Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

R3 premia grupos que desenvolveram soluções no Innovation Challenge da FIAP

Um plataforma para emissão, escrituração e comercialização de CBIO (Crédito de Descarbonização, cujo uso passará a ser obrigatório a partir de 2021), outra otimização dos processos de doação de órgãos, interligando hospitais parceiros, empresas de logísticas, bancos de doadores e o operador do BNO (Banco Nacional de Órgãos) e uma solução unificadora dos registros dos votos em formato de Livro-Razão e integrada ao órgão regulador. Esses foram os projetos que vencerem em primeiro, segundo e terceiro lugar do desafio proposto pela R3 no Innovation Challenge FIAP 2020.

Para os vencedores, a R3 ofereceu o suporte de sua área de Venture Development, liderada por Ivar Wiersma, para quem quiserem prosseguir com o desenvolvimento das aplicações.

O desafio reúne empresas de diferentes setores a propor desafios reais de negócios para que os alunos a desenvolverem soluções.

O desafio da R3 para os alunos de MBA em Engenharia de Software e Arquitetura de Soluções foi identificar uma oportunidade ou dor do mercado que pudesse ser resolvida com blockchain. O desafio era ainda formatar o modelo de negócio, desenvolver o protótipo da solução e demonstrá-lo.

Mas não era só isso. Era preciso sair do zero em conhecimento da plataforma Corda para, em três meses, entregar um CorDapp (Corda Distributed Application). “Nem todos os grupos conseguiram terminá-lo. Além disso, analisamos o fator inovador do projeto, a aplicabilidade no mercado local e comparamos com as demandas que temos recebido de nossos clientes”, diz o diretor de alianças estratégicas da R3, Nayam Hanashiro.

“Definimos quatro verticais: setor financeiro, seguros, energia e saúde”, completa Hanashiro. Diversas áreas da R3 apoiaram os alunos, que participaram também de uma sessão técnica.

Quem venceu

O primeiro grupo premiado, da plataforma para CBIO, foi formado por Albo Borges Vieira, Guilherme Augusto do Amaral, Marcelo Umberto Ferreira da Silva e Rainer Henrichsen. O segundo lugar, da solução para doação de órgãos, ficou com Jorge Rodrigues, Paulo Troyano e Rodrigo Nakamura de Brito. E Delcio Torres, Thiago Gonçalves, William Arsenio e William Medrades levaram o terceiro lugar com a plataforma para a melhoria nos processos de votação das empresas.

O que as plataformas fazem

O protótipo para CBIO tem um aplicativo que consome APIs de microsserviços e permite solicitar a emissão, a comercialização de créditos e conferir o extrato das transações.

A solução de banco de órgãos interliga hospitais, empresas de logísticas, bancos de doadores e o operador do BNO (Banco Nacional de Órgãos) e pode ser acessada via internet. Com Corda, cada membro participante da plataforma tem seu ledger atualizado a cada transplante realizado, com acesso apenas aos seus contratos.

A plataforma de votação em empresas permite a integração de portais de votação, garantindo a validade e a privacidade dos votos. A solução permite redução de custos e apuração imediata das votações.

“À medida que aumentamos o ecossistema global de startups com base na plataforma Corda, o Brasil continua a brilhar como um importante centro de inovação – estamos muito felizes por ter a oportunidade de trabalhar com organizações como a FIAP e startups no Brasil construindo a próxima geração de empresas”, líder de Venture Development da R3 para a América Latina e Costa Oeste dos Estados Unidos.

Se criptografia é avessa à regulação, por que regulação favorável ajuda os criptoativos?

Quando pensamos em Satoshi Nakamoto, pensamos no mítico criador do Bitcoin e do conjunto de tecnologias que chamamos blockchain. Porém, essa revolução tecnológica, mesmo em sua origem, não é o produto de um trabalho individual. Não apenas ainda não sabemos se Nakamoto foi apenas um, e não um coletivo de pessoas trabalhando sob o mesmo pseudônimo. Também é importante lembrar que blockchain é o ponto culminante de um trabalho colaborativo de décadas entre criptógrafos, e que os primeiros passos do bitcoin foram resultado do esforço conjunto de Satoshi Nakamoto e de um grupo de criptógrafos conhecido como cypherpunks. Não existiria o Protocolo Bitcoin sem colaboração. Tampouco blockchain.

Como entusiasta dessa tecnologia, tenho muita empatia e admiração pelo trabalho e pelas ideias dos cypherpunks. Mas o que vou escrever aqui ataca frontalmente uma das crenças fundamentais desse movimento. Faço referência a uma briga que é grande. Em seu influente Manifesto Cypherpunk, Eric Hughes escreveu:

“Cypherpunks desprezam regulação sobre criptografia, pois criptografar é fundamentalmente um ato privado. A arte de criptografar, com efeito, retira a informação do espaço público. Mesmo leis contra a criptografia alcançam somente tão longe quanto as fronteiras de uma nação e os braços de sua violência.”

No entanto, ao contrário do que dizem os cypherpunks, sem uma regulação feita especialmente para manter descentralizados cripto e blockchain(s), nem o bitcoin, nem qualquer outra forma relevante de descentralização das atividades produtivas e econômicas, sobreviverá. Seja ou não baseada em blockchain.

O trabalho colaborativo que deu origem ao bitcoin, agora demanda mais e mais atores para continuar rendendo frutos. Esse é um movimento político, no sentido de que seu objetivo é mudar a forma como a sociedade se organiza. Por ser um movimento político, exige diálogo com a forma com que a sociedade moderna organiza a atividade política: o estado. O nome desse diálogo é regulação.

Quem acompanha os movimentos de mercado dos criptoativos sabe que toda vez que se fala em regulação favorável, o valor daqueles sobe. Atores relevantes em cripto e blockchain têm se movimentado na construção de espaços regulatórios férteis à inovação. Seja no Brasil, com o código de autorregulação da ABCripto. Seja nos EUA, com a movimentação da Chamber of Digital Commerce e o recente sucesso da cooperação entre Kraken e o Estado de Wyoming na construção de caminhos para bancos com custódia de criptoativos. Seja em Zug, na Suíça, em que a adoção temporã de um arcabouço regulatório favorável deu origem ao Crypto Valley. Seja na recém anunciada proposta de um marco regulatório pan-europeu para criptoativos. Os laços entre regulação e evolução do ecossistema blockchain parecem cada vez se consolidar mais.

Não obstante, as palavras do Manifesto Cypherpunk são ainda o principal credo que se ouve nos círculos de quem lida com blockchain na prática. Para criptoentusiastas, por padrão, regulação é anátema. Se criptografar é fundamentalmente um ato privado e, logo, avesso à regulação, o que pode explicar o estímulo que a regulação favorável tem sobre o sucesso de mercados baseados em soluções criptográficas.

A ideia de regulação que alimenta a crítica cypherpunk é hoje considerada obsoleta e reduz regulação a apenas duas ideias

Para explicar essa aparente contradição, primeiro precisamos entender que a ideia de regulação que alimenta a crítica cypherpunk é hoje considerada obsoleta. Essa ideia obsoleta normalmente reduz regulação a duas ideias. A primeira dessas ideias é identificar regulação apenas como uma atividade de “comando e controle”, que vê regulação como uma atividade de fixar regras rígidas e aplicar punições pelo descumprimento dessas regras.

A segunda dessas ideias é identificar regulação como “correção de falhas de mercado”, uma concepção que ganhou popularidade especialmente a partir do início da década de 90, com a privatização de diversas empresas estatais de infraestrutura e a implementação de agências reguladoras espelhadas nas public utility commissions dos EUA.  

Essa visão de regulação parte do pressuposto de que mercados perfeitos seriam a forma ótima de alocar recursos. Porém, em alguns mercados, haveria motivos intrínsecos que fariam com que mercados nem sempre funcionassem de forma ótima. Em hipóteses em que ocorressem situações como a predominância de custos fixos em valor muito superior a custos variáveis, ou o excesso dos chamados custos de transação, ou falhas na disseminação de informações sobre produtos, mercados não funcionariam direito. Esses casos são chamados de falhas de mercado.

Quando ocorrem essas falhas – e apenas nesses casos, o estado deveria intervir para corrigi-las. Isso seria regulação: a atividade estatal de fixar regras e aplicar punições para corrigir falhas de mercado. A crítica cypherpunk se dirige a essa atividade: essas regras e punições estatais seriam ineficientes (e ilegítimas). Regras e punições, obviamente, são uma forma de poder baseado na violência e na coerção. Cypherpunks negam legitimidade e eficácia a qualquer forma institucionalizada de coerção, seja por grandes corporações, seja por Estados-Nação.

Essa concepção, porém, é enganosa por dois motivos. O primeiro é por considerar que mercados são uma espécie de estado natural, ao que a atuação econômica do Estado seria uma espécie de anomalia. O segundo é por considerar que toda regulação é estatal – e, em especial, do tipo “comando e controle”.

Não deixa de surpreender que um setor que nasceu e se sustenta pela força de redes colaborativas baseadas em práticas open source seja tão dominado pelo discurso ortodoxo de um livre mercado sustentado exclusivamente pela coordenação de interesses individuais. A falsa crença de há mercado sem regulação deriva talvez da crença moderna de que mercados não apenas são “naturais”, mas são a medida pelo qual todo valor é dado (inclusive o valor moral), um processo tão bem descrito, como desmascarado, por Karl Polanyi no clássico “A Grande Transformação” (um livro que todo criptoentusiasta deveria ler, junto com “As Consequências da Modernidade” de Anthony Giddens).

Mercados não são naturais. Há muitos e variados exemplos de economias que funcionaram sem mercados, no sentido que lhes atribuímos.

Mercados não são naturais. Há muitos e variados exemplos de economias que funcionaram sem mercados, no sentido que lhes atribuímos. Ronald Coase, um economista muito citado por críticos da atuação regulatória estatal, construiu sua fenomenal carreira ao se perguntar: se mercados são tão eficientes, porque há firmas (empresas)? Ao contrário do que um leitor desavisado poderia imaginar, empresas não são iguais a mercados. Em uma empresa, recursos vão para onde o administrador dizem que devem ir. Em um mercado, recursos vão para onde o preço (que carrega a informação do resultado da interação entre oferta e demanda) diz que devem ir.

Mercados e empresas são duas opções, entre várias, de como seres humanos em sociedade podem alocar recursos escassos. Famílias são outra opção (nenhum mercado de serviço de saúde consegue substituir o cuidado de uma mãe ou de um pai, por exemplo). Comunidades de desenvolvimento open source são ainda outra opção – como bem retratado em outro livro fundamental: “The Penguin and the Leviathan”, de Yochai Benkler. Todos esses são criações coletivas, formas de organização social que derivam de costumes, tradições e também de opções políticas. Nenhuma dessas opções é um dado da natureza – como disse Coase, “mercados são criados”.

A ideia de que mercados são uma dentre várias criações humanas para alocar recursos nos permite enxergar que é falsa a noção de que regulação se opõe a mercados. Mercados são uma opção regulatória, e a regulação define parâmetros que servem de suporte e direcionamento ao funcionamento de mercados. Em outras palavras, a regulação cria mercados e define seu funcionamento.

O desenvolvimento da internet é prova de que regulação e mercados andam juntos. Ao contrário do que diz o senso comum, a internet não seria como é hoje não fossem as opções regulatórias. A começar pela sua origem. Na década de 60, a AT&T, a gigante de telecomunicações da época, tinha um dos mais fantásticos centros de desenvolvimento de tecnologia que o mundo já viu. Mas para que a internet surgisse, primeiro foi necessário que o governo americano a financiasse: nenhuma empresa privada, na época, via a tecnologia como viável. Se dependesse da AT&T, a internet não existiria como a conhecemos hoje: a gigante de telecomunicações explicitamente desconsiderou como viável a implementação de redes de telecomunicação entre computadores usando a tecnologia de comutação por pacotes, tecnologia essa que é a pedra fundamental para toda a comunicação de dados do mundo atual.

Também foi graças ao financiamento governamental do grupo de pesquisadores responsáveis por manter e operar a internet – e a uma opção política explícita de não-intervenção no trabalho desse grupo – que os parâmetros de governança da internet puderam se desenvolver.

Uma série de decisões regulatórias foi responsável por manter a internet descentralizada até o final dos anos 90. Nos EUA, as Computer Inquiries da FCC dos anos 70 e 80 permitiram a operadores competitivos ter acesso à infraestrutura necessária para montar as redes que se tornariam a base da Internet comercial. No Brasil, o monopólio da Embratel sobre comunicação de dados foi quebrado em 1995, para dar lugar a pequenos e grandes provedores de acesso à Internet.

Não regular a Internet foi, portanto, uma opção regulatória explícita.

No início do milênio, duas opções regulatórias desconstruíram a estrutura de mercado que até então era responsável por operar a internet comercial. Primeiro, reguladores do mundo todo passaram a permitir que operadoras de telecomunicações fornecessem acesso à internet. Até então, essa era uma atividade vedada a operadores tradicionais de telecomunicações.

A segunda opção regulatória que mudou a cara da internet foi permitir, ou melhor atribuir a, operadoras de telecomunicações o papel de levar a internet móvel para os usuários. Por um lado, essa opção viabilizou que bilhões de pessoas passassem a ter acesso à internet. Por outro lado, a Internet é hoje controlada do ponto de vista de sua estrutura por não mais que cinco grandes conglomerados mundiais.

Bitcoin já nasceu regulado e se desenvolveu de acordo com essa regulação

Não apenas a infraestrutura da Internet foi moldada por opções regulatórias. Na década de 90, leis e regulamentos do mundo todo adotaram a política de que plataformas não são responsáveis pelo conteúdo que publicam. Sem essa política, Google, Facebook e Amazon não teriam chegado onde chegaram.                    

“Ok, mas Bitcoin, blockchain, criptoativos, Descentralized Finance, tudo isso nasceu e cresceu à revelia de regulação e da atuação de Estados.” Talvez diga o leitor. Eu respondo: “não, Bitcoin já nasceu regulado e se desenvolveu de acordo com essa regulação.”

Primeiro, o Protocolo Bitcoin foi criado por uma comunidade open source. Se o movimento de software livre não tivesse precedido o bitcoin, a propriedade intelectual do código seria motivo de disputa e isso poderia inviabilizar a continuidade do desenvolvimento. Sem a possibilidade de disponibilizar o código em repositórios online, o Protocolo Bitcoin não teria se desenvolvido.

Segundo, o Protocolo Bitcoin opera parâmetros peer-to-peer que são viabilizados por regulação. Se equipamentos de telecomunicação comercial não disponibilizassem as ferramentas lógicas para a comunicação peer-to-peer, não haveria Bitcoin. A regulação de equipamentos de telecomunicação é o que permite isso.

Terceiro, empresas de telecomunicação que fornecem Internet comercial são obrigadas a não espionar e nem bloquear o tráfego de informações em suas redes. A regulação de telecomunicações poderia exigir o bloqueio de tudo o que pareça Bitcoin, mas faz o contrário: exige que o tráfego ocorra. Sem esses requisitos, o Bitcoin seria no máximo um experimento de uma meia dúzia de criptógrafos em um laboratório, em que apenas pessoas com elevado conhecimento técnico poderiam participar.

É hoje consenso de que o bitcoin falhou – até o momento – na sua proposta originária de ser um meio de pagamento entre pares

Mas não é só isso. O desenvolvimento do Bitcoin e do mercado de criptoativos também já é pautado por opções regulatórias. É hoje consenso de que o Bitcoin falhou – até o momento – na sua proposta originária de ser um meio de pagamento entre pares. A ideia de que Bitcoin é comparável ao ouro, e não ao dólar, é bastante difundida atualmente. Porém, se criptomoedas não fossem tributadas por ganho de capital (uma opção regulatória), é provável que a história fosse outra. Afinal, se toda vez que eu recebo bitcoin e ele sobe de preço eu tenho que pagar imposto de renda, fica bem difícil eu usá-lo para substituir moeda fiat. Há várias soluções para o problema da volatidade de preços, mas nenhuma solução supera o problema da forma como bitcoins são tributados.

Também sente o peso da regulação qualquer pessoa que queira adquirir ou vender criptoativos. De modo geral, é mais fácil abrir uma conta em banco do que em uma exchange. Se eu for parar para pensar onde estão todas as minhas fotos segurando meu passaporte e um bilhete, não durmo. Mesmo plataformas de compra e venda peer-to-peer como Localbitcoins e Paxos exigem esse malfadado procedimento. E não à toa: os fundadores e executivos dessas plataformas correm real risco de prisão se não o fizerem. Leis contra a lavagem de dinheiro não foram criadas para criptoativos, não obstante são responsáveis por uma parte bastante familiar da experiência de usuário de qualquer coisa cripto.

O bitcoin não surgiu no vácuo regulatório. As leis e regulamentos que já existem definem o presente e o futuro de todas as coisas blockchain. A questão é saber se essas leis e regulamentos serão feitos para avançar os ideais de liberdade e privacidade que moveram Satoshi e os cypherpunks.

No livro clássico de Hannah Arendt “Sobre a revolução”, a autora analisa a Revolução Francesa e a Independência Americana – um período de intensa transformação social, na minha opinião similar ao momento em que vivemos hoje. A autora faz distinção entre a felicidade individual, que resulta das ações que cada um de nós pode tomar sozinho, e a felicidade pública, produto de ações que apenas pessoas agindo em conjunto conseguem fazer. A busca da felicidade pública é a essência da atividade política. Pessoas cooperando para, juntas, fazerem o que sozinhas não são capazes. Como fizeram Satoshi Nakamoto e os cypherpunks.

Gabriel Laender é advogado do FCM Law e membro da Silicon Valley Blockchain Society (SVBS). Baseado na Califórnia, foi visiting scholar sobre blockchain e política pública na University of Southern California (USC). É doutor em Direito e Regulação pela Universidade de Brasília.

Este artigo é parte da série de entrevistas e artigos que o Blocknews está publicando em celebração aos 12 anos do white paper de Satoshi Nakamoto sobre bitcoin e blockchain.

Outros conteúdos da série em:

Parceria entre empresas e governo fez da Suíça um hub em criptos e blockchain

Negócio todo baseado em blockchain está próximo de surgir e trará enxurrada de possibilidades, diz Magaldi

Parceria entre empresas e governo fez da Suíça um hub em criptos e blockchain

Uma bem sucedida parceria entre empresas e governos e ações do ecossistema para evitar a atuação de golpistas, logo no início do mundo cripto, foram alguns dos fatores que tornaram a Suíça um dos principais centros das finanças tradicionais do mundo, também em um dos principals hubs de negócios ligados a criptoativos e blockchain.

Essa é uma das mudanças no mundo dos negócios causadas pelo whitepaper de Satoshi Nakamoto sobre a bitcoin, divulgado há 12 anos. E quem conta essa história ao Blocknews é Toni Caradonna, membro fundador da Federação Suíça de Blockchain (SBF em inglês), por meio da Fundação Porini, ONG que usa tecnologia em projetos de impacto social, e que lidera o grupo de trabalho de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU na federação.

Esta entrevista é parte de uma série que o Blocknews publicará em celebração à divulgação do whitepaper, em 31 de outubro de 2008.

BN: Quais foram os maiores fatores que levaram a Suíça a se tornar um dos maiores promotores de blockchain e criptoativos?

TC: Na minha percepção, foi um exemplo perfeito de uma parceria público-privada. Houve uma adoção empreendedora muito cedo em meio a uma incerteza jurídica. Então, os stakeholders se juntaram a tomadores de decisão do governo, que viam o potencial que a tecnologia oferece. Pessoalmente, também acho que o fato de a Fundação Ethereum estar em Zug e ter tido a consultoria de um time de advogados muito competente e com excelente reputação, acelerou a credibilidade do setor. Além disso, acho que o aspecto autoregulatório dos stakeholders que queriam uma separação clara entre os atores complacentes e os golpistas, foi um grande motivador para a adoção.


BN: Esse movimento significa que a Suíça acredita que o setor financeiro tradicional será substituído, no futuro, pelos criptoativos?

TC: Não acredito que vivemos num mundo binário, nem em relação à sociedade e nem em relação aos negócios. Porém, eu realmente acredito que muitos participantes do setor vejam um potential massivo, o potencial de disrupção. A Suíça não tem recursos naturais e é altamente dependente de inovação. Por isso é que existe um grande interesse e apoio dos tomares de decisão em todos os níveis.


BN: Tem havido várias ações para promover os criptoativos, como a criação do Cryto Valley em Zug e o uso de criptomoedas para pagamento de impostos. Há também um movimento para promover o uso de blockchian em empresas e no governo? 

TC: Eu vejo isso como um desafio de percepção. A Suíça é uma federação, portanto há vários níveis de governo, com muita independência e que podem atuar e comunicar de forma rápida e efetiva. O apoio a tecnologias usadas pelas empresas, em geral, acontece nas diretorias daquelas de grande porte, que precisam prestar contas a reguladores e comitês de padronização. Isso leva tampo e o foco é no negócio e não no marketing, em especial quando se pensa na indústria de infraestrutura. A maior provedora de energia do país, a Axpo, por exemplo, trabalha há dois anos numa missão federal crítica em blockchain, com seu braço Axpo WZ Systems e a solução SwissDLT (rede suíça criada pela rede BCTS, da qual a Axpo faz parte), sem soltar comunicados. Por isso, acho que as empresas vão adotar a solução sem fazer grande barulho.


BN: Qual tem sido o maior apoio que os governos locais e o federal tem dado para promover criptoativos e blockchain?

TC: Claramente, o esclarecimento feito pelas autoridades do mercado financeiro, logo no início, foi extremamente útil. Além disso, a rápida e drástica intervenção sobre os golpistas e atores de má fé ajudou a evitar danos de reputação. O fato também de que o conselho federal oficialmente disse que a Suíça deveria ser uma Nação Cripto foi importante, apesar de muito debatida dentro da comunidade. E por último, mas não menos importante, as duas câmaras do parlamento aceitaram a nova lei que entra em vigor em agosto de 2021 (trata-se de um conjunto de emendas a leis financeiras e corporativas) . O conselho federal explicitamente convida a indústria a comentar os detalhes dessa implementação (há uma consulta publica que acaba de começar e segue até 2 de fevereiro). Basicamente, o Blockchain Act pretende dar mais segurança jurídica e fazer com que haja menos obstáculos para as aplicações blockchain, além de buscar minimizar abusos. Em outras palavras, pretende levar as criptomoedas e a tecnologia blockchain para uso o convencional. A lei cobre o comércio de ativos digitais e estabelece padrões para as bolsas de criptos.


BN: Qual é a importância de Zug nesse contexto?

TC: Zug é o lar da Fundação Ethereum e um hub para muitas companhias globais por vários motivos (inclusive brasileiras, como a Sppyns, e uma delas são os impostos. Mas as autoridades de Zug aceitaram muito cedo os pagamentos em bitcoin, o que, se você pensar sobre isso, foi uma ação muito radical. E havia ainda uma associação do setor desde o início, bem sucedida e influente, que promoveu o Blockchain Valley, o que foi um investimento efetivo e uma ferramenta de marca e marketing que possibilitou uma série de ações em todo o mundo.


BN: Como você descreveria o estágio atual de uso de criptomoedas e de blockchain em empresas no país?

TC: Eu acredito que há muito tempo nós passamos do estágio de criptomoedas e estamos olhamos para uma gama maior de aplicações. Há vários atores globais que trabalham num ou mais projetos. Os pequenos e médios ainda não estão implementando soluções. Há pioneiros interessantes como o Crowdlitoken, que granulou propriedades no mercado imobiliário europeu para 100 euros (cerca de R$ 675) e que resolveu um grande problema. A divisão europeia de riqueza é baseada no topo da pirâmide quando se fala em acesso a esse mercado. Outro caso interessante é o do setor de energia. A liberalização desse mercado exige novas ferramentas. A Thurgie AG, que usa blockchain para tokenizar painéis solares, com isso gera a adesão de clientes, independência de bancos e um potencial para terceirização de risco e colaterizaçao de ativos.

BN: Como você vê esse cenário em 5 anos?

TC: Eu não faço previsões. Acho que a maior bifurcação que acontecerá será o efeito do Covid-19 e o resultado disso é realmente difícil de se prever, porque será muito radical.


BN: Quais serão os principais movimentos da Federação Suíça de Blockchain nos próximos anos? O Blockchain Nation é um deles?

Um dos maiores focos é promover a inovação. Nos próximos 4 anos, a SBF ser conectará com startups, indústrias globais, governos e investidores num programa muito claro dentro do marco de uma inovação aberta, num esforço chamado Blockchain Nation Switzerland.

Outra entrevistas sobre os 12 anos de blockchain em:

Negócio todo baseado em blockchain está próximo de surgir e trará enxurrada de possibilidades, diz Magaldi

Para Bradesco, blockchain faz sentido em pagamentos internacionais

“No nosso cenário, blockchain faz sentido nos pagamentos internacionais”. É o que disse, ontem (27), o especialista na solução do departamento de pesquisa e inovação do Bradesco, George Marcel Smetana,  durante a sessão “Challenges to implement blockchain in Brazil”, do Blockchain Revolution Global (BRG) 2020, que acontece nesta semana O evento é realizado pelo Blockchain Research Institute (BRI) e a sessão foi organizada pelo BRI Brasil.

O banco está experimentando a tecnologia para essas transações – já anunciou testes de operações entre Brasil e Japão usando a plataforma Ripple, executando as transferências em segundos -, em trade finance – faz parte da rede global Marco Polo – e está pesquisando o uso em áreas como a de mercado de capitais, seguros e processos de garantias.

Smetana lembra que as transações intrabancárias (entre contas do banco) já são instantâneas e a custo zero, “então não tem porque substituir”. No interbancário, “o Pix resolve de forma sensacional”. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) chegou a sugerir o uso de blockchain ao Banco Central (BC) para o novo sistema de pagamento instantâneo e no início parecia que seria isso mesmo. Mas o BC avaliou que a tecnologia era muito nova e havia dúvidas sobre sua capacidade de realizar, com rapidez, a demanda de transações instantâneas que o sistema exige.

Já os pagamentos internacionais são bastante complexos, afirmou. As transações internacionais envolvem várias partes, podem ser entre bancos diferentes, que não têm histórico de relacionamento e cada um pode ter um KYC (know your customer, métodos para verificar identidade do cliente em operações financeiras), para citar algumas das complexidades.

Informações em planilha e por email

“Temos contratos de grandes valores em que o ser humano ainda é a integração entre dois sistemas. A pessoa pega de um sistema e copia para o outro ou manda uma planilha por email, e aí sai de férias”, exemplificou Smetana sobre a possibilidade de uso de blockchain para registro e compartilhamento de dados de forma mais confiável e eficiente.

Ele lembra que há outras tecnologias que podem ser usadas, como RPA (Automação de Processos Robóticos), mas blockchain tem se mostrado apropriada em diversos desafios. “É uma solução muito interessante e temos que entender a sua complexidade.  Ao mesmo tempo, não é para todos os problemas da humanidade”.

“Muito se fala em API (Interface de Programação de Aplicativos), mas na API você é chamado e muitas vezes eu quero chamar os outros, quero passar uma informação para uma empresa e vice-versa. Blockchain é mais uma ferramenta para essa integração de sistemas heterógenos.”

O Bradesco tem estudado os casos em que blockchain é a melhor solução possível ou que pareça viável e que precisa ser analisada. E faz isso interagindo com empresas de todos os tamanhos, inclusive concorrentes, como é o caso na Febraban. Essa interação exige uma cooperação que é exatamente um dos melhores pontos da tecnologia: colocar os participantes de uma cadeia ou de um setor juntos, para definir regras que atendam a todos.

O painel foi moderado pelo presidente da Câmara de Comércio Brasil-Canadá, Paulo Perrotti, e teve também a participação de Raul Siqueira, controlador-geral do estado do Paraná, Daniel Fisman, analista sênior da Vale, Felipe Chobanian, co-fundador e CEO da BBChain, de Carl Amorim, executivo do BRI Brasil e desta editora do Blocknews.

Mais sobre blockchain no Bradesco e sobre o Blockchain Revolution Global em:

Bradesco testa blockchain em 5 áreas, de trade finance a seguros

Governança continua um dos maiores desafios de projetos com blockchain

Vale adotou blockchain para evitar perda de informações e de dinheiro

Governança continua um dos maiores desafios de projetos com blockchain

É na governança que está um dos maiores desafios de redes blockchain permissionadas (privadas, fechadas), mas isso ainda é uma parte na qual as empresas em projetos com essa tecnologia prestam pouca atenção, segundo Felipe Chobanian, co-fundador e CEO da empresa de soluções BBChain.

A governança da rede talvez seja o maior desafio do projeto de blockchain da Vale, disse Daniel Fisman, analista sênior da mineradora que usou a tecnologia para emissão de carta fiança numa exportação.

Chobanian e Fisman participaram, hoje (27), da sessão “Challenges to implement blockchain in Brazil”, do Blockchain Revolution Global (BRG) 2020, que acontece nesta semana afirmou. O evento é realizado pelo Blockchain Research Institute (BRI) e a sessão foi organizada pelo BRI Brasil.

Segundo Fisman, a empresa está usando a metodologia ágil para o desenvolvimento do projeto e é preciso que haja assessorias, no país, que possam dar suporte às empresas para a questão da governança.

Para Chobanian, apesar de o mercado brasileiro estar em processo de amadurecimento para blockchain, mas a elaboração de um proposito único entre os diversos atores da rede precisa de mais cuidado.

Abordagem pelas associações

Isso fez a empresa mudar sua aproximação com o mercado. Agora, a abordagem é com associações, com uma mobilização comum. ” Muito se falava do ganho do pioneiro, mas isso não se demonstrou, de fato, com valor. Há valor quando se começa debaixo do grande guarda-chuva da associação, com padronização, definição de propósito comum, a partir uma governança consensual”, completou.

A questão, afirmou ele, não é mais a solução, mas como o mercado se mobiliza. A empresa participa de dois projetos que serão anunciados no segundo semestre de 2021. Será um no setor financeiro e outro na indústria, “com todos os participando desde o início e não um pioneiro tentando atrair os outros para entrar numa rede com governança escrita pela concorrência direta”.

“Em blockchain, você deixa de precisar de um maestro e passa a ter um coreógrafo. A governança é o que ganha e conquista consenso de uma coreografia única. Esse é o grande desafio. Muitos me perguntam porque ainda não temos redes de padrão de mercado. É porque não tem investimento correto em propósito e governança, para depois se aplicar em tecnologia.”

Vale adotou blockchain para evitar perda de informações e de dinheiro

Foi a partir da constatação de que informações, e até dinheiro, estavam sendo perdidos pela falta de um sistema mais eficiente de registro de dados, que a Vale decidiu olhar blockchain para resolver esse problema. Foi assim que Daniel Fisman, analista sênior da empresa, explicou como uma das maiores mineradoras do mundo e uma das maiores exportadoras do país aderiu à solução.

Uma empresa como a Vale tem uma série de processos e contratos que contam com garantias financeiras, muitas delas fianças e seguros, que são de longo prazo de duração, completou.

“Cheguei a ver garantias de 1990. Em 30 anos acontece muita coisa, mudam equipes, sistemas mudam, um banco adquire outro e a essência da operação pode se perder, porque os controles são em planilhas excel ou sistemas sem confiabilidade grande, o que traz prejuízos para as empresas”, afirmou Fisman, hoje (27), durante a sessão “Challenges to implement blockchain in Brazil”, do Blockchain Revolution Global (BRG) 2020, que acontece nesta semana afirmou. O evento é realizado pelo Blockchain Research Institute (BRI) e a sessão foi organizada pelo BRI Brasil.

No início de setembro, a empresa anunciou que havia emitido, pela primeira vez, uma carta de crédito em blockchain. Foi para uma exportação de minério de ferro da Malásia à China.

Empresas não calculam perdas

Segundo o analista da mineradora, a Vale implementou blockchain para todo o processo de garantia e com isso consegue monitorar seu ciclo de vida e dar à contraparte a mesma visão que tem, “o que a gente considera um ganho de transparência”.

Com isso, a empresa consegue, por exemplo, saber se contratos foram feitos e se cartas de fianças estão em ordem e não corre riscos de perder documentações. “O histórico está todo salvo numa plataforma”, completou.

O cálculo de perdas já provisionadas nos balanços e a dinâmica de negociações que já estão em voo de cruzeiro torna difícil, para as empresas, saber o quanto a tecnologia blockchain pode trazer de valor e reduzir perdas, diz Felipe Chobanian, co-fundador e CEO da BBChain, provedora de soluções.

Harpia no Paraná

O painel contou ainda com a participação de Raul Siqueira, controlador-geral do Paraná, que afirmou que para buscar evitar corrupção em licitações, o estado está desenvolvendo o projeto Harpia, que vai registrar em blockchain todos os dados do processo.

De acordo com Siqueira, 97% dos casos de corrupção estão ligados a licitações em diferentes fases, do preço ao direcionamento de vencedores. O projeto inclui também inteligência artificial. Blockchain dá uma camada de certeza de que o registro da informação é imutável, do edital à contratação, disse o controlador-geral.

O painel foi moderado pelo presidente da Câmara de Comércio Brasil-Canadá, Paulo Perrotti, e teve também a participação de George Marcel Santana, especialista em blockchain do departamento de pesquisa e inovação do Bradesco, Carl Amorim, executivo do BRI Brasil e desta editora do Blocknews.

Moeda do JPMorgan Chase será usada comercialmente e banco cria unidade de blockchain

A JPM Coin, moeda do banco JPMorgan Chase, será usada comercialmente pela primeira vez nesta semana. Além disso, a instituição criou uma nova unidade, a Onyx, para cuidar da moeda e de outras iniciativas em blockchain disse Takis Georgakopoulos, líder global do JP para pagamentos no atacado.

A nova unidade tem mais de 100 profissionais, disse o executivo em entrevista à CNBC.

DBS quer ter bolsa

O DBS, maior banco em ativos do sudeste da Ásia, planeja ter uma bolsa digital, que terá negociações de bitcoin, bitcoin cash, ether e XRP contra os dólares dos Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e do ien. A informação é do CoinDesk e, segundo o site, teria sido publicada por engano pelo DBS e depois retirada da internet. Também serão oferecidos serviços de tokenização para empresas.

O banco confirmou o plano da bolsa e informou que ainda não há aprovação regulatória para o negócio, que está sendo montado. Os serviços vão incluir tokenização.

Women in Cybersecurity cria capítulo no Nordeste e terá apoio do Porto Digital

A Latam Women in Cybersecurity (Womcy), organização que trabalha para a educação, desenvolvimento e aumento do número de mulheres no segmento de segurança cibernética, lança amanhã (28) seu capítulo Nordeste. Criada em maio do ano passado por Leticial Gamill, da Cisco, o capítulo brasileiro acaba de completar um ano de atuação com um grande grupo de participantes – mulheres e homens – e de parcerias.

Na entrevista a seguir, Andréa Thomé, líder do capitulo Brasil, fala sobre a expansão do movimento no país e o novo papel que o capítulo São Paulo terá nesse processo.

BN: A Womcy começará a ter capítulos em todo o Brasil?

AT: À medida que identificarmos líderes preparados para gerir capítulos locais, vamos abrindo as células que nos permitirão chegar a públicos que precisam de nosso auxílio e que poderão usufruir de nossos benefícios.
Já temos um capítulo em Minas Gerais, liderado por universitárias da IFSULDEMINAS, e agora chegaremos ao Nordeste.

BN: Qual a importância dessa expansão?

AT: É alcançar toda e qualquer mulher que queira evoluir em sua carreira em cibersegurança, passar por transição para essa área ou iniciar no segmento, independente de sua localização geográfica.
Nossa missão de aumentar a participação de mulheres e de reduzir o gap de conhecimento entre gêneros em cibersegurança não se restringirá aos profissionais de São Paulo. Hoje já temos membros e voluntários registrados na Womcy de diversos estados do país, e por isso, sempre que entendermos que estiver a nosso alcance, unidades locais serão desenhadas e instaladas para melhor atender a todos.

BN: Quais as iniciativas que vocês esperam desenvolver no Nordeste?

AT: Vamos localizar e registrar voluntários e membros, definir o corpo de líderes para os programas (WOMCY, Talks, WOMCY Mentoring, WOMCY Talent, WOMCY Girls, WOMCY Geek, WOMCY Tech, WOMCY Jobs, WOMCY Give e WOMCY Back) e equipes (WOMCY Marketing, WOMCY Legal, WOMCY Alliance, WOMCY Membership, WOMCY Volunteering e WOMCY He for She) e desenhar o modelo de integração do capítulo Nordeste com o capítulo São Paulo, que passará a atuar como um incubadora de disseminação de conhecimento sobre ações e projetos para o time do Nordeste.

Na entrevista a seguir, Flávia Brito, líder do capítulo Nordeste, fala sobre a falta de mão-de-obra especializada em cibersegurança na região e o apoio do Porto Digital à iniciativa local da Womcy.

Flávia, líder no Nordeste, é CEO da BIDWEB, de soluções no setor Foto: BIDWEB.

BN: Como é o mercado de trabalho em cibersegurança no Nordeste?
FB: Existe uma falta de mão-de-obra muito grande na região e apoio para o desenvolvimento de novos profissionais. Comparado ao Sudeste, por exemplo, acredito que a escassez de especialidades em cibersegurança é maior ainda. Quando falamos de mulheres nesse mercado, a situação é parecida com o restante do Brasil, porque falta estímulo para que elas avancem seus estudos na área. Do ponto de vista de educação, o Nordeste precisa estimular mais a formação dessas meninas. O Porto Digital, em Recife, é uma ótima oportunidade para o empreendedorismo. Eu mesma comecei no Porto Digital há 18 anos e tive vários desafios, mas não desisti.

BN: Como a Womcy pode ajudar a melhorar esse quadro?
FB: A chegada do Capítulo WOMCY Nordeste será amparado com o apoio do Porto Digital e também já temos várias mulheres interessadas em desenvolver os programas da WOMCY na região. Acredito muito nessa comunidade de mulheres em cibersegurança, porque a prática do trabalho da WOMCY Brasil demonstra sua seriedade, amparando e contribuindo para o desenvolvimento das mulheres. Inicialmente, estamos criando no capítulo Nordeste um corpo de voluntariado alinhado com os programas da WOMCY Brasil.

BN: As empresas do Nordeste estão bem preparadas para combater os ataques cibernéticos? Como a Womcy pretende ajudar nessa conscientização?
FB: Em relação ao combate aos ciberataques aqui no Nordeste, acredito que, assim como em todo o Brasil, há diferenças entre grandes empresas, que já investem em segurança da informação, e as médias e pequenas, que precisam de esclarecimento e conscientização sobre como se proteger. Certamente, a WOMCY contribuirá com a conscientização, dado que seus programas contribuem em vários aspectos de proteção de dados, privacidade e segurança da informação, com as melhores práticas do mercado.

CMN e BC aprovam regras de implementação de sandbox regulatório

O Conselho Monetário Nacional e o Banco Central aprovaram a implementação do Sandbox Regulatório, que está regulamentado pelas resoluções CMN nº 4.865 e BCB nº 29. O BC, agora, irá se preparar para o estabelecimento das normas relativas ao primeiro ciclo do projeto, previsto para 2021. 

Com isso, empresas poderão pedir autorização do BC para testar, por um período determinado, projetos considerados inovadores para o setor financeiro ou de pagamento.

Os projetos devem gerar ganhos de eficiência, alcance ou capilaridade, redução de custos ou aumento de segurança.

Os testes são feitos de forma controlada e delimitada. Mas sob requisitos regulatórios e de monitoramento diferenciados.

Se a experiência for bem sucedida, o BC pode permitir o lançamento e uso em larga escala no mercado. Do contrário, se os resultados apontarem riscos para o sistema e os usuários, o processo de uma empresa pode ser limitada ou mesmo proibida.

Em novembro de 2019, o BC abriu consulta pública sobre o sandbox e a previsão era de que o primeiro ciclo acontecesse em agosto passado.

Há duas semanas, a  Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) divulgou as empresas que participarão de seu sandbox. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) está testando a plataforma para receber as propostas de quem pretende participar de seu sandbox.

Negócio todo baseado em blockchain está próximo de surgir e trará enxurrada de possibilidades, diz Magaldi

No dia 31 de outubro, é aniversário da blockchain e das criptomoedas: serão 12 anos da data de divulgação do white paper “Bitcoin: Um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer” , de Satoshi Nakamoto. Por isso, nos próximos dias, o Blocknews divulgará uma série de entrevistas com especialistas sobre blockchain e criptoativos para falar do que aconteceu até agora no mundo dos blocos e o que vem pela frente.

A primeira entrevista da série é com Mauricio Magaldi, criador e apresentador do BlockDrops Podcast, membro do capítulo Brasil do Projeto Hyperledger, mentor de startups que trabalham com blockchain e palestrante. Para ele, “um modelo de negócios unicamente baseado nas capacidades das tecnologias blockchain está na iminência de surgir e vai vir como uma enxurrada de novas possibilidades econômicas”. A seguir, a entrevista:

BN: Como você resumiria os primeiros 12 anos de blockchain?

MM: Com a tecnologia entrando na sua adolescência, vejo que passamos pela criação de novos mercados, como no caso das criptomoedas e criptoativos, e até mesmo pela criação de novos tipos de profissionais. Apesar de todo hype ao redor das tecnologias, me alegra ver que cada vez mais há interesse em aplicações menos óbvias e que passam a gerar valor real, mudando a perspectiva de uso da tecnologia do âmbito especulativo para soluções práticas e que afetam o dia a dia dos mercados e até das pessoas. Nos últimos 5 anos, saímos de um mercado que tinha muitos eventos para falar do potencial do assunto, para diversos eventos onde se mostram os resultados reais das aplicações construídas com a tecnologia. Muita educação ficou disponível para todos os níveis de conhecimento, a mídia abraçou blockchain como um tema recorrente, os reguladores entenderam seus riscos e potenciais e diversas indústrias começam a se reinventar calcadas nos benefícios únicos que blockchain oferece.


BN: Em que estágio estamos de uso de blockchain no Brasil?
MM:
Em alguns aspectos estamos pari passu com o resto do mundo, tanto nas soluções que têm sido desenvolvidas no país, quanto nos profissionais de destaque. Ficamos atrás em educação: apesar da oferta ser muito ampla, ainda devemos muito, tanto no nível técnico, quanto no nível executivo. Quanto melhor educados – e em maior número – forem os executivos das empresas, mais numéricas e maiores serão as oportunidades de aplicar a tecnologia para transformar as indústrias. A vasta maioria das soluções ainda não estão funcionando a pleno vapor,e isso é uma diferença em relação a países onde o hábito de ser “first mover” ou “early adopter” é mais comum.


BN: Há ainda muito para se testar e descobrir em blockchain no mundo?
MM:
Creio que os casos de uso mais óbvios já têm sido apreciados e testados em diversas partes do mundo. Além das criptos, creio que ainda não surgiu um modelo de negócios unicamente baseado nas capacidades das tecnologias blockchain. Esse momento está na iminência de surgir e vai vir como uma enxurrada de novas possibilidades econômicas.


BN: Qual é a característica da tecnologia que fez você se dedicar a enterprise blockchain?
MM:
A capacidade de colocar competidores para colaborar por uma indústria mais eficiente sem abrir mão de suas vantagens competitivas. Não conheço outra tecnologia que permita esse tipo de colaboração no nível da indústria e ao entender esse aspecto da tecnologia, as indústrias passarão a finalmente ter acesso às grandes transformações habilitadas pelas demais características da tecnologia.


BN: Quais são os 3 casos de blockchain mais interessantes que você já viu?
O primeiro que cito é a rede Ethereum, que surgiu como a primeira moeda programável e hoje impulsiona os mais variados casos de uso no mundo corporativo: de validação de contratos de compra a rastreamento de vacinas e prontuários médicos. Há também os casos de identidade auto-soberanas (SSI na sigla em inglês). No ambiente digital é fundamental saber com quem você está transacionando e também ter domínio sobre sua própria identidade e seus dados e metadados. Num ambiente digital como as redes sociais, em que somos levados a abrir mão da nossa privacidade, SSIs são uma nova maneira de retomarmos o controle sobre aquilo que é nosso e, porque não, monetizar nossos dados em benefício próprio. Por fim, cito os casos relacionados a gestão de direitos no ambiente digital: de filmes a música a videogames. Os modelos de gestão de ativos digitais têm se mostrado muito interessantes e podem finalmente gerar valor real para quem transaciona nesses ambientes.


BN: Você acredita que as empresas vão aderir com mais força aos tokens/stablecoins/utility coins?
MM:
Os movimentos recentes me fazem crer que sim e eles incluem as Moedas Digitais de Bancos Centrais (CDBCs, na sigla em inglês) e os casos de tokenização bem sucedidos realizados pelo MB Digital Assets com consórcios e precatórios e pelo banco BTG com o ReitBZ. As CDBCs são um movimento forte e sem volta, com a China liderando essa frente através do iuan digital, que já tem mais de 80 milhões emitidos para efeito de teste. A tokenização de ativos reais é outro, em que a paridade digital traz um aumento de liquidez ao ativo tokenizado, o que não seria possível de outra maneira. O movimento “tokenize everything” vai mudar a experiência de posse dessa e das próximas gerações.


BN: Como você imagina blockchain em 12 anos ou nos próximos anos? 
MM: Creio que nos próximos anos as tecnologias blockchain passarão a ser encaradas como aquilo que são: tecnologias de infraestrutura programáveis que incorporam mecanismos de confiança para a realização de trocas de valor no ambiente digital. A partir do momento em que os mercados entenderem esse aspecto, aí teremos de fato uma ampla utilização dessas tecnologias de maneira que não mais falaremos delas como algum feito de mágica, mas serão tratadas como hoje tratamos o TCP/IP (Protocolo de Transmissão de Comunicação/Protocolo de Internet) das nossas máquinas.