Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Blocknews faz um ano e especialistas falam o que esperam em blockchain e criptos neste ano de 2021

O Blocknews faz um ano e comemora o apoio dos leitores e parceiros.

O Blocknews completa hoje (6) um ano no ar. Nesses doze meses, reportamos uma série de avanços e mudanças no mundo dos blocos, tanto no uso em empresas e governos, como nas criptomoedas. Cobrir o setor foi no mínimo muito corrido, mas também foi surpreendente e animado. A revolução que acontecia mais no subsolo está emergindo e ficando cada vez mais perto de quem pouco ou nunca tinha escutado sobre o assunto.

Chegamos a 1 ano com muito para comemorar. Temos um público fiel e que busca informações para seus negócios e investimentos. Assim, atingimos nosso objetivo de ser uma ferramenta de negócios e investimentos para os leitores. E melhor ainda: são praticamente em igual número de homens (54%) e mulheres (46%).

E o que será de 2021? Convidamos especialistas em diferentes áreas para responderem a seguinte pergunta: qual será o fato mais marcante em blockchain e criptomoedas neste ano? As respostas estão abaixo e indicam um ano provavelmente mais agitado do que 2020.

Vamos só lembrar de onde estamos partindo: ano passado, empresas que antes tinham medo de blockchain, porque a associavam a criptomoedas e fraudes, passaram a olhar a tecnologia da forma correta, ou seja, como transformadora de negócios. O governo brasileiro anunciou testes e usos da tecnologia. Além disso, as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), que pareciam algo ainda distante, tornaram-se assunto corrente. Tanto alguns dos maiores bancos incumbentes nos Estados Unidos (EUA), como JP Morgan e Goldman Sachs, quanto a BlackRock, maior gestora do ativos do mundo, mostraram que estão apostando em blockchain e em clientes e empresas do setor. No segundo semestre, houve o desabrochar das finanças descentralizadas (DeFi) seguida da sequência de recordes no preço do bitcoin.

Agora, vamos ao que os especialistas dizem sobre 2021:

Blockchain no agronegócio

Rafael Martins, CEO do Blockmeet MT – Seguindo a ascensão da tecnologia blockchain no Brasil, o agronegócio e a logística não ficam para trás. A rastreabilidade da produção do agronegócio brasileiro e mundial será um dos grandes feitos da tecnologia nos próximos anos. Acredito que passamos a fase hype, onde tínhamos várias provas de conceitos (Pocs). Agora estamos entrando na era da implantação e com uma crescente demanda pela necessidade da segurança da informação. Empresas de tecnologia e startups estão se integrando e entregando soluções do início ao fim da cadeia de valor para seus clientes. A rastreabilidade da produção do agronegócio brasileiro e mundial será um dos grandes feitos da tecnologia blockchain para os próximos tempos

Rafael Martins, CEO do Blockmeet Mato Grosso, diz que tecnologia avança no agronegócio.

CBDCs

Gustavo Cunha, economista especialista em CBDC e host do programa Fintechs e novos investimentos no Youtube – Para mim, é um movimento que começou e que tem muito ainda para continuar em 2021. Vamos ter alguns fatos importantes. A China já fez experimentos mais localizados, mas durante 2021 vamos ter muita novidade sobre como vai ser o desenrolar dessa moeda. Na Europa, as experimentos da Suécia devem se intensificar neste ano, onde há vários estudos bastante avançados com a solução da R3. A União Europeia (UE) tem até julho para definir o que fará. Há vários estudos em bancos centrais de países e com o banco central do bloco (ECB). Também vão decidir se vão usar blockchain. Esses três lugares serão bastante importantes para olharmos, em especial no primeiro trimestre.

Nos EUA, a discussão está mais lenta. Eles ainda vão implementar o FedNow, sistema de pagamentos instantâneos, apenas em 2023 ou 2024. Eles ainda estão muito atrasados em sistemas de pagamentos.

Para Gustavo Cunha, Suécia, China e UE são focos de atenção, em especial no começo do ano.

Mauricio Magaldi, host do podcast BlockDrops e mentor de startups – Impulsionado pela velocidade impressa pela China com sua CBDC, outros países, como o Japão, encerraram 2020 prometendo se movimentar mais rápido no desenvolvimento e testes das suas moedas. Esse movimento reativo corre o risco de ser overhyped, já que existem problemas além das questões digitais que precisam ser endereçadas e que diferem em cada país. Inclusão digital, população bancarizada e educação financeira são alguns desses aspectos.

Além disso, questões técnicas de escopo internacional, como padrões de protocolo e interoperabilidade, ainda são virtualmente desconhecidas em função dos esforços isolados de cada país. E mais: nem toda CDBC vai ser emitida em blockchain, o que apresenta outros tipos de desafios. O ponto é que não dá pra deixar de estudar e testar profundamente esse caso de uso na realidade individual de cada país. Então, é quase certo que veremos muito movimento nesse front.

A advogada italiana Rosa Barresi lembra que a consulta pública do euro digital vai até dia 12.

Rosa Giovanna Barresi, advogada italiana, research fellow da Digital Euro Association Um fator importantes em 2021 sobre o euro digital e ativos de criptos na UE é a decisão do Eurosistema sobre a adoção da CBDC. Isso está em consulta pública até 12 de janeiro. Essa moeda será um complemento do dinheiro físico e de outras formas digitais de pagamento, para aumentar a inclusão financeira e reduzir custos. Como prova de um abordagem realista, o protótipo de uma carteira digital para fazer pagamentos em CBDC se tornou um ponto importante nos estudos.

Outro fato importante é a repercussão da licença de custódia de criptomoedas na Alemanha, em 2020. Isso permite aos bancos oferecer serviços de custódia a seus clientes. Os criptoativos são descritos como representações digitais de um ativo. Assim, cobrem uma ampla gama de instrumentos financeiros. A licença também se aplica a provedores de serviços fora da Alemanha caso ofereçam serviços regulados a clientes no país. Os custodiantes já oferecem serviços a bancos.

Identidade Digital

Mauricio Magaldi – Pegando carona no momento criado por algumas das soluções criadas em resposta à pandemia da Covid-19, uma tendência proeminente para o primeiro semestre do ano devem ser as redes de SSI/DID (Self Sovereign Identity / Digital Identity). As principais soluções estão cobrindo o rastreamento dos vacinados, mas abrem caminho para muitos outros casos de uso associados aos dados privados de pessoas físicas, empresas e até mesmo dispositivos IoT (internet das coisas). Os potenciais de uso vão além da rastreabilidade, incluindo processos de KYC (Conheça seu cliente, na sigla em inglês) dos bancos, acesso a serviços públicos, e gestão de acesso (IAM, na sigla em inglês) para que dispositivos IoT possam interagir com redes físicas e smart contracts aos quais têm permissão. Sendo um caso de uso fundamental, é certo que desenvolvimentos concretos nesse espaço.

Mauricio Magaldi acredita que a identidade digital será assunto corrente em 2021 .

Governo

Carlos Fortner, diretor presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) – Blockchain já está sendo usada em diversas aplicações de governo, como B+CPF/Cadastro Base do Cidadão (CBC), na saúde e da Dataprev. E uma das metas da Estratégia de Governo Digital 2020-2022 é crescer o uso da tecnologia em diversas aplicações.

O uso de blockchain no governo deve crescer, diz Carlos Fortner, diretor-presidente do ITI.

Regulação

Tatiana Revoredo, CSO na the Global Strategy, membro fundadora da Oxford Blockchain Foundation – Em 2020, houve crescente interesse no uso de criptomoedas, não apenas como meio de troca, empréstimo ou investimento. Houve também uma substituição literal para dinheiro e crédito em atividades financeiras diárias. Por isso, espera-se o reaquecimento do debate sobre a regulamentação de criptoativos no Brasil, assim como maior atenção das autoridades nos demais países quanto a áreas nebulosas.

Espera-se ainda um aumento no interesse de governos ​​em como as transações criptográficas e as atividades financeiras digitais podem afetar impostos, em como mitigar riscos para os investidores em DeFi e em como devem ser as regras para emissão de stablecoins. O mercado de moedas estáveis, dependendo da regulamentação, pode quadruplicar de valor neste ano. Nos EUA, será interessante acompanhar, em primeiro lugar, a legislação prometida pela SEC (Securities Exchange Commission) para “criptoempreendedores”. Em segundo lugar, o caso da CFTC contra a Abra, por vender trocas de títulos a investidores sem listá-los em uma corretora nacional reconhecida). E em terceiro lugar, o caso da CFTC contra a BitMex por oferecer serviços ilícitos a seus usuários).

O maior uso de criptomoedas em 2020 deve aumentar o debate sobre regulamentação do setor no Brasil e no exterior, diz Tatiana Revoredo.
Criptomoedas

Bernardo Quintão, especialista em criptomoedas e advisor do Mercado Bitcoin – Acredito que 2021 será marcado por um crescimento ainda maior do setor de criptoativos e blockchain. O maior interesse pelo bitcoin como ativo traz mais interesse na tecnologia. As demais criptomoedas, criptoativos e empresas trabalhando com blockchain também deverão receber mais atenção de venture capital, investidores de varejo, clientes e da mídia em geral. Com isso, mais discussão a nível regulatório deve acontecer e também reações de empresas incumbentes afetadas. Blockchain será o tema central no universo da tecnologia novamente, como foi em 2017.

Nicholas Sacchi – Head de cryptoassets da Exame – 2021 será um ano excepcional para o mercado cripto brasileiro. Seguindo a tendência global, as fusões e aquisições no setor deverão se intensificar ainda mais, seguindo o movimento de crescimento que se repete há alguns anos.
No âmbito regulatório, o lançamento do sandbox regulatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) corrobora o avanço do setor em várias frentes. Mas, em especial, no de tokens de valores mobiliários, que devem aparecer com força já nos primeiros meses do ano.
A institucionalização do mercado deve continuar com força e devemos ver instituições financeiras importantes e tradicionais dando passos mais consistentes na direção deste mercado. Não apenas incluindo bitcoin na recomendação de portfólio para os seus clientes, mas emitindo seus próprios criptoativos.

Finanças Descentralizadas

Bernardo Quintão – O que vimos em 2020 em DeFi foi um “boom” nos experimentos de um mercado financeiro aberto, open source. Mas, ainda em ambiente restrito a poucos usuários com capacidades técnicas altíssimas em relação à população como um todo. Acredito que neste ano, fintechs farão uso da infraestrutura montada pelo ecossistema de DeFi, os chamados “money legos”. O objetivo será entregar serviços com melhor experiência para usuários comuns, através de carteiras cripto/apps móveis. Será o início do uso do universo DeFi no mundo real.

Maurício Magaldi – o DeFi teve um verão (do hemisfério Norte) de muita especulação e acabou despontando como impulsionador de vários novos modelos de negócios e também de fraudes e escândalos. Se por ora se inspiram nas finanças tradicionais, também provocaram uma resposta de investidores institucionais e até mesmo de corporações. A exemplo da Microstrategy, que comprou cerca de 30 mil bitcoins em dezembro passado, ainda a título de compor seu balanço (HODL), outras corporações poderão seguir esse movimento.

Mas, além de compor seu balanço, poderão ancorar seus bitcoins a outros tipos de produtos financeiros descentralizados. DeFis combinados com o movimento das CBDCs poderão gerar oportunidades de proteção, investimento, tomada ou gestão de riscos para corporações além do mercado tradicional, numa fronteira cujas consequências ainda não são totalmente conhecidas e com a qual os reguladores terão que passar a se preocupar rapidamente. Aqui é onde enterprise blockchain e cripto tem o potencial de se confundir cada vez mais. 

Criptos & ESG
Liliane Tie espera ver mais políticas de ESG nas empresas do ecossistema blockchain.

Liliane Tie, líder da comunidade Women in Blockchain Brasil (WIB Brasil) – Em 2021, essa ‘bull run’ pelas criptos ainda vai continuar com DeFi. Já o que eu gostaria de ver acontecer é a pauta de ESG – depois da carta de 2020 de Larry Fink da BlackRock aos CEOs – ser mais amplamente debatida no mercado financeiro como um todo. Assim, naturalmente blockchain ganharia a visibilidade que merece como tecnologia para ajudar a resolver questões ambientais, sociais e de governança. E o que eu não gostaria de ver se repetir são relatos como os ocorridos na Coinbase (link), logo após o Black Lives Matter. Houve relatos de duas dezenas de funcionários negros que sofreram racismo.

Transformação digital

Fábio Nascimento, diretor associado da Accenture Interactive – Os desafios que diversos setores tiveram que superar por conta dos inesperados impactos do Covid-19, em 2020, devem manter protagonismo na pauta tecnológica das empresas e setores públicos em 2021. Quem não foi bem sucedido numa rápida adoção de Cloud Computing, com certeza acelerará seu movimento agora, e quem conseguiu se adaptar melhor, deve aprimorar a sua utilização, para aumentar suas vantagens competitivas.

Setores de bens de consumos, varejo, bancos e telecomunicações devem ser os que priorizarão estes investimentos. Porém, vejo um desafio considerável para o setor de educação, que terá um ano ainda mais desafiador, onde deverá colocar à prova o modelo à distância, em especial não impactando as crianças em início de alfabetização. Vejo que a adoção de Cloud irá para um segundo estágio, buscando mais valor do que apenas alocar workloads na nuvem, utilizando principalmente inteligência artificial, IoT e Ciência de Dados. Quanto ao Blockchain, acredito que ser um ano que teremos mais evolução na sua adoção, porém, acho que ainda precisamos evoluir muito para alavancar sua adoção em massa.

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