Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Depois da Rice Exchange, agora a Fertilizer Exchange será lançada; ambas usam blockchain

Fertilizer Exchange foi criada pelo mesmo fundador da exchange de arroz. Foto: Unsplash.

Está prevista para entrar em operação, em 1º de abril próximo, a Fertilizer Exchange (Fertx). O foco da plataforma global é a venda da commodity. Mas, um dos diferenciais é o uso de blockchain para compartilhamento e registro de dados das transações.

Na próxima semana, a Fertx começa a inclusão de participantes na plataforma. Sunderland, gerente do projeto, diz que cerca de 100 empresas mostraram interesse de participar. Porém, 50 serão convidadas para a primeira fase.

O idealizador da plataforma é Stephen Edkins, também co-fundador e CEO da Rice Exchange (Ricex), a primeira do tipo. A Ricex opera desde setembro de 2020. Entre os usuários, há brasileiros, disse ele em entrevista exclusiva ao Blocknews.

Edkins trabalhava no mercado financeiro. A ideia das plataformas começou com a de arroz, quando se envolveu num projeto de moinho na Nigéria. Encontrou Frank Gouverne, trader de arroz, e co-fundador da Ricex. Conversando, viram que blockchain seria a cola para diminuir a fricção e a falta de confiança nas transações da commodity.

A Fujitsu fez a infraestrutura da Fertx, assim como da Ricex, e usou Hyperledger Fabric. A empresa é um dos membros da comunidade Hyperldeger. O código da plataforma de fertilizantes é praticamente o mesmo do usado na de arroz. Muda cerca de 5%.

A Microsoft, com o Azure, também participa dos projetos. Poderão entrar na Fertx outros participantes que já estão na Ricex. Portanto, empresas como a Maersk, de navegação, Cotecna, de inspeção, e Siaci Saint Honore, de seguros.

Exchange pode dar “match” melhor

Edkins quer incluir ainda um operador de financiamento de comércio exterior. Dessa forma, toda a cadeia de venda da commodity estará nas plataformas. Isso facilita a vida, em especial, dos vendedores de menor porte, que não contam com estruturas internas de comércio exterior.

Para vendedores, diz Edkins, uma vantagem é a de oferecer o produto a um número maior de compradores e ter mais liquidez. Portanto, a plataforma evita que o produtor fique nas mãos de um grupo pequeno deles. O mesmo serve para os compradores. No final, isso pode dar um “match melhor” das transações, espera ele.

Usar tecnologia nas transações é um salto enorme para os setores. “A comercialização de commodities está parada no século 19”, afirmou Phil Sunderland, gerente geral do projeto da Fertx, ao Blocknews. Isso porque há muito uso de papel, telefone, correio e viagens de portadores de documentos.

De acordo com Edkins, blockchain acelera a preparação dos documentos. Na plataforma, há troca de dados entre os negociadores de forma rápida e segura. O que podia levar duas semanas, é feito em um dia, disse Rodolpho Koch, que fica no Brasil e cuida do atendimento global de clientes da Ricex,

Além disso, como a plataforma reduz riscos de dados e das transações, pode ajudar a reduzir, por exemplo, o custo do seguro da carga. E pode tornar mais ágil o pagamento.

Mercados são atomizados

Stephen Edkins, CEO da Ricex, teve a ideia da plataforma num projeto na Nigéria.

Edkins está começando com arroz e fertilizantes que, segundo ele, têm muitas similaridades. Em primeiro lugar, porque são atomizados, com diversos fornecedores – e no de arroz, muitos deles bem pequenos. Por isso, há uma grande variedade também de traders especializados em cada tipo.

Mas sua ideia é, no futuro, fazer o mesmo com outras commodities. A lista inclui trigo, açúcar e papel. Só que para essas ainda não há data para lançamento.

Fertilizer Exchange terá curadoria

A expectativa é chegar a US$ 20 milhões negociados por mês até o final de 2021. E a 1 milhão de toneladas e 200 participantes ativos em doze meses. As exportações de fertilizantes somam cerca de 70 milhões de toneladas ao ano.

Os volumes não devem ser grandes no início. Isso porque os participantes deverão testar a Fertilizer Exchange antes de deciderem substituir uma parte maior do método atual pela plataforma.

Paga pelo serviço da plataforma quem vende. O percentual ainda está em discussão, mas deverá ser inferior a 1% do valor negociado, porque as margens são baixas. Prestadores de serviços, como os de seguros, também pagarão uma taxa à plataforma.

“Não queremos todo mundo na plataforma. Será um marketplace com curadoria, para garantir que todos os participantes são legítimos”, afirmou Sunderland.

Segundo ele, assim como na Ricex, na Fertilizer Exchange haverá checagens, por exemplo, de Know Your Client (KYC). Umas das empresas que vai entrar é a Mopco, fabricante egípcia de fertilizante.

Pandemia facilitou aceitação

Sunderland é trader de fertilizantes há quase 20 anos. Por isso, imaginava alguma resistência à plataforma, o que não tem acontecido. “Agora, todo mundo faz reunião por vídeo e negócios por telefone. A pandemia ajudou na adoção de tecnologia no setor”, completou.

O mercado global de fertilizantes é de cerca de US$ 200 bilhões ao ano. O Brasil é um dos grandes importadores e compra de fora 60% do que utiliza. Tanto que o governo federal lançou, no mês passado, um plano para aumentar a produção local.

No mercado de arroz, a questão da tecnologia não é muito diferente. E tem ainda a questão dos produtores pequenos, sem contato com plataformas de negociação. O fato de ser a comida mais negociada do mundo, disse Edkins, também o ajudou a pensar na plataforma.

Rice Exchange em 20 países

A Ricex realizou US$ 4,5 milhões em transações entre outubro e dezembro de 2020. As operações têm sido de 500 a 1 mil toneladas. A expectativa é chegar a US$ 50 milhões por mês em transações até o final do ano. O preço varia, mas cada tonelada pode ser de cerca de US$ 500.

A Ricex tem mais de 60 usuários de 20 países. Foram investidos US$ 2,5 milhões nela. Segundo o CEO, há brasileiros exportando pela plataforma. Brasileiros vão participar de uma concorrência da Costa Rica que será detalhada no segundo trimestre.

A produção anual de arroz processado é de 488 milhões de toneladas. Cerca de 10% disso (48 milhões) são exportados.

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