Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Tesla não vai mais aceitar bitcoins. Consciência pesada ou estratégia de negócio?

Elon Musk mexeu no preço de bitcoin com o anúncio. Foto: Tumisu, Pixabay.

Elon Musk, fundador e CEO da Tesla, anunciou nesta quarta-feira (12) que mudou de ideia. Por enquanto, sua empresa não vai mais aceitar bitcoins na compra de seus carros, como havia anunciado em março passado. Vindo de quem vem, a informação levanta muitas questões*.

Aliás, na verdade, sendo quem a Tesla é, não deveria nem ter comprado bitcoin se a alegação de não aceitá-la mais é a ambiental. Teria Musk colocado seu apreço pela moeda acima do perfil clean da empresa?

O anúncio aconteceu num post de cerca de 400 caracteres no Twitter. Além de incluir uma contradição, a de que a Tesla vai manter os cerca de US$ 1,5 bilhão que tem em bitcoins, ou seja, os “ativos sujos”. Assim, em mensagem tão curta, Elon Musk fez questão de dar a notícia sem explicar, de fato, o motivo da mudança.

Musk disse o que todo mundo já sabia e certamente ele também: que minerar bitcoin consome muita energia. E das piores, porque a estimativa é de que cerca de 75% dessa mineração acontece na China, com uso principalmente de carvão.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que Elon Musk criou uma empresa de carros elétricos e seu lucro vem, em boa parte, da emissão de créditos de carbono.

Em 2020, a Tesla vendeu cerca de US$ 1,6 bilhão desses créditos para empresas como a Fiat. No primeiro trimestre de 2021, foram US$ 518 milhões, enquanto o lucro foi de US$ 438 milhões.

Tesla tem pedido pendente em agência ambiental dos EUA

Também ontem, a Reuters publicou que a Tesla aguarda decisão da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos (EUA) para operar no bilionário mercado de crédito renovável do país. Hoje, esse mercado, que foca em produção de biocombustível, é dominado pelos fabricantes de etanol.

O empresário também manda foguetes reutilizáveis para o espaço, o que é um ganho ecológico tremendo. Mas, os motores usam querosene. Como ele prometeu que vai desenvolver turbinas a metanol, sabe o que significa poluir.

Diante de tudo isso, Elon Musk certamente sabia que ter bitcoin era um calcanhar de Aquiles do ponto de vista ambiental. Em especial da pressão de investidores por políticas de ASG (Ambiental, Social, Governança). Tanto que houve críticas de ambientalistas à compra de bitcoins pela Tesla.

A decisão de Elon Musk teria, então, relação com a pressão de investidores? Também seria uma maneira de evitar problemas com – ou ganhar apoio do governo de Jon Biden? O presidente é mais favorável à preservação ambiental deve rever a política para carros elétricos da EPA, aquela onde Musk tem um pedido pendente.

Com Tesla e SpaceX, Elon Musk entende de poluição

Junto disso tudo, haveria ainda uma tentativa de mexer na cotação da moeda para benefício da Tesla ou dele próprio? Fato é que logo depois de seu tweet, a variação do preço da moeda, que já não estava em seus melhores momentos, caiu quase 12%. E assim continuava na manhã desta quinta-feira. Melhor para quem quer comprar.

Elon Musk sabe que quando fala, mexe com o mercado. Mexeu com bitcoin e arrastou para baixo outras moedas também. Inclusive a Dogecoin, uma meme-criptomoeda que o empreendedor ajudou a tornar, a partir do nada, umas das mais negociadas hoje em dia.

Aliás, essa variação de preço por conta de uma fala de Elon Musk foi mais um motivo para incrédulos em criptomoedas apontarem o dedo para a volatilidade da criação de Satoshi Nakamoto.

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Musk diz que busca criptos que usem menos de 1% da energia que bitcoin usa por transação.

Com o anúncio de Elon Musk, há quem defenda que basta a Tesla compensar a mineração embutida em seus bitcoins com créditos de carbono. Pode ser uma saída. Mas na prática, é poluir com a desculpa de que em outro lugar, alguém vai plantar árvores para você.

O ideal é mesmo trocar energia suja pela limpa. Na linha do token que o co-fundador da Apple trabalha. Nos Estados Unidos e Canadá, há movimentos de mineradores nesse sentido. Essas – ainda poucas – empresas estão buscando usinas hidrelétricas abandonadas para gerarem sua própria energia.

A Universidade de Cambridge estima que o consumo global na mineração de bitcoin é de cerca de 121,36 terawatt-horas (TWh) por ano. Isso significa o consumo anual de energia da Argentina. Não é pouca coisa.

*Reportagem atualizada às 15h11 com a informação sobre o pedido da Tesla para participar do programa da EPA.

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