Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Startup brasileira Fohat inicia projeto em energia no Chile

A startup paranaense Fohat, que trabalha com soluções tecnológicas para o setor de energia, está iniciando neste mês mais um projeto internacional com blockchain. Além de já atuar num projeto na Austrália, agora a empresa está desenvolvendo um sistema para a operação chilena da Acciona, operadora espanhola de energia renovável.

A empresa de inovação foi uma das 8 escolhidas num desafio lançado pela Acciona para que fossem apresentadas soluções que resolvessem diferentes problemas. A solução evita apagões, disse ao Blocknews Renan Schepanski, co-fundador e diretor de Vendas e Marketing da Fohat, que foi fundada em 2017.

No Chile, a empresa vai desenvolver um sistema de controle de microgrid para atendimento do programa de resposta de demanda. Isso significa implantar uma microrede (microgrid) de fontes de energia distribuída que pode operar de forma independente da grade de energia principal. Se a rede principal estiver muito carregada, com oscilações, o operador pode desconectar uma ou mais fábricas, por exemplo, que passam a operar de forma independente com seus microgrids até a rede voltar a se estabilizar.

“É melhor pagar pela desconexão temporária de uma indústria da rede do que ter um apagão, que custa mais caro”, completou Schepanski.

Neste caso, blockchain será usada para a assinatura e gerenciamento dos contratos do chamado programa de resposta de demanda. E isso está inserido em um market place para compra e venda de energia.

A Fohat usa em seus projetos a plataforma blockchain da Energy Web Foundation (EWF).  A solução está associada a outras tecnologias, como blockchain, big data, machine learning e Jade. Com isso, o operador consegue controlar todo o sistema e acionar o desligamento e retorno de um cliente à rede principal de forma mais eficiente e rápida.

A expectativa é de que o piloto comece a rodar em seis meses. A Acciona está definindo qual indústria será parte dele. O valor do projeto ainda não foi revelado.

Austrália e Brasil

A Fohat tem mais dois projetos em andamento e quatro em fase de aprovação. Dos projetos em andamento, um é o da prefeitura de Melbourne, na Austrália. A empresa de inovação foi uma das duas escolhidas numa competição com 650 candidatos.

A startup está participando da modernização do Queen Victoria Market. Sua solução permite geração e armazenamento de energia elétrica para tornar o mercado autossuficiente. Na prática, painéis solares produzem energia durante o dia, o excedente pode ser vendido pelo próprio mercado, já que a comercialização de energia na Austrália é livre (peer to peer). À noite, o Queen Victoria Market compra o que precisa na rede.

Esse sistema gera uma economia de 40% de consumo de energia da rede. O impacto na conta depende do preço da energia comprada, já que é variável conforme dia e horário. “O plano é o mercado gerar 50% do que precisa e comprar os 50% restantes. Isso é autossuficiência, que é muito mais barata do que o mercado ser autônomo”, diz Schepanski.

Nesse caso, blockchain é usado nos contratos de compra e venda de energia. O valor do projeto não pode ser revelado, segundo o executivo. A Fohat já entregou a análise de viabilidade técnica e econômica do projeto de microgrid. A expectativa é de que em dois anos a parte da startup esteja concluída.

Outro projeto em andamento é com a AES Tietê, empresa de energia renovável de São Paulo e está focado na criação do primeiro balcão organizado de comercialização de energia. Nesse caso, blockchain vai garantir a confiabilidade dos dados e a segurança dos contratos e das operações do balcão. O projeto é de R$ 3,4 milhões, segundo a AES Tietê, e terá financiamento do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Energia é campo farto para blockchain; quem não se atualizar, sairá do mercado, diz FGV

A digitalização é a maior transformação em curso no setor de energia e as empresas que não aderirem a tecnologias como blockchain e realidade aumentada, vão desaparecer, diz a FGV no seu Boletim de Conjuntura do Setor Energético.

A tecnologia pode encontrar um campo farto de uso nessa área, em especial no segmento de renováveis, com a criação de novos modelos de negócios, principalmente para os pequenos geradores, segundo Marcela Gonçalves e Jennifer Simões, executivas da startup Multiledgers, de Blockchain as a Service (BaaS), no artigo “Uma perspectiva da tecnologia Blockchain no setor de energia”, publicado no boletim.

O segmento de óleo e gás é conhecido por ser inovador. Já o de energia elétrica, é conhecido por, em geral, se limitar a correr para entregar o que as regras de concessão exigem. Por isso, a inovação padece. Nas renováveis, a falta de regras claras também dificultam o uso de novas tecnologias, mas há quem busque alternativas inovadoras.

O Electric Power Research Institute (EPRI) mapeou mais de 100 uso de Blockchain no setor elétrico, principalmente em mediação e cobrança.

No Brasil, a EDP foi a primeira que anunciou o uso e a AES Tietê também tem projeto, desenvolvido com a Fohat, uma startup que já desenvolveu um projeto na Austrália, de comércio P2P e microgrid, e está fazendo outro no Chile.

Dentre as novidades que blockchain trouxe, está a criação de tokens, espécie de fichas de quermesse, como recompensa para uso de energia limpa. Há também uso da tecnologia no mercado de crédito de carbono, que permite a entrada de pequenos geradores ao baratear os custos desses processos.

“Por se tratar de uma tecnologia em que a maior vantagem reside na colaboração entre os diversos atores, é de extrema importância o desenvolvimento de um ecossistema forte e ativo para que as vantagens sejam colhidas.  Nesse processo ainda é fundamental o desenvolvimento de padronizações para todo o mercado e, apesar das barreiras, pode- se alcançar tal necessidade envolvendo agentes como câmara de comercialização, concessionárias e agência reguladora, visando a construção de um modelo mais inteligente e moderno”, dizem Marcela e Jennifer.

A comissão de infraestrutura do Senado aprovou, no último dia 3, o projeto de lei do marco regulatório do setor elétrico. Uma das decisões é a possibilidade de que qualquer consumidor escolha de quem vai comprar a energia elétrica, daqui a 3 anos e meio. Outra regra é a redução de 18 para 12 meses no desconto do preço da energia renovável comprada por grandes consumidores.

Será preciso a aprovação total do projeto na Câmara para se ter uma ideia mais clara de como isso ajuda ou atrapalha a inovação no setor.

Austrália, um dos líderes em pedidos de patentes em blockchain, lança guia

O governo da Austrália, um dos países que mais se destacam no uso de blockchain e que está em 6º lugar no ranking global de pedidos de patentes relacionadas a essa tecnologia, divulgou um guia para o desenvolvimento do uso da solução.

O “The National Blockchain Roadmap: Progressing towards a blockchain-empowered future” estabelece metas para o período de 2020 a 2025 e foi feito em conjunto pelo governo, empresas e universidades, num trabalho iniciado em 2019.

O governo da Australia tem financiado projetos tanto estatais quanto privados em blockchain, de olho na estimativa de que a tecnologia gere um valor anual de negócios de mais de US$ 175 bilhões até 2025, o que pode ultrapassar US$ 3 trilhões até 2030.

Dentre as 12 medidas estabelecidas no guia, estão a de o governo criar um modelo de cooperação com o setor privado e as universidades, criar um grupo de usuários de blockchain dentro do governo para troca de experiências, estudar casos de uso por outros governos e permitir que indústrias e universidades desenvolvam frameworks comuns e cursos de qualificação em blockchain.  

Recentemente, o Blocknews noticiou sobre a startup brasileira Fohat , que está desenvolvendo um projeto em blockchain em energia solar para o mercado municipal de Melbourne, com transações peer-to-peer (P2P), uma vez que lá o mercado é livre para consumidores também.

Outros países estão se movendo para desenvolverem o uso de blockchain. Recentemente, o Instituto Nacional para a Transformação da Índia (NITI Aayog), um think tank do governo que desenvolve políticas de desenvolvimento, divulgou a primeira parte de um estudo para que se estabeleça uma estratégia de uso de blockchain pelo país, como também mostrou reportagem do Blocknews em http://bit.ly/31FequM.

NITI Aayog chama a estratégia de Blockchain: The India Strategy –Towards Enabling Ease of Business, Ease of Living and Ease of Governance. A Uniao Europeia tem o European Blockchain Observatory and Forum.

A versão completa do guia australiano está em http://bit.ly/31LyXOn e a versão resumida, com as ações do período 2020-2025, está em http://bit.ly/37hWeIW.

Setor de energia do Brasil patina no uso de blockchain

O setor de energia brasileiro ainda precisa descobrir a blockchain. A tecnologia pode dar mais eficiência não apenas à cadeia de produção energética, mas também a processos internos das concessionárias. “Ficamos mais de um ano pesquisando as empresas que estavam envolvidas em blockchain no Brasil e são raríssimas as que usam a tecnologia”, disse ao Blocknews João Carvalho, CEO da Mentors Energy, consultoria na área de gestão de ativos em energia e organizador do 1º Fórum Brasileiro Blockchain Energia, que aconteceu em São Paulo, em novembro passado.

No exterior há projetos em todos os cantos e a startup brasileira Fohat está desenvolvendo um na Austrália.

 A EDP foi a primeira do setor a usar blockchain no país. O projeto tem foco em medição e registro do consumo de energia solar. Na sequência, fez um acordo com a Accenture para a criação do Smart Energy Lab, que vai desenvolver soluções e um dos focos é blockchain.

A AES Tietê anunciou em 2019 um investimento de R$ 3,4 milhões para usar blockchain no primeiro balcão organizado no Brasil para comercialização de energia elétrica. A Petrobras também tem dois projetos anunciados, um referente a pagamentos de clientes, com o Banco do Brasil, e outro para assinaturas de relatórios internos, em conjunto com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Na entrevista a seguir, Carvalho fala sobre o cenário de blockchain no setor de energia.

BN: Qual o panorama do uso de blockchain no setor de energia brasileiro?

JC: Há algum tempo percebi que não se falava praticamente nada da tecnologia no mercado de energia, inclusive no de óleo e gás. Em 2018, organizamos evento bem pequeno para discutir o assunto num grupo com algumas pessoas do setor, e no ano passado fizemos algo mais encorpado. Achei que seria interessante o momento para iniciar uma provocação do setor para acordá-lo para o assunto. O 1º Fórum Brasileiro Blockchain em Energia durou dois dias e teve a participação de 100 pessoas, inclusive de 4 palestrantes internacionais de empresas da Europa e América do Norte.

BN: Quais usos de blockchain em energia você destacaria?

JC: Sendo bem generalista, é possível usar em todo o setor. Quando falamos em geração, estamos falando de vários tipos, como hídrica, solar, eólica e biomassa, e cada uma tem sua particularidade. Na área de transmissão, trata-se de conectar as unidades geradoras e transmitir para o pátio de distribuição e daí para os consumidores, então pode haver um número menor de aplicações. Quando se entra em distribuição, estamos falando de smart grid (rede elétrica de inteligência), de a energia chegar nas subestações, em sistemas inteligentes de medição de energia, por exemplo. Há vários processos nessa fase.  Mas acho que o setor onde pode haver um pouco mais de interesse é o de comercialização, podendo ser criado um modelo mais justo na composição de valores de forma descentralizada, o que ajudaria a melhorar a volatilidade dos preços. Uma solução seria a implantação de um modelo padrão para todo o mercado buscando maior segurança e transparência nas transações, trazendo um pouco mais de calma e preços um pouco mais justos. É um pouco difícil fazer isso, mas dá para fazer, envolvendo agentes como as concessionárias, câmara de comercialização e Aneel, visando um modelo mais moderno e inteligente.

BN: Quais são os principais projetos em energia que você nominaria no Brasil?

JC: Ficamos mais de um ano pesquisando as empresas envolvidas em blockchain no Brasil e são raríssimas as que usam a tecnologia. Garimpamos muito, prospectando diariamente quais poderiam falar no fórum. O que mais destaco é o caso da EDP, que está muito à frente das outras empresas de energia. Foi a primeira a adotar blockchain no Brasil. A Petrobras também está utilizando em dois projetos e a AES Tietê, com a Fohat, tem um projeto de comercialização.

BN: Fala-se em consumo de energia excessivo em mineração de criptomoedas, porque os computadores ficam ligados horas nesse processo. Há algum tipo de consumo excessivo quando a blockchain é usada no mundo corporativo?

JC: A forma como foi estruturada a mineração de criptomoedas exige o consumo de muita energia e não dá para fugir disso. Mas nas empresas não é assim. Blockchain vem para gerar facilidades para processos internos, administrativos, inclusive das concessionárias.

BN: Uma outra discussão no exterior sobre blockchain em energia é o comércio peer to peer (P2P). Qual sua opinião sobre isso?

JC: Esse é um conceito que está sendo muito bem-vindo dentro de um modelo mais descentralizado. A Fohat apresentou no fórum um case que estão construindo na Austrália, com implantação de comercialização P2P. É preciso uma regulamentação muito forte para isso, mas é viável e acho que é o futuro da energia em todo o mundo. Acho que o Brasil pode utilizar esse tipo de tecnologia. O P2P tem ainda um efeito de sustentabilidade, porque o parque de geração, transmissão e distribuição de energia afetam muito o meio ambiente e é muito discutido nas concessionárias formas de diminuir o impacto ambiental.

BN: A cultura das empresas, em geral, é de silos. De que forma a blockchain pode mudar isso no setor energético?

JC: Visitamos muito clientes e quando vemos o ERP deles, vemos um grande ambiente de dados desconectados do sistema central. Vemos que há duplicação de dados em ambientes diferentes. Se implantarem blockchain com contratos inteligentes, sistemas inteligentes de gestão corporativa, integrarem os sistemas de ERP, colocarem os processos em uma grande rede blockchain com tudo registrado, autenticado, com registro de segurança que não pode ser mudado, isso vai gerar uma grande economia na própria administração da empresa.  Quando cada um fica no seu quadrado, as áreas não deixam ninguém colocar a mão do que é delas e não há integração. Recomendo a todas as empresas de energia que também deem destaque a isso, que os CEO’s e C-levels olhem blockchain para melhorar a administração de processos e a eficiência administrativa.