Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Terceiro halving do bitcoin se concretiza; criptomoeda opera em baixa

O tão esperado terceiro halving do bitcoin aconteceu nesta segunda-feira (11), às 16h25, quando o bloco 630 mil foi completado e imediatamente a recompensa dos mineradores da criptomoeda caiu de 12,5 bitcoins por bloco para 6,25 bitcoins por bloco.

Às 18h30, o bitcoin era cotado a US$ 8.630 (cerca de R$ 50 mil), queda de 1% nas últimas 24 horas. Para brasileiros, o aumento da cotação do dólar neste ano ajudou muito e fez a cotação em reais subir cerca de 70%.

É incerto o que vai acontecer com o preço da criptomoeda. Há quem diga que o valor não terá grande variação, porque já teve alta neste ano com mineradores e investidores se antecipando ao halving. Há também quem diga que agora o preço tem tudo para explodir, dada a maior escassez da moeda.

A recompensa é dada a quem coloca seu computador para validar uma transação na rede. Com isso, formam-se blocos. É uma forma de emissão da criptomoeda, como se um governo emitisse moeda. Uma vez que a recompensa diminui, menos criptomoedas estarão disponíveis e os mineradores podem também ter menos ânimo de deixarem seus computadores gastando (muita) energia para validar transações.

O enigmático personagem Satoshi Nakamoto, desde que criou a rede bitcoin, estabeleceu que a cada 210 mil blocos formados haveria um halving. Por isso, a recompensa que era de 50 bitcoins no começo é hoje de 6,25 bitcoins.

Fale mal (Goldman Sachs), mas fale de mim (Bitcoin)

A expectativa era de uma história de amor com final feliz, mas foi a briga da semana no mundo cripto. Quando o Goldman Sachs, um dos maiores bancos do mundo, chamou um call com investidores para falar da economia dos Estados Unidos (EUA) e suas implicações em inflação, ouro e bitcoin, muita gente acreditou que sairia dali uma recomendação de compra da moeda digital. Que nada. Foi um desfile de críticas à criação do incógnito Satoshi Nakamoto.

Na sequência, houve outro desfile de críticas do mundo cripto ao banco em sites e redes sociais, incluindo acusações de que a recomendação foi feita porque bitcoin não está no portfolio do banco, portanto o GS não ganha com sua negociação, de que o banco não sabe fazer análise e de que o GS não tem moral para falar que bitcoin é coisa de criminoso.  

Mas afinal, o que aconteceu? Temor do banco de perder clientes por conta da alta da moeda ou análise com fundamento econômico?

Cronologicamente falando, o otimismo com o call veio do forte entusiasmo com bitcoin que o Goldman já teve. Nos idos de 2017 e início de 2018, quando o preço subia aos céus, teve até relatório de recomendação dizendo que a moeda era dinheiro. O entusiasmo acabou quando a cotação embicou para baixo.

Outros fatos podem ter ajudado, como a notícia de que em 2019 o valor dos ativos sob gestão de fundos de hedge focados em criptos dobrou para mais de US$ 2 bilhões, segundo a PWC e a Elwood Asset Management. Além disso, Paul Tudor, o bilionário investidor e administrador de fundos de hedge disse que já tem quase 2% de seus ativos em bitcoin. Pode ter contado até a decisão do JP Morgan de aceitar como clientes duas exchanges – o JP está em blockchain com a plataforma Quorum para o mercado financeiro, mas desviava da demanda do mercado cripto.

A apresentação do GS usada no call defende que bitcoin não gera fluxo de caixa, como os títulos conseguem, e que não é classe de ativos, o que muita gente contesta com base em decisões de órgãos reguladores nos Estados Unidos. Também não gera benefícios porque é instável e tem uma volatilidade histórica de 76%. Para completar, disse o Goldman Sachs, não há evidência de que é um bom hedge, ou proteção, contra a inflação. Este último é que parece ser o ponto central.

O economista Gustavo Cunha, estudioso de criptoativos e moedas digitais de governos, as CBDCs, diz que há uma linha de pensamento hoje de que neste mundo com pandemia, os ativos são os mesmos, mas há mais dinheiro disponível para investimento por dois motivos: as políticas monetárias dos governos pelo mundo, que colocaram recursos nas economias para reativá-las, e porque quem tem dinheiro sobrando não necessariamente vai consumir. Portanto, vai ter de investir, o que deve gerar um aumento do valor dos ativos, uma inflação. “É uma discussão muito em voga no setor econômico”, diz ele.

Ouro e bitcoin são ativos limitados e escassos e por isso, o preço poderia subir mais. Nakamoto avisou que liberaria 21 milhões de bitcons e hoje cerca de 18 milhões estão em circulação. Poderia haver uma corrida à moeda. Até houve recentemente, em boa parte por conta do halving, ou divisão pela metade da recompensa na mineração da cripto, o incentivo usado para a colocação de mais delas na rede.

Mas o que o GS disse é que ouro e bitcoin não mostram retornos no longo prazo que compensam os riscos. “Acreditamos que um ativo cuja valorização é primariamente dependente de alguém querer pagar um preço mais alto por ele, não é um investimento adequado para nossos clientes”, apesar dos movimentos de alta da moeda. E completou – praticamente respondendo a quem fala sobre os movimentos dos fundos de hedge, que buscam ganhos na volatilidade -, que “esse olhar não é um racional viável de investimento”.

Seria esse um sinal de temor do GS de que pode perder ou já perdeu clientes para bitcoin, moeda que está num mercado hoje (29) avaliado em US$ 262 bilhões segundo o CoinMarketCap? Cunha acha que não. E será que os movimentos do JP e dos hedges pode ser um indício de que Wall Street, coração do mercado financeiro global, vai entrar no mundo cripto?

“Ainda não. E não dá para falar se vão entrar algum dia, depende muito do uso da moeda no futuro”, diz ele. Bitcoin tem 11 anos e como meio de pagamento não se consolidou, por questões como a regulatória e experiência do usuário, que não é simples e requer muita adaptação, completou.

Fato é que mesmo falando mal, o Goldman Sachs falou da moeda e para ninguém menos do que seus investidores e num call. E só isso já gerou um buzz e certamente curiosidade e pesquisa sobre o assunto. É a máxima do fale mal, mas fale de mim.