Claudia Mancini
é jornalista e cientista política, especializada em negócios, blockchain e economia digital

Bradesco testa blockchain entre Brasil e Japão

O Bradesco está em fase avançada de testes para realizar a mensageria de transferências de dinheiro por blockchain entre o Brasil e o Japão. A expectativa é de que o serviço seja ofertado aos clientes ainda neste semestre, segundo Roberto Medeiros Paula, diretor da área internacional do banco. “Queremos participar desses projetos (em blockchain) porque quem decidir esperar para experimentar uma nova tecnologia, vai ficar muito atrasado”, afirmou o executivo.

Nos testes, o banco já viu que usando blockchain, as transferências caem de uma média de 2 dias pelo sistema Swift, para segundos, porque há uma redução nos processos. “Os custos também caem de forma substancial”, diz o diretor. Os valores ainda estão sendo confirmados, segundo ele. Há ainda a segurança, que é maior, com as verificações de dados pelo registro distribuído (distributed leddgers) e pelos bancos nas pontas.

O Bradesco está usando a blockchain da Ripple e na outra ponta está o banco japonês MUFG (Mitsubishi UFJ Financial Group). A transferência total de recursos (o que entra e sai do Brasil) entre os dois países é de cerca de US$ 2,5 bilhões, segundo Paula, que não informou a parcela da instituição brasileira nesse valor. O Japão é um dos 5 maiores mercados de remessas do mundo, de acordo com Luiz Antonio Sacco, diretor-geral da Ripple para o Brasil e América do Sul.

O plano do banco é oferecer de forma clara, aos clientes e não clientes, as opções disponíveis para transferir recursos. Vai ser possível então saber o tempo e o custo de cada serviço disponível, como Swift, Western Union e Ripple. “Imagino que a Ripple vai ser mais barata e mais rápida do que as outras”, diz Medeiros Paula. A limitação é sua capilaridade, uma vez que a rede tem hoje 300 instituições financeiras, enquanto a Swift está no mundo todo. Essa limitação geográfica a Ripple reconhece. Mas o início da Swift também foi assim.  

As informações de remessas farão parte de uma nova plataforma multicanais e multiparceiros do Bradesco, que poderá ou não ser lançada junto com o novo serviço de transferência. E são remessas de todos os valores, em que o cliente escolhe o que prefere usar. “É quase uma preparação para o open banking. Precisamos estar preparados para tudo”, disse o executivo.

O Bradesco não está usando a criptomoeda XRP da Ripple porque não há regulação no Brasil para isso. “A XRP não é uma moeda de especulação. É um ativo para fluxo de recursos sem alocação de compra pelos bancos”, afirmou Sacco. Segundo o CoinMarketCap, a cripto é a terceira do mundo em capitalização de mercado.

Os testes com a Ripple para o Japão começaram em setembro, junto com o teste entre as filiais do banco em São Paulo, Nova York e Ilhas Cayman. Nesse caso, são feitas transferências de recursos internos e deve continuar assim, podendo no futuro atender também clientes que tenham conta nessas unidades e queiram fazer as remessas.

Para Medeiros Paula, o grande desafio é se chegar a uma rede aberta para todos. A questão é segurança, o temor de saber que um nó da rede vê o que o outro está fazendo. “Temos que esperar a próxima onda.”

Empresas precisam de regras, diz especialista

Iniciativas do governo são necessárias para que a blockchain se desenvolva entre as empresas de um país. A afirmação é do italiano Enrico Camerinelli, que assessora empresas interessadas em usar a tecnologia. “É verdade que a definição inicial de blockchain é a de que não é preciso ter intermediários para realizar operações, uma vez que elas são validadas pelo sistema. Mas são necessárias regulações para se estabelecer as regras, uma vez que estamos falando de transações comerciais e de uso de contratos inteligentes”, afirmou ao Blocknews.

É fato que para um negócio ser sustentável, vale pouco resolver um problema de processo com uma tecnologia nova, por exemplo, e depois ter de prestar contar à justiça ou aos reguladores.

“Nesse sentido, a União Europeia (UE) parece estar indo no caminho certo”, afirma o especialista. Em primeiro lugar, não faz muito sentido ter iniciativas específicas em países, é preciso olhar blockchain por um ângulo internacional, porque a natureza da tecnologia é a de cruzar fronteiras, diz o especialista. Além disso, a falta de regulação deixaria muitas startups e empresas felizes e facilitaria as provas de conceito (POC), mas daí a transformá-las em operacionais, seria uma outra história, completa.

Sobre a UE há ainda um ponto: o bloco está acostumado a criar regras de boa convivência entre seus membros, por isso, a construção das regras para blockchain em empresas na região pode ter mais apoio do que em outros mercados. O interesse do bloco em tentar não ficar para trás na tecnologia está explícito na criação do European Blockchain Observatory and Forum para acelerar o desenvolvimento do ecossistema na região.

Mas assim como em qualquer lugar do mundo, há um obstáculo importante quando se fala em blockchain em empresas na Itália e me touros países europeus em que Camerinelli transita. Muita gente não sabe bem o que é a tecnologia e em quais casos usá-la. “Há ainda muita confusão. Tem quem confunde com Distributed Ledger Technology (DLT, a tecnologia distribuída de livro razão).” E tem quem está fazendo projetos em blockchain, mas pede para não torná-los públicos, porque receia que os menos entendidos achem que a empresa está investindo em criptomoedas, que carregam o estigma de serem algo instável. É por isso que neste momento, educação é fundamental, diz o assessor que também é professor nos cursos da 101 Blockchain, de Israel.

Mas quem adota blockchain, diz ele, se depara com o benefício de pensar fora da caixa, com novos modos de fazer as coisas e de fazer coisas novas com o que a tecnologia pemite além das tradicionais. Há um outro ponto crucial: maior colaboração com seus parceiros de negócios. E o fato de que mesmo adotando a tecnologia, pode-se continuar usando os sistemas tradicionais, há um aumento da sustentabilidade do negócio.

O lado ruim? Muitos protocolos não se falam, o que é comum em novas tecnologias. É preciso também investir em formas de aumentar a eficiência reduzindo o consumo de energia para as provas de conceito. Mas faz uma ressalva em relação à visão habitual sobre esse ponto: “há uma ineficiência no uso de energia, mas não é tão perigosa como se supõe”.

Dinheiro digital pode salvar cavalos de maus tratos

Usar dinheiro solidário digital para salvar cavalos em situação de risco foi uma das soluções propostas no Global Blockchain Challenge, que aconteceu em novembro, na cidade espanhola de Málaga. Cada equipe do desafio deveria indicar uma contribuição para que se atinja um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS), conforme reporta o site espanhol de notícias Blockchain Economía.

A equipe que trabalhou para o ODS15, que trata da proteção, recuperação e promoção do uso sustentável dos ecossistemas, sugeriu o desenvolvimento de uma plataforma de dinheiro solidário, que integraria as doações, ONGs, doadores e oráculos – que fornecem as informações necessárias para execução dos contratos inteligentes em blockchain. Para a prova de conceito (POC), o time usou a Salva un Cavallo, uma ONG que trata cavalos abandonados ou maltratados e busca quem queira adotá-los.

O Challenge aconteceu um dia antes do Convergence – The Global Blockchain Congress, que ocorreu nos dias 12 e 13 de novembro e reuniu especialistas, representantes de governos, empresas e projetos sociais todo o mundo. O Congresso foi patrocinado pela União Europeia e co-patrocinado pela Alastria, associação espanhola de empresas que utilizam blockchain.   

A reportagem completa sobre a POC do Salva un Cavallo está em https://www.blockchaineconomia.es/salva-un-caballo-blockchain/.

Governos testam de moedas digitais a registro de bebês

As discussões sobre como tornar os governos mais eficientes são comuns em todo canto do mundo. Agora, a blockchain também faz parte dessas conversas. Em diversos países está se buscando confirmar se, e como, a tecnologia pode ser usada para resolver entregas soluções como maior otimização de processos, redução de custos e melhoria da segurança cibernética. Há diversos projetos em curso em áreas tão diversas quanto a de saúde, registro de propriedades, moedas digitais, identidade digital e cobrança de impostos.

No Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) há iniciativas com blockchain. O Banco Central anunciou que pretende aprimorar o sistema de pagamentos usando a tecnologia. Já se falou em outras iniciativas, incluindo a de combate à sonegação de impostos e criação da identidade digital.

A Consensys, desenvolvedora de aplicações em blockchain para empresas, listou projetos em 43 países, além da União Europeia. Vão de um teste feito em Illinois para registro de nascimento de bebês, a um projeto de identidade digital na Argentina e o sandbox do banco central da Lituânia para desenvolvimento de produtos e serviços usando blockchain.

A lista de iniciativas desses países pode ser encontrada em http://bit.ly/36tkhF5

2020 é meta ambiciosa para a moeda, diz executivo do projeto Libra

Vai ter Libra em 2020? A previsão de lançamento da stablecoin ainda neste ano, feita no lançamento do projeto em junho passado, parece hoje mais dúvida do que certeza. Em entrevista exclusiva ao Blocknews, Dante Disparte, Vice-chairman e Head de Políticas e Comunicações da Associação Libra, afirmou que ainda não é possível prever quando a moeda estará disponível no mercado. “2020 é um objetivo ambicioso, certamente. Temos muito trabalho para fazer com os reguladores, no aspecto político do projeto”, afirmou o executivo numa conversa com um veículo de imprensa brasileiro pela primeira vez.

Questionado se sua afirmação seria uma mudança de planos do projeto em blockchain mais comentado de 2019, Disparte respondeu: “Pode ser”. E afirmou que o white paper de lançamento da moeda fala sobre uma visão ambiciosa, que tem certos aspectos que não são operacionais. “De junho a hoje continuamos a conversar com reguladores, formuladores de políticas e outros interessados e o processo regulatório é o mais importante de tudo. Mas é possível que no final de 2020 tenhamos licenças para operar”. Assim como Disparte, o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, também deu recentemente uma declaração que não confirma e nem nega os planos futuros de lançamento da moeda que vai usar a tecnologia blockchain.

A entrada no mercado da Libra, que ficou conhecida como “a moeda do Facebook”, causou um alvoroço tão grande que acabou dificultando as coisas. Críticas sobre o risco de as empresas da Associação Libra passarem a controlar dados e mexerem no sistema financeiro atual levou a uma forte reação de reguladores e políticos. Tanto que do grupo inicial de 28 empresas que formariam a associação, sobraram 21, com a saída de gente de peso, como Visa, Mastercard, eBay, PayPal e Booking.   

A associação tem uma série de tarefas na parte regulatória e na formação da infraestrutura do projeto, o que deve ser um dos focos neste ano. Depois da reação nada receptiva de reguladores e formuladores de políticas, é nas conversas com essas pessoas que a associação está se concentrando nos últimos meses e deve continuar a fazer em 2020. “Para este projeto funcionar, você não pode pedir desculpas, você tem que pedir permissão”, disse Disparte.

 Se falou com algum regulador ou formulador de política no Brasil, Disparte não responde. Diz que não abre com quem fala em lugar nenhum. E completou: “temos nos reunido com pessoas em todo o mundo e esse é um processo contínuo”.

Disparte repete como um mantra, em qualquer lugar em que esteja, que a instituição é a favor de regulação e que sem isso, o projeto não sai do papel. “Podemos controlar o aspecto operacional, o desenvolvimento da tecnologia e da associação. Mas a regulação é muito importante e não vamos lançar a Libra em nenhuma parte do mundo sem licença.” E repete isso com um auto-controle invejável quando é duramente pressionado por reguladores, como aconteceu num painel no Convergence – Global Blockchain Congress em Málaga, em novembro passado.

Outro foco de 2020 é aumentar o número de empresas na associação. “Temos que continuar a recrutar mais membros, queremos ter 100 antes do lançamento”, completou o executivo porto-riquenho que fala um português excelente, além de outras 5 línguas.

Fato é que a Libra é um projeto para lá de complexo. Construir a rede de blockchain Libra que vai usar a stablecoin tem vários passos, incluindo, na ponta dos consumidores, a criação de carteiras digitais. Sobre as carteiras, a expectativa do executivo é de que haverá diferentes soluções de carteiras digitais onde a Libra for utilizada, com as pessoas convertendo moedas fiat em libra ou recebendo pagamentos na stablecoin.  

“Olhando para trás, eu faria tudo de novo, apesar de estar sendo um caminho difícil. Mas é uma forma de estabelecer uma conversa e focar energia em questões importantes, como populações não-bancarizadas, custos altos de serviços financeiros básicos e falta de uma infraestrutura aberta que apoie a inovação e a competição”, afirmou o executivo. Esses são os aspectos que os representantes do projeto também citam como um mantra para explicar o benefício que a Libra pode trazer.  

Se o caminho é difícil, isso pode significar que Disparte ainda deve ficar um bom tempo nesse emprego. “Meu trabalho acaba quando tivermos licença a nível global para o projeto”, afirmou.

*Esta é a primeira parte de uma entrevista com Dante Disparte. O restante do material será publicado amanhã, dia 7”.