi+Card. Isso poderá viabilizar um retorno mais rápido das viagens e turismo.

O hi+Card foi desenvolvido por empresas da Espanha e funciona com dupla criptografia sobre a tecnologia blockchain e autenticação em dois fatores, como noticia, em detalhes, o site espanhol Blockchain Economía.  Tudo dando certo, o aplicativo poderá ser usado em todo o mundo.