Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, inclusive na tecnologia

Na semana passada, tivemos mais alguns eventos reforçando o poderio exponencial das empresas de tecnologia. Vamos a alguns fatos: no trimestre em que o PIB dos Estados Unidos encolheu mais de 30%, as 5 grandes de tecnologia Apple, Amazon, Facebook, Microsoft e Google mostraram resultados extraordinários, muito acima do previsto.

A Amazon praticamente dobrou seu lucro comparado ao mesmo período do ano anterior. A Apple, por sua vez, retomou o posto de empresa aberta mais valiosa do mundo, ultrapassando simplesmente a Saudi Aramco, petroleira estatal da Arábia Saudita que controla as reservas e produção de petróleo nesse país. Não é impressionante que enquanto isso, no mesmo período, a economia norte americana caía 32,9%?

Essa valorização da tecnologia não é de agora. Se compararmos o desempenho nos últimos dez anos da Nasdaq, bolsa de valores americana especializada em tecnologia, com o índice Dow Jones, o índice de bolsa americana com todos os segmentos da economia, a discrepância é clara. Nesse período, o Dow Jones se valorizou aproximadamente 150%, enquanto a Nasdaq passou os 350% de valorização!

Mas, como diria o tio Ben: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”*.

Toda essa valorização das ações reflete a influência crescente que as empresas e suas tecnologias têm em nossa sociedade.

Em nossa experiência recente, ainda sob efeitos da pandemia, a tecnologia suportou bastante nossa sociedade em não parar. Já falei disso em artigo anterior, o isolamento social foi abrandado pela webconferência, compras em portais, delivery de comida, pagamentos digitais e sem contato, e por aí vai.

Mas todo esse poderio tem (ou deveria ter limites)? Será que além de impactos positivos, há impactos negativos ou grandes riscos advindos do uso massivo da tecnologia?

Bom, nessa mesma semana, os líderes da Amazon, Google, Facebook e Apple prestaram depoimento ao Senado americano. Há investigações sobre monopólio, abuso de poder e práticas antitruste. Antes disso, há toda uma controvérsia do papel das mídias sociais e plataformas de busca em nossa sociedade. Será que são ou foram tendenciosas? Será que influenciam a opinião pública em temas relevantes (um exemplo é a eficácia da hidroxicloroquina) removendo ou fazendo uma curadoria dos posts ou buscas? E o escândalo da Cambridge Analytica e a potencial interferência nas eleições americanas passadas?

Acredito que muita água ainda vai passar por baixo dessa ponte. E devemos, enquanto sociedade, acompanhar isso de perto.

Nem vou entrar no mérito da polarização política das redes no Brasil, escritório do ódio, projeto de lei das fake news etc. Esses temas merecem reflexões maiores que não caberiam aqui. Mas vale a reflexão do papel das tecnologias e seus impactos no cotidiano das pessoas. Há uma linha tênue entre a comodidade e capacitação que nos prestam e o abuso de influência.

Essa preocupação só tende a aumentar com o avanço tecnológico em várias frentes. Por exemplo, na mobilidade urbana, os veículos guiados por computação, até onde podem ou devem chegar? No reconhecimento facial, até onde ele facilita ações de segurança e até onde não invade nossas privacidades ou são usados de forma abusiva? Na biotecnologia, até onde vão os limites éticos relacionados à manipulação da vida?

Na segunda metade do século XX, o grande temor do mundo era a hecatombe nuclear, com duas potências claras tendo capacidade de destruir o planeta múltiplas vezes. Eu diria que atualmente, o mundo deveria ter duas grandes preocupações: os efeitos acumulados da exploração dos recursos naturais em nosso planeta – que é bem extenso e não vou entrar nessa discussão aqui – e os impactos do uso errado ou abusivo da tecnologia em suas mais variadas nuances. As guerras do século XXI serão em dados, tanto nas empresas, como nas nações.

E se vocês acham que isso é coisa do futuro, basta acompanhar os recentes ataques cibernéticos entre Irã e Israel. Sem enviarem nenhuma tropa ao outro país, nesses últimos meses têm se enfrentado virtualmente tentando entrar em sistemas vitais um do outro e em alguns casos, conseguindo impactar fisicamente instalações importantes.

Num desses casos, Israel alegou que o Irã tentou invadir sua infraestrutura de água impactando basicamente civis. Aparentemente, revidou atacando os sistemas de um importante terminal portuário iraniano.

O futuro do livro 1984 de George Orwell ou do filme Jogos de Guerra parece ter chegado e cada vez mais temos de nos relembrar da frase do tio Ben.

 * Essa frase foi alavancada ao imaginário dos quadrinhos quando o tio Ben, Benjamin Parker, a disse a seu sobrinho Peter Parker. E o influenciou para usar seus poderes recém adquiridos para o bem ao se tornar o Homem-Aranha. 

*Stephan Krajcer é fundador da fintech Cuore, no Canadá. Depois de trabalhar em bancos, decidiu empreender, desenvolvendo soluções para setores como o financeiro.

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Centralidade no cliente não é ter app bonitinho. O back office tem que ser parte da solução

Nos últimos anos, tenho visto muitos negócios grandes se posicionando em ter centralidade no cliente. Ou seja, em vez da visão tradicional de se construir todo um negócio e sua estrutura em volta de um produto, a visão de centralidade do cliente muda esse conceito, passando a criar-se negócio e se estabelecer toda a estrutura em torno do cliente, suas necessidades e vontades.

Essa abordagem foi um dos grandes responsáveis pelo boom tecnológico do Vale do Silício, tendo seu ecossistema bebido da fonte da escola de design de Stanford, IDEO, dentre outras fontes que deram forma ao design thinking nas décadas de 90 e começo dos anos 2000.

Afinal, no manual do “startupeiro” e dos venture capitalists, algumas das peças-chave incluem o problema que sua startup resolve e quem tem esse problema (persona). Para daí partir para o tamanho da oportunidade, mercado endereçável e por aí vai.

Como esse modelo tem experimentado sucesso incontestável por já algumas décadas, muitos negócios se renderam a ele e buscam o Santo Graal da centralidade do cliente. Tarefa difícil para quem começa já com essa filosofia, mais difícil ainda, diria hercúlea, para quem não nasceu assim.

De minhas observações, aprendi algumas coisas:

No começo, muita gente achou que centralidade no cliente era fazer um app bacana, ouvindo o cliente na usabilidade. Isso é importante, mas não suficiente. Muitas iniciativas ficaram no meio do caminho quando o app trouxe tráfego, mas o back office não deu vazão ou não estava preparado a fazer as tarefas de forma diferente.

Daí a importância de se estruturar toda a máquina para a jornada do cliente, não apenas a entrada. Tem havido crescente interesse em empresas e startups facilitadoras da transformação de back office. Isso não só resolve o problema imediato da experiência do cliente do começo ao fim, mas também dá escala e redução de custos. Stripe e Plaid são excelentes exemplos de fintechs de infraestrutura que facilitam os back office de um monte de empresas. São unicórnios. Inclusive, a Plaid recentemente foi adquirida pela Visa.

Em geral, o ciclo de venda de uma fintech de back-office B2B é mais difícil. Seus clientes potenciais ou estão mais preocupados com o front ou tem tanto dever de casa no back office que torna tudo mais lento para se encaixar ao legado. Ah, e tem o fator organizacional também. Há casos em que a empresa cliente genuinamente quer trabalhar com startups para melhorar seus processos, mas internamente ainda não evoluíram suas estruturas e cultura para tal.

Acredito bastante que o reforço dos processos tem sim impacto no usuário final, muito além da melhoria apenas nos indicadores operacionais.

Uma de minhas iniciativas, por exemplo, é uma plataforma de voto eletrônico. E nos esforçamos em gerar os benefícios em todos os espectros, conciliando o usuário final (que vota) e os processos das instituições que nos contratam (que organiza a votação). A ideia é acrescentar a experiência do usuário e seu engajamento aos tradicionais indicadores operacionais de custos, acurácia e tempo de processamento.

Atualmente vejo grandes oportunidades para fintechs de infraestrutura, em segmentos da moda como pagamentos, open banking, crédito, investimentos, inteligência artificial e criptoativos e outros como documentação, cartórios e registros, integração de informações, automação de processo (RPA), gestão de times, workflows financeiros e seguros.

Há ainda algumas barreiras, mas sem dúvida há grandes oportunidades para novos modelos de negócios que podem ser criados ou suportados pelas fintechs de infraestrutura, quer seja atuando independentemente ou em parcerias com instituições estabelecidas.

Links de interesse:

https://dschool.stanford.edu/

https://www.ideo.com/

*Stephan Krajcer é fundador da fintech Cuore, no Canadá. Depois de trabalhar em bancos, decidiu empreender, desenvolvendo soluções para setores como o financeiro.

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Em 2020, mandamos a SpaceX ao espaço, mas ainda matamos George Floyds.

Em 2020, mandamos a SpaceX ao espaço, mas ainda matamos George Floyd(s)

SpaceX mandando astronauta para a estação espacial internacional; o Covid-19 (ele, de novo) e a morte de George Floyd. Misturando os assuntos das últimas semanas, a gente acha uma grande correlação entre eles. Quer ver?

O assassinato de George Floyd foi o estopim de uma onda de protestos varrendo os Estados Unidos (EUA) e se propagando por outros países. As imagens mostram claramente que a abordagem policial foi completamente enviesada, desumana e inconcebível. Racismo em sua essência.

Não é razoável que a cor da pele, local de nascimento, gênero, opção sexual ou crença religiosa seja motivo para tratamento diferente. Foi assim desde que o mundo é mundo. É assim em pleno século XXI. Conseguimos tantos avanços tecnológicos, mas ainda precisamos nos esforçar para lidar bem com nosso semelhante e sermos uma sociedade mais inclusiva, o que inclui também a área de tecnologia, onde claramente há um desequilíbrio de raças.

Obviamente há todo um histórico de racismo. O modus operandi da escravidão, promovida pelos europeus, continuou operando na América mesmo depois da independência. Um histórico tão carregado, que apesar de direitos civis iguais pelas leis, ainda não há igualdade para todos.

Além de toda a questão política e social, ainda há a humana: o preconceito implícito, em que o inconsciente das pessoas tenta simplificar o entendimento de sua realidade, gerando pré-conceitos para rápida – e muitas vezes erroneamente – tentar entender os fatos ao redor. Esse “entendimento” gera um conforto e também preconceitos e esteriótipos, o que deve ser combatido.

Não vou me estender sobre as origens e motivos do racismo, um problema que precisa ser encarado de frente e resolvido. Mas deixo 2 links no final deste artigo de ícones que admiro da NBA, a liga norte-americana de basquete. Um é do Kareem Abdul-Jabbar, lenda como jogador, e o outro é de Masai Ujiri, presidente do Toronto Raptors e responsável pelo atual título da NBA de seu time.

Covid e racismo

Junte-se a esse contexto as restrições impostas pelo Covid-19, que colocaram a situação das famílias no limite. E nas famílias com menos oportunidades, boa parte delas negras, o limite é muito mais restritivo. Nos EUA, passou-se o número de 40 milhões de desempregados, com taxa de desemprego de 14,7% ao fim de abril. Nas populações negras e hispânicas esses percentuais foram piores: 16,7% e 18,9%, respectivamente.

Nesse caldeirão de desespero, a morte chocante de George Floyd foi o estopim para demonstrar as inequalidades e o racismo que foram severamente catalisados pelo Covid-19. Para piorar a cena política americana, seu presidente jogou mais lenha na fogueira (qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência…)

Dragon Crew

E eis que no meio desse mar de notícias ruins, surge a Dragon Crew e seu envio exitoso de dois astronautas americanos para a estação espacial internacional. A mídia deu bastante atenção a esse fato, especialmente a americana. Desde 2011, a maior potência mundial e espacial tinha que  vexatoriamente pedir uma “carona” para a agência espacial russa, arqui-inimiga da guerra-fria, para levar seus astronautas à estação espacial.

Se a mídia mundial destacou essa última informação acerca do lançamento, e a americana o fez com um tom patriótico, destacaria outras 2 características muito mais relevantes.

A primeira grande característica é que o foguete Falcon 9, que venceu a gravidade terrestre para colocar os astronautas em órbita, voltou à Terra, num pouso milimétrico. Isso mesmo, estamos acostumados a ver foguetes historicamente colocarem tripulações em órbita para em seguida virarem lixo espacial. O Falcon 9, como boa parte dos foguetes da SpaceX, não só retornou à Terra, como será reutilizado em futuras missões. Que bela forma de aplicação da tecnologia: mais barata e com menos consumo de recurso.

A segunda grande característica da missão é que pela primeira vez uma empresa privada levou gente para fora do nosso planeta. Reparem: uma startup com menos de 20 anos conseguiu esse feito com segurança, menor custo e menor uso de recursos. Acompanho a Spacex há algum tempo e vi que o sucesso não veio repentinamente. Foram feitos vários testes, missões não tripuladas e foguetes explodidos no meio do caminho.

O maior simbolismo para mim é o do acesso às tecnologias revolucionárias. Esse acesso não está mais restrito aos programas militares, agências nacionais e universidades de ponta. Pessoas comuns estão fazendo coisas extraordinárias.

E como juntar as histórias de Elon Musk (fundador da Spacex) e George Floyd? Personagens tão distintos, mas que orbitaram sentimentos tão antagônicos simultaneamente em nós recentemente.

A realização de Musk nos fez sentir sucesso, orgulho, euforia. O trágico assassinato do George nos fez sentir raiva, indignação, consternação. Acredito que precisaremos usar tudo isso para de fato melhorarmos.

Musk chegou até o espaço porque Katherine Johnson, junto com Mary Jackson e Dorothy Vaughan, as três matemáticas afro-americanas que ficaram conhecidas como “computadores de saia”, trabalharam nos programas espaciais Redstone, Mercury e Apollo para a Nasa.

Isso tudo lá na década de 60, em plena era de segregação racial nos EUA. Elas trabalhavam na divisão segregada de computadores da área oeste da Nasa. Mesmo esse absurdo de segregação não foi capaz de tirar a confiança de John Glenn, reconhecido astronauta branco da Apollo 11, em fazer questão de ouvir Katherine mostrar seus cálculos e confiar neles.

Naquela época, o cálculo era quase todo manual, o poder computacional era ínfimo comparado aos dias atuais. Hoje, a tecnologia está aí e acessível. As inequalidades e o racismo infelizmente também continuam aí e visíveis. Se o viés implícito muitas vezes é inconsciente, o menor acesso dos negros às oportunidades, não é.

Do que adianta aula virtual para quem não tem microcomputador e nem acesso à internet? Que tal lockdown sem água tratada nem esgoto? Se o acesso à infra-estrutura sempre foi importante, imagina nos tempo de Covid? E no pós-Covid?

Cada vez mais os empregos no futuro se deslocarão para setores de tecnologia. Mesmo os tradicionais terão uma pitada maior de tecnologia, tipo home-office – acho que a essa altura muitos já entendem isso, certo? E estes empregos cada vez mais se distanciarão dos empregos estritamente manuais, o que aumentará cada vez mais o abismo de renda e oportunidades entre as pessoas.

Dados nos Estados Unidos mostram que 20% dos formados em ciência da computação nos são negro e latinos. Mas eles são apenas 6% dos indústria de tecnologia.

O caminho deverá passar por uma universalização do acesso a infra-estrutura e tecnologia. Isso de fato dará condições a populações que vêm sofrendo racismo sistêmico a se colocarem de melhor forma no novo mercado de trabalho que se desenha. E de empreender. Afinal de contas, empreendedorismo e criatividade já são marcas dessas populações que têm que driblar a falta de recursos e oportunidade com muito “jogo de cintura” e com os mais variados negócios próprios. Imaginem todo esse potencial, esse diamante bruto de criatividade, com os devidos recursos?

O próprio setor de tecnologia deveria repensar seu papel. Não só no acesso, mas na representatividade. Quantos venture capitalists, fundadores, executivos do setor são negros, mulheres e nordestinos?

Acesso e combate ao viés implícito com diretrizes de acesso, oportunidades de trabalho, fundos específicos para populações menos favorecidas empreenderem podem ser bons caminhos.

Além disso, foi muito legal ver a união da sociedade civil para atacar a pandemia. Mais do que doações em dinheiro, doações em máscaras, luvas, equipamentos, seria mais legal ainda estender essa boa vontade, por exemplo, em doações de computadores e acesso à internet para as crianças que não têm condições. Algo que seria usado para além da pandemia. Uma máscara salva a vida no pico da pandemia. Um computador pode transformar uma vida para sempre.

Artigo de Kareem Abdul-Jabbar no LA Times: https://www.latimes.com/opinion/story/2020-05-30/dont-understand-the-protests-what-youre-seeing-is-people-pushed-to-the-edge

Artigo de Kareem Masai Ujiri no The Globe and Mail: https://www.theglobeandmail.com/opinion/article-masai-ujiri-to-overcome-racism-we-need-to-be-more-than-merely-good/

Link de artigo muito sucinto com dados de desemprego dos EUA em tempos de Covid: https://www.theguardian.com/business/2020/may/28/jobless-america-unemployment-coronavirus-in-figures

https://www.theguardian.com/business/2020/may/28/jobless-america-unemployment-coronavirus-in-figures

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

No novo normal, quase tudo terá versão digital melhorada, da educação escolar ao dinheiro

A virtualização massificada das interações humanas que a atual pandemia vai nos deixar de legado foi o tema de meu artigo anterior – publicado em 25/05. Obviamente, as relações não serão apenas virtuais quando todas as restrições cessarem, mas a experimentação e a perda do medo em operar virtualmente trarão mais amplitude e profundidade no uso das tecnologias.

Um dos subprodutos dessa nova realidade é o que chamo de Omni-content (omni, tudo em latim). Nada novo, mas que será amplificado.

Se para reuniões se falou muito no Zoom, sua prima para propagação de conteúdo foi a live. Live para isso, live para aquilo, uma enxurrada de lives. Aqui foi outra explosão. Pessoas se reúnem virtualmente não só para trabalho, mas também para entretenimento, conteúdo e educação. Virtualizou-se quase tudo.

Se mais de 3 milhões de espectadores assistiram a live de Marília Mendonça no Youtube, mais de 12 milhões de pessoas viram a performance virtual de Travis Scott, um rapper americano, dentro do Fortnite, um dos games mais famosos atualmente. Imaginem os novos modelos de negócio que evoluirão… Imaginem acrescentar realidade virtual a isso tudo…

Chuva de lives

A chuva de lives nessa quantidade talvez não seja sustentável. Mas com certeza irá nos fazer repensar se um evento deve ser físico. Não só de entretenimento, mas de discussão de temas, como seminários e conferências.

Lives de conteúdo estão sendo muito utilizadas. Em geral, são gratuitas. O que é bom, pois traz mais audiência e dá acesso a conteúdos e discussões que muitas pessoas antes não teriam, quer seja pela questão financeira, quer seja pela questão física – a de rearranjos de escritórios, home office, onde empresas se estabelecerão e o impacto disso na dinâmica das cidades é assunto vasto para outra discussão.

A indústria de entretenimento, eventos, feiras de negócio serão chacoalhadas com a viabilidade desses novos formatos e como eles irão conviver com os mais tradicionais. Sem dúvida, essas indústrias precisarão rever seu modelo de negócio.

No banco da escola?

Daí chegamos a uma outra conjunção de extrema relevância: conteúdo e interação humana na educação. E esse é um campo fértil, não só na educação profissional, mas principalmente na educação escolar. Ainda são usados métodos do século passado na educação escolar.

Vivemos uma oportunidade única para evoluir o modelo educacional, aliando o que a tecnologia tem para agregar. Mas na medida correta, pois se por um lado o que se vive atualmente de aulas virtuais não é saudável no longo prazo, por outro há uma grande constatação de que a educação precisa evoluir.

Na maioria dos casos, simplesmente se jogou conteúdo de sala de aula num portal. Isso torna o processo oneroso para todos: alunos, professores e pais de alunos. Realmente espero que educadores, escolas e professores agarrem essa oportunidade e deem uma turbinada de fato em metodologia, conteúdo e ferramentas, em vez de usar a tecnologia para fazer uma gambiarra com o material do século passado para tapar a necessidade que a pandemia nos trouxe.

E quase integre isso a uma verdadeira experiência física, em que se valorize a proximidade e riqueza nas trocas entre alunos, professores, orientadores, dentre outros.

O ensino a distância (EAD), que teve grande crescimento nos últimos anos, deve reforçar sua relevância nos próximos anos. Seu crescimento será pautado por modelos de negócio, quão integrado estará, qualidade no conteúdo, experiência dos alunos e como massificar, dadas as questões de acesso a infraestrutura.

No mundo omni content, empresas terão de rever modelos de negócio

Como já vinha acontecendo no varejo com o conceito de omni channel (integração dos canais físicos e online), teremos o omni content não só na educação, mas em todas as plataformas de conteúdo e entretenimento.

Dado que o digital tem abocanhado um espaço relevante das interações físicas, haverá a necessidade de se pensar numa melhor intersecção de meios. É verdade que há várias iniciativas, inclusive antes da pandemia, mas isso precisará se intensificar.

O distanciamento social também reforçou transações sem contato.

Voltando para as lives de artistas, outra coisa que me chamou a atenção foram os QR Codes no canto da tela. Talvez seja um excelente indicativo da massificação no uso de novos meios de pagamento.

As transações em geral, e os meios de pagamentos dentre eles, devem ganhar um elemento de desburocratização, já que se perdeu o medo “na marra”. Alguém sentiu falta de não ter firma reconhecida em documento? Ou melhor, documentos assinados digitalmente, alguma reclamação? Esse movimento já vinha de antes, mas ainda tímido. Acelerou. E espero que seja mantido e incorporado a esse tal de novo normal.

Papel para quê?

Voltando aos pagamentos, os instantâneos já estavam na agenda. Prova disso eram que o projeto PIX do Banco Central já estava “no forno” e previsto para lançamento em novembro. A proliferação daquelas plaquetas com QR code no pequeno comércio crescendo exponencialmente assim como a profusão de wallets. Wallets das mais variadas: de varejistas, patinete, bancão, big tech, cripto…

A pandemia forçou um uso cada vez maior de pagamentos sem contato, relegando as notas físicas, que já vinham perdendo espaço, a perder ainda mais força. Mesmo o cartão de crédito ou débito teve um reforço para transações por aproximação, evitando que consumidores tenham que tocar nos POS, as maquininhas. Já perdemos o hábito de usar cheques, estamos perdendo o hábito das notas, perderemos no futuro hábito de carregar cartões (por menores e leves que sejam).

Terreno fértil para uma infra-estrutura mais moderna, não só o PIX, mas imaginem virtualizar as moedas nacionais, já que as notas físicas perdem relevância. Nos últimos anos, o debate das CBDCs (sigla em inglês para moedas digitais de bancos centrais), vem evoluindo e o momento atual reforça a relevância. Uma idéia que parecia maluca há alguns anos atrás, parece bastante razoável atualmente… Para quê o apego ao papel moeda?

Vale lembrar que isso já ocorreu, por exemplo, na indústria da informação impressa. Jornais e revistas consistentemente diminuindo circulação de seus veículos impressos, com o avanço e popularização de novas mídias. Portanto, hoje parece bem razoável que esse movimento chegue ao dinheiro também.

Houve um choque de costumes, perdeu-se o medo do virtual e há incentivos em vários participantes dessa indústria de se ganhar eficiência, além do medo de novos formatos ganharem força. Transações mais baratas, rápidas e eficientes. Menos impressão de papel moeda, menos logística e segurança para armazenamento das notas, ou seja, a tecnologia trazendo eficiência para as transações financeiras.

Carteiras que não ficam no bolso

E sobre as cripto moedas? É importante separar o joio do trigo. Sem o Bitcoin, não estaríamos discutindo CBDC, que são moedas tokenizadas por bancos centrais e distribuídas em blockchain, em vez de papel. As cripto foram fundamentais também na forma que as wallets de cripto evoluíram e influenciaram as de moedas fiduciárias, as fiat. Também deverão ganhar relevância e mais adoção, mas as pessoas precisam perder o medo.

Isso significa diminuição de fraudes, uma experiência de usuário menos técnica e mais simples para o usuário comum, além da diminuição de volatilidade para um uso mais corriqueiro (desassociando do investimento que beira especulativo). CBDC’s e stablecoins (criptomoedas atreladas a moedas ou cesta de moedas nacionais que mitigam a volatilidade) serão elementos fundamentais para uma nova primavera cripto.  Sem contar o potencial que projetos como a Libra (cripto moeda do Facebook) podem gerar quando (e por que não se) forem lançados.

Independente de quais sejam os modelos de negócio e tecnologia vencedoras, pagamentos instantâneos e sem contato vieram par ficar e o distanciamento social apenas acelera o ritmo de adoção.

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.

O hoje não é o novo normal. O novo ainda vai chegar e será nas interações entre pessoas

Esse primeiro semestre de 2020 está sendo o pico (assim espero) de uma severa pandemia e depressão econômica. Uma mudança radical nos hábitos de pessoas e empresas foi imposta por conta do medo de contágio em si e de políticas públicas como quarentena e lockdown. Deste choque na rotina das pessoas muitos profetizam sobre o novo normal, novos hábitos que as sociedades incorporarão de agora em diante. Apesar de haver elementos de novo normal, o que se vive hoje não será o novo normal. Haverá ainda uma fase de transição, que a duração dependerá de uma série de fatores, para lentamente desaguar em algo mais perene. E se isso tiver mudanças representativas ao que se vivia antes da pandemia, e acredito que tais mudanças apareçam, aí sim teremos…. o novo normal.

O home office, por exemplo, não foi e não será o que vivemos hoje. Para começar, é home tudo. Home office, home school, home mercado, home etc. Todos os membros da família e, às vezes, alguns agregados, compartilham do mesmo ambiente, cada pessoa com suas necessidades. A não ser que a Terra vire um planeta tão inóspito como Marte, esse não será o novo normal. Porém, podemos pegar vários elementos que foram catapultados pela atual crise e projetar como vão se inserir de forma mais significativa na sociedade e eventualmente até catalisar mudanças e evoluções.

Fato: iremos experimentar uma virtualização massificada das interações humanas.

Uma das grandes vedetes, a web conferência em que o Zoom foi seu mais famoso representante, já existia há bons anos. Porém, sempre relegado a um papel secundário nos ambientes de trabalho mais tradicionais. Pois não é que estes foram forçados a usar? Perdeu-se o medo frente a necessidade. E não é que funciona? Esta será uma ferramenta cada vez mais usada para ganho de produtividade, com reuniões mais objetivas e sem desperdício de traslados para outros polos da empresa, clientes, inclusive evitando viagens mais longas (o planeta agradece), claramente substituíveis por uma reunião virtual. E imagina isso se estendendo para além da empresa, se aprofundando nas relações com clientes, fornecedores e projetos com vários participantes.

Free-lancers e outros profissionais liberais, na média, já estão mais acostumados a trabalhar de forma mais remota, quer seja em marketplaces de oferta de serviços, quer seja em terceirizações de funções como desenvolvimento de software, comunicação, webdesign, entre outros. E esse tipo de relação virtual só crescia, muito antes de qualquer indício de pandemia. O trabalho remoto, que já existia antes da pandemia, tende a se intensificar e com ele novas oportunidades e riscos inerentes a essa forma de trabalho, especialmente pela experimentação e potencial adoção por empresas que antes não o consideravam seriamente.

Zoom nas assembleias

Outro grande serviço que as reuniões virtuais podem prestar é em assembleias deliberativas. Imagina assembléia de condomínio virtual com voto eletrônico substituindo aquelas assembleias de condomínio chatas e intermináveis… Clubes, Igrejas, comitês, associação de classes, qualquer organização. Isso pode ser aplicado também a assembleias de acionistas (além de outros títulos financeiros) e gerar uma maior participação e engajamento – diga-se de passagem, Warren Buffett brilhou com sua assembleia geral anual da Berkshire Hathaway inteiramente digital.

Daqui para frente, essa tendência forçará ajustes a seu redor: melhoria e maior acesso na infraestrutura de internet, maior cuidado com segurança de dados, adaptação de legislação e uma nova “etiqueta” de reuniões virtuais. Sobre a infraestrutura, acredito que dispensa comentários no Brasil. Reuniões virtuais funcionam super bem para quem tem computador e internet relativamente rápida e estável. Pois ficar em conferência com o áudio picotado, ou até o audio dessincronizado com a imagem, tipo as dublagens dos seriados japoneses da década de 80, é bastante contraproducente e cansativo.

Sobre a segurança de dados, a etiqueta virtual deve ser ainda mais rígida e as plataformas mais seguras. Muitas reunião virtuais recentes têm sido invadidas, tem até novo termo cunhado para isso: zoombombing. Para uma adoção maior, especialmente no universo empresarial, esse tipo de ameaça tem que ser menos provável de ocorrer (100% seguro talvez seja utópico). Sobre legislação, seria o caso de ajustar (ou manter os ajustes feitos para a pandemia) o que for necessário para dar conforto jurídico sobre reuniões virtuais. É o caso, por exemplo, de se manter a possibilidade de assembleias virtuais sem obrigatoriamente ter o aspecto físico. Ou os limites de responsabilidades quando se tratarem informações sigilosas. Com a dose certa, os ajustes podem atacar a burocracia, os custos decorrentes dela e ao mesmo tempo dar segurança jurídica.

Outros elementos que acredito devam ganhar força são a omni content, transações sem contato, telemedicina, uma completa revisão da logística, novas práticas de transporte público e revisão da política de produção mundial de bens com viés de gestão de risco dentre outras tendências. Estes serão assuntos para outros artigos dessa série

Novo normal após o 11/09

Apenas como contra-ponto, por mais digital que o mundo caminhe, a pandemia também trouxe a valorização dos momentos de presença física. Visitar a familia, sair com amigos, ir à escola e praticar esportes. Ou vocês acham que quando abrandar a pandemia, ninguém mais vai à padaria tomar uma média com pão na chapa? Mesmo que serviços de delivery entreguem comida, há toda uma questão de experiência, ritual, que será cada vez mais valorizada. Até mesmo porque, as coisas não voltarão a ser como eram de uma vez só. Tudo será faseado, quer seja por questões impostas por governantes, quer seja por medo da população. Mas seríamos ingênuos em acreditar que as interações presenciais irão cessar. Elas continuarão. Com restrições gradativamente menores. Assistir à final de um evento esportivo no estádio, um show de seu artista favorito, uma peça de teatro, tomar uma cerveja com amigos com certeza não desaparecerão. Além disso, dadas todas as restrições atuais acredito que serão encaradas de forma mais especial.

Talvez a pergunta aqui é como será a abertura e como as condições impostas impactarão a experiência. Tomemos como exemplo os eventos de 11 de Setembro de 2001, com a série de atentados terroristas nos Estados Unidos. Vidas foram perdidas, cenas chocantes presenciadas por bilhões de pessoas. Durante um período transitório, houve grande medo em pegar avião e até uma série de restrições para viagens por esse meio. Mas daí, o novo normal não foi deixar de viajar, e sim o uso de tecnologia e procedimentos mais rigorosos no embarque das pessoas. Sem dúvida o novo processo comprometeu a experiência dos usuários – tira sapato, passarela raio-x, entra em outra fila etc.) mas foi a forma como as viagens foram retomadas. A grande pergunta é como as interações presenciais irão ser retomadas, com quais limitações, por quanto tempo e qual será o papel da tecnologia nesse… novo normal.

Stephan Krajcer trabalhou por mais de 15 anos no setor bancário e em 2018 fundou a Cuore, startup baseada no Canadá que desenvolve soluções tecnológicas de digitalização e automação para mercado financeiro, além de outras iniciativas com uso de tecnologias emergentes como AI e blockchain.