Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Mastercard supera 100 patentes em blockchain e vê barreira para uso direto de criptomoedas na rede

Além de comprar a CipherTrace, Mastercard tem iniciativos como o cartão pré-pago para CBDC das Bahamas. Foto: Alina Kuptsova.

A Mastercard, que superou a marca de 100 patentes de blockchain aprovadas e tem “outras centenas pendentes”, adotou a estratégia de uso indireto de criptomoedas em sua rede por motivos como tempo de transações e volatilidade. Uso direto s´ó por meio de stablecoins como a USDC, que a empresa já está habilitando em alguns países.

Foi o que disse hoje (30) Walter Pimenta, Vice-Presidente Sênior de Produtos e Inovação da empresa. O executivo afirmou ainda que a Mastercard participa da discussão de mais de 60 moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) no mundo. O Brasil é um dos países que estudam o assunto. Na América Latina são 9. “É o momento de pesquisa e de trabalhar junto para que desenho (das moedas) seja eficaz”.

De acordo com Pimenta, a estratégia da Mastercard não é atuar diretamente com criptomoedas “raiz“, de redes descentralizadas como bitcoin e ethereum. Dessa forma, o que faz é licenciar seus parceiros, como bancos e bolsas de criptomoedas, para emitirem um cartão para uso das moedas digitais.

Essas instituições, por sua vez, fazem a conversão das moedas e então, na rede da Mastercard, só transitam as moedas fiduciárias (fiats). O executivo afirmou que a empresa não sabe quanto é convertido de criptomoedas para fiat para uso na sua rede.

Mastercard diz que volatilidade e tempo pesam nas criptomoedas

Um dos motivos para essa estratégia da Mastercard é a volatilidade. Em compras com moeda fiat, esse problema é minimizado em economias com alta inflação, como a Venezuela, porque as transações são praticamente instantâneas. A questão de pagar com bitcoin, por exemplo, é a transação levar horas para ser fechada. Nesse meio tempo, o valor da cripto pode mudar muito, trazendo até prejuízos para quem recebe, em especial se a compra for de alto valor.

“Por isso, enxergamos criptomoedas mais como ativo de investimento de especulação do que um veículo de compra e venda. Não sabemos como será o futuro, mas nosso papel é habilitar conversão e transação. A relevância disso (das criptomoedas) é muito clara”, afirmou Pimenta, que fica em Miami.

As stablecoins, ou moedas estáveis, porém, têm tratamento diferente das criptomoedas pela Mastercard. “São a representação digital da moeda de um país. Vão trafegar na rede. Já estamos habilitando o processamento de USDC em alguns países”. Esses incluem os Estados Unidos (EUA) e europeus como o Reino Unido. E poderia incluir o Brasil. “Para todos os países o plano é o mesmo: desde que haja regulação, estamos abertos a trabalhar nos três modelos (criptomoedas, stablecoins e CBDCs).

No entanto, para essa habilitação ou de qualquer outra moeda, além da demanda pelo serviço, é preciso que a cripto atenda a três princípios da Mastercard. Assim, deve oferecer proteção de dados dos consumidores e atender as legislações locais de segurança. Também devem atender as regulações dos países e serem estáveis. Boa parte das stablecoins, inclusive a USDC que a Mastercard usa, é atrelada a dólar dos EUA.

Empresa está nas discussões de mais de 60 moedas de bancos centrais

Em relação às CBDCs, para a Mastercard, o modelo ideal é o chamado de dois níveis. Portanto, similar ao que é hoje, em que o BC emite e gerencia a moeda digital no país. Mas a distribuição é do setor privado, ou seja, dos bancos e fintechs.

“Isso é interessante porque o papel do BC é, na maioria dos casos, gerir, dar estabilidade e regular a moeda. E quando habilita o setor privado a competir na distribuição, fomenta a competitividade, a inovação e uma melhor experiência de uso”. Um outro ponto da Mastercard é que esse modelo ajudaria no aumento de uso da moeda pelos cidadãos, já acostumados ao sistema atual.

Uma alternativa seria o BC distribuir a moeda, o que tiraria um dos papeis principais que as instituições financeiras têm hoje. Bahamas tem já uma CBDC e é um caso a ser acompanhado para verificar o que acontecerá, afirmou Pimenta. A empresa já emitiu cartão para uso da CBDC no país.

A Mastercard e suas rivais Visa e PayPal estão ativamente participando de discussões e iniciativas relacionadas tanto à tecnologia blockchain, como a criptomoedas. Isso porque as criptos podem ter impacto direto em seus negócios, o de pagamentos digitais.

Uma das ações mais recentes da Mastercard foi comprar a CipherTrace, que detecta fraudes em redes abertas de criptomoedas. E investir na ConsenSys, que desenvolve soluções em Ethereum, incluindo finanças descentralizadas.

*Reportagem em atualização.

1 Comentários

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>